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quarta-feira, 28 de maio de 2014

Deus, um delírio

Título Original: The God delusion
Autor: Richard Dawkins

"Questiona com coragem até a existência de Deus; porque, se houver um, ele deve aprovar mais o respeito à razão que o medo cego." Thomas Jefferson

Falar de religião é sempre polêmico. No entanto, a religião tem influenciado e decidido os rumos da história da humanidade ao longo de milênios de tal forma que um debate crítico, racional e científico sobre Deus e a autoridade de livros sagrados se faz mais que necessário. Em "Deus, um delírio", Richard Dawkins, etólogo e biólogo evolutivo, mostra que a fé religiosa não é dona do privilégio único de estar além e acima de qualquer crítica. Pelo contrário, devemos questionar todas as "verdades" - sem evidências - que tem sido propagadas desde tempos remotos. O objetivo do livro não é provar a inexistência de Deus, mas sim refutar argumentos religiosos infundados, levando o leitor à conclusão de que é muito improvável que exista alguma divindade. Para isso, Dawkins especula sobre as origens genéticas da fé religiosa, desfaz o mito de que a moral depende da religião e alerta sobre os perigos da doutrinação absolutista.

Nos primeiros capítulos do livro, Dawkins se faz de "advogado do diabo" e nos apresenta os argumentos religiosos mais comuns para justificar a existência de Deus, oferecendo para cada um refutações plausivelmente explicadas. Dos oito argumentos relatados, destaco aqui dois:

1 - Argumento da "Causa sem Causa": segundo Tomás de Aquino, "nada é causado por si só. Todo efeito tem uma causa anterior". Logo, conclui-se que Deus deve ser a Causa que originou tudo.
Refutação: Este argumento gera o problema da regressão infinita. Se todo efeito tem uma causa anterior, então quem criou Deus? Dizer que Deus não foi criado, que ele é eterno, suscita uma outra questão: qual o critério foi utilizado para concluir que uma coisa é eterna e outra não é? Porque Deus é eterno e o Universo não pode ser? Pelo visto, não há critério, só especulação.

2 - Argumento da "experiência pessoal": eu creio em Deus porque Ele se revelou a mim, mudou minha vida, me deu paz, me abençoou, etc...
Refutação: As pessoas não entendem que o fato de "X" ser um consolo não significa que "X" seja verdade. A experiência pessoal "com Deus" é passível de inúmeras interpretações. Não prova a existência divina, mas talvez prove a complexidade de nossa mente, sua capacidade de criar ilusões e consequentemente de suprir carências. Dawkins compara a experiência adulta com Deus com as experiências infantis com Amigos Imaginários, mostrando casos reais interessantes sobre a semelhança entre ambas as situações.

Em seguida, o autor disserta sobre as origens dos anseios religiosos no interior do ser humano. Lançando mão de estudos genéticos e antropológicos, ele sugere que o desenvolvimento da religião está relacionado com a tendência natural que temos de acreditar em tudo que nossos pais ou líderes tribais nos disserem. Tais confiança e obediência são valiosas para a sobrevivência, assim a seleção natural preservou esse comportamento. Porém, junto com os ensinamentos essenciais para a vida, vieram também as especulações/alucinações desses líderes sobre divindades. Portanto, a inclinação religiosa seria uma espécie de subproduto do gene que nos faz sermos fiéis aos nossos ancestrais em prol da preservação da espécie.

Outra questão relevante sobre o assunto é se existe moral e altruísmo sem religião. Como já foi dito, a moral sempre se desenvolveu junto com a religião como mecanismo para preservação da espécie e da unidade tribal. Além disso, o ser humano é altruísta por causa da seleção natural, assim como o são diversos animais na natureza que praticam atos surpreendentemente benignos entre membros da mesma espécie. Se alguém só consegue fazer o bem motivado por Deus, no fundo ele não precisa de Deus, mas sim de um Policial Cósmico. É comum ver pessoas "boas" saqueando lojas quando policiais de uma cidade entram em greve. Ou seja, estes, assim como os religiosos, não conseguem ser bons ou cumprir as leis se não houver recompensa e punição, seja neste mundo ou no vindouro.

Muitos se perguntam porque Richard Dawkins é tão hostil com as religiões. Neste quesito, o autor alerta sobre o perigo de se ensinar uma verdade absoluta sem evidências a pessoas que irão interpretar esses "absolutos" de forma completamente diferente. Ou seja, a Bíblia por exemplo, contém textos amorosos e pacíficos, assim como textos xenofóbicos, homofóbicos e machistas. Um cristão moderado poderá interpretar e filtrar somente coisas boas da Bíblia, porém, alguém menos equilibrado talvez terá uma outra visão daquelas verdades absolutas. Logo, o absoluto torna-se relativo, podendo gerar fanatismos e produzir uma série de males, como divisões familiares, alienação do mundo real e até mortes em nome de Deus. Tudo isso porque ela é ensinada como a "Palavra de Deus" ou "Verdade Absoluta" e não como um clássico da literatura antiga, como a Ilíada ou a Odisséia de Homero.

Entretanto, Richard Dawkins não nega totalmente a existência de Deus. Segundo o autor, Deus pode até existir, mas a falta de evidências reduz em muito a probabilidade deste fato. Sendo assim, ele nos estimula a buscar na ciência as possíveis respostas para os mistérios do Universo. A diferença entre ciência e religião é que a primeira é flexível, suas conclusões estão sempre se alterando conforme novas evidências são encontradas. A religião, por outro lado, é inflexível, não admite a hipótese de possuir dogmas falsos. Na ciência, é comum vermos novas teorias derrubarem teorias antigas. Porém, nunca veremos um pastor pregar na igreja um sermão que negue o nascimento virginal ou a ressurreição. Assim é a religião. Inflexível. Imutável. Não é no mínimo perigoso seguir tamanha rigidez ideológica?

Enfim, recomendo fortemente esta magnífica obra, que é muito mais profunda e detalhada que esta simples resenha. O autor aborda com propriedade temas como ciência, religião, antropologia e filosofia para nos fazer repensar o motivo de nossas crenças religiosas.

E você, acredita em Deus? Porque? Escreva nos comentários!

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