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segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Thomas Jefferson vs Bíblia

Thomas Jefferson  vs  Bíblia: O que os fundadores dos EUA realmente pensavam sobre o Cristianismo?

Um dos pais fundadores da nação norte-americana - autor da Declaração da Independência e terceiro presidente do país - usou uma tesoura para recortar vários trechos da Bíblia e publicar um volume somente com as passagens que ele achava que eram úteis. A Bíblia de Jefferson existe até hoje, e está disponível online (aqui). Mas será que ele realmente chamou o livro sagrado de  "um monte de merda", como alguns dizem?

A resposta a essa pergunta é sim... e não!

Sim, Jefferson pensava que a maior parte da Bíblia era um monte de porcaria, e sim, ele fez, por analogia, uso do termo "esterco". Não há dúvida: Se Barack Obama repetisse as palavras de Jefferson, republicanos conservadores rangeriam de raiva e muita merda seria lançado no ventilador.

Mas vamos continuar a analisar a outra metade da resposta, o "não", que demanda explicar bem o contexto e as palavras exatas de Jefferson.

Comparando com alguns comentários de Thomas Paine sobre a Bíblia, a crítica de Jefferson até que foi bem leve. Jefferson fazia parte de um grupo de homens eruditos e respeitáveis que se esforçavam para remover as camadas de mitologia e superstição que foram claramente adicionados no primeiro e segundo séculos do Cristianismo. A analogia que ele usou foi de "separar o esterco dos diamantes", e o que ele decidiu aproveitar da Bíblia - os diamantes - era o que ele acreditava serem as autênticas palavras de Jesus.

A busca de Jefferson para extrair o homem do mito - isto é, a busca pelo Jesus histórico - continua até hoje. Cristãos de todas as épocas nunca concordaram sobre quem ou o que Jesus é, por isso o Cristianismo é fragmentado em mais de 30.000 denominações diferentes. No início da era cristã, a adoração a Jesus gerou alguns pequenos conflitos e divisões, que Bart Ehrman, PhD em teologia, chama de "Cristianismos perdidos". Nos últimos duzentos anos, legiões de teólogos, tradutores, antropólogos, historiadores, entusiastas e até profissionais de saúde mental tem formulado versões diversas sobre o homem por trás do mito - ou questionando se ele de fato existiu.

Ironicamente, as primeiras tentativas de separar o Jesus-ficção do Jesus-fato foram justamente nos concílios da Igreja que resultaram na nossa Bíblia, ou seja, foram em reuniões para decidir quais textos eram de inspiração divina e quais não eram, dentre centenas de manuscritos. Estes concílios não possuíam o mínimo das técnicas modernas de análise histórica e seus métodos eram arcaicos e ingênuos pelos padrões atuais. Sem contar que cada participante destes concílios tinha uma tarefa hercúlea: certificar que a adoração a Jesus era a mesma praticada séculos antes, quando do surgimento da religião. Ou seja, os "editores" do Canon bíblico inseriam ou removiam textos na Bíblia de acordo com a proximidade do possível autor para com Jesus e o livro em si deveria estar de acordo com a linha romana do Cristianismo.

Convencidos de conseguirem separar as revelações divinas das impurezas, as autoridades da Igreja selaram o Canon (ou conteúdo da Bíblia) no século IV. Assim, como a Igreja se expandiu junto com o Império Romano, cristãos que pensavam diferente das doutrinas estabelecidas eram queimados, juntamente com seus textos heréticos.

Nos dias de Jefferson, porém, o Iluminismo prevaleceu. A Reforma Protestante, dois séculos antes, tinha deixado a Bíblia praticamente intacta (após a retirada dos chamados livros Apócrifos) e, de fato, elevaram em muito a autoridade das Escrituras. Mas os fundadores dos EUA e muitos intelectuais da época não viam os Evangelhos como verdadeiros em sua plenitude. Muitos eram deístas - acreditavam que as verdades espirituais eram mais fáceis de serem encontradas no estudo da natureza e na aplicação da razão do que em textos sagrados. Thomas Jefferson era um deles e ele não era fã das teologias cristãs e nem dos teólogos, como suas cartas deixam claro:

"Em nome de dogmas religiosos os homens tem torturado, guerreado e queimado uns aos outros desde o início dos tempos, tudo por causa de doutrinas abstratas e ininteligíveis, totalmente fora da compreensão da mente humana. Se eu entrar nesta arena, serei apenas mais um lunático no meio de muitos."  — para Carey, 1816: N. Y. Pub Lib., MS, IV, 409.

"Já não dá mais para os homens sinceros fingirem que acreditam nos misticismos platônicos de que três são um, e um são três; ou que um não é três e três não é um... mas isso constitui o ofício, o poder e o lucro dos líderes religiosos. Removam toda esta baboseira mística e eles não conseguirão arrebanhar nem uma mosca. Devemos então, como os Quakers, viver sem nenhum tipo de liderança eclesiástica, moralizando a nós mesmos, seguindo o oráculo da consciência e parar de pregar coisas que os homens não podem entender." — para John Adams, 1813.

"O ridículo é a única arma que pode ser usada contra proposições ininteligíveis. Idéias devem ser deixadas de lado até que a razão atue sobre elas; e nenhum homem tem a menor idéia do que seja a Trindade de fato. A Trindade é apenas o Abracadabra dos saltimbancos que se autodenominam sacerdotes de Jesus." — para Van der Kemp, 1816.

"Os pastores desfiguraram tanto os simples ensinos de Jesus que qualquer um que ouça essas pregações absurdas - misturadas com jargões platônicos, aristotélicos e outros misticismos - jamais diria que isso tem alguma coisa a ver com o sublime pregador do Sermão da Montanha." — para Dr. Waterhouse, 1815.

"Instale a razão firmemente em seu trono e traga diante do seu tribunal todo fato, toda opinião. Questione com coragem até mesmo a existência de Deus; porque, se existe um, ele deve aprovar mais o respeito à razão do que o medo cego." — para Peter Carr, 1787.

No entanto, apesar da aversão de Jefferson à religião organizada e todos os absurdos que ela carrega, ele nunca questionou se Jesus foi mesmo um personagem histórico real ou meramente um modelo para nos inspirar. De fato, foram estes dois pressupostos que o levaram a comentar sobre "esterco" nas cartas a James Madison e W. Short:

"O maior de todos os reformadores da religião foi o próprio Jesus de Nazaré. Abstraindo o que é realmente seu discurso do lixo no qual ele está misturado, facilmente conseguimos distinguir seu brilho no meio das impurezas que os escritores dos Evangelhos adicionaram e podemos separar os diamantes do esterco. Assim obtemos as bases de um sistema da mais sublime moralidade que jamais saíram da boca de um homem." — To W. Short, Oct. 31, 1819.

"É evidente que algumas partes do Novo Testamento procederam de um homem extraordinário, enquanto outras são fabricações de mentes bem inferiores. Separar as partes boas das ruins é como retirar diamantes enterrados em esterco." - para John Adams, 1804.

Para Jefferson, Jesus foi um sábio e beneficente mestre da moral. Porém, foram adicionados a seus ensinos uma série de impurezas míticas e histórias fabricadas que fizeram dele um ser mágico, como o nascimento virginal, milagres e a ressurreição. Ele também odiava as superstições do ensino cristão sobre pecado e salvação - a idéia de que todos nascemos em pecado por causa de Adão e Eva, por exemplo, ou que alguns poucos, os eleitos, serão escolhidos para viver eternamente no céu.

Tanto para Jefferson como para milhões de pessoas através da História, a figura de Jesus é uma espécie de teste psicotéctnico - como aquelas imagens borradas em que o paciente diz o que está enxergando nelas. Ou seja, Jesus é um personagem criado com tantas ambiguidades que Ele consegue justificar para cada grupo aquilo que este grupo considera certo ou errado. Para cristãos de classe alta, Jesus é o cara que jogaria golf com eles. Para cristãos de esquerda, Jesus é o amigo dos pobres. Para os conservadores, Jesus é um rígido juíz. Porém, como um intelectual do Iluminismo e rebelde contra a coroa Britânica, Jefferson via Jesus como um benevolente homem da razão, assassinado não por nossos pecados, mas por rebeldia contra o sistema religioso da época. Seu Jesus era um espelho de suas próprias aspirações e dos valores que ele via como certos para si e para o país que ele ajudou a fundar. E para ele, estes valores eram os diamantes.

Valerie Tarico
Traduzido de http://www.salon.com/2014/12/03/thomas_jefferson_vs_the_bible_what_americas_founding_father_really_thought_about_religion_partner/

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