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domingo, 14 de setembro de 2014

A Alma Imoral

Título Original: A Alma Imoral
Autor: Nilton Bonder

Talvez o maior desafio para o homem moderno não seja descobrir os mistérios do Universo ou as muitas incógnitas científicas. Antes disso, existe uma questão muito mais urgente para que os avanços de nossa espécie possam prosseguir de forma saudável: o homem precisa conhecer a si mesmo. Em "A Alma Imoral", o aclamado rabino e escritor carioca Nilton Bonder nos leva a um mergulho profundo no interior deste ser complexo e intrigante. Com base em biologia, antropologia e ilustrando com contos bíblicos, Bonder revela que a essência do ser humano é composta pela tensão entre duas forças opostas entre si, uma batalhando pela preservação de tradições, da moral e dos "corretos" vigentes (o corpo) e outra que luta pelo rompimento com estes códigos, em prol de evoluir para novos "corretos" (a alma).

Apesar de profundo, o autor usa uma linguagem fácil e agradável a qualquer tipo de leitor. Como rabino, ele ilustra suas conclusões com base em personagens bíblicos, mas o livro está muito longe de ser religioso. Bonder se mostra um escritor bem racional e humanista e as citações bíblicas estão mais para demonstrações metafóricas do que dogmáticas. A própria utilização da palavra "alma" - foco maior do livro - é uma linguagem figurada para o íntimo do ser, os recônditos da mente que dificilmente alguém expõe. A alma seria uma espécie de nudez, coberta pelo disfarce da moral.

Não é difícil perceber na natureza e na história humana como o estabelecimento de padrões são necessários para a continuidade da vida. Códigos genéticos - na biologia - ou códigos morais - na antropologia - são a chave para passar para as próximas gerações os "corretos" estabelecidos que foram "bons" no passado e supostamente serão "bons" também no futuro. Porém, para que haja evolução biológica, é necessário que uma espécie rompa com os códigos genéticos de seus antepassados. Da mesma forma, nas diversas culturas humanas, não houve evolução na política, religião, economia, ciência, artes ou conquistas de direitos humanos sem que houvesse a quebra de padrões antigos.

Baseado nestas observações, Bonder define o que seria a "alma" humana:

"A 'alma', diferente da definição popular, seria nada mais do que o componente consciente da necessidade de evolução, a parcela de nós capaz de romper com os padrões e com a moral. Sua natureza seria, portanto, transgressora e "imoral", por não corroborar com os interesses da moral."

Assim, o animal moral - o corpo - tem na tradição um instrumento fundamental para sua preservação, seja no âmbito familiar, social ou religioso. A alma, por outro lado, tem por lema que o "bom é inimigo do ótimo" e busca romper os "bons" estabelecidos para alcançar o "ótimo" e assim evoluir.

"Transgredir é transcender, e nossa história não teria mártires no campo político, científico, religioso, cultural e artístico caso fosse possível transcender sem colocar em risco a sobrevivência da espécie."

É possível notar como a transgressão leva a transcendência através, por exemplo, do surgimento da democracia, da abolição da escravatura, das conquistas dos direitos trabalhistas, dos negros e das mulheres, etc. Ou seja, em toda a História, não houve evolução sem a transgressão de um determinado código estabelecido.

Assim, o autor revela que a saúde do ser depende do equilíbrio destas duas naturezas, a que preserva e a que transgride. Saber conhecer o tempo de honrar tradições e o tempo de quebrá-las é essencial para que o homem evolua com segurança. O corpo sem a alma representa o conservadorismo extremo, o fundamentalismo que exalta o coletivo e ignora o indivíduo, transformando os homens em robôs obedientes. Já a alma sem o corpo é a personificação do caos, da irresponsabilidade, da anarquia e da "rebeldia sem causa" que resulta em destruição. O corpo e alma são dependentes entre si. Não pode haver tradição sem traição, nem traição sem tradição.

"A espécie humana enfrenta um mundo que realmente se estreitou. Ele é estreito tanto pela moral como pela rebeldia. A repressão vitoriana e o licencioso mundo hippie são lugares estreitos para um ser humano que aos poucos percebe que busca algo diferente. A alienação e a falta de “causas” são os sintomas mais evidentes de que a busca não se dá pela extirpação desse conflito, mas por uma tentativa de vivê-lo de forma ampla no íntimo de cada um de nós."

Enfim, depois que você ler "A Alma Imoral" a sua visão da natureza humana, da História e da vida nunca mais será a mesma. Uma verdadeira obra prima, profunda em significado e simples na didática.
Leitura obrigatória!

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E você, já leu o livro? Você acredita em morais absolutos ou entende que toda moral é passível de ser revista e alterada? Comente abaixo:

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