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segunda-feira, 17 de junho de 2013

Mitologia Ocidental - Parte III


Dualismo ético - Zoroastrismo

Por volta do século VII a.C., o mundo estava mergulhado no politeísmo e em religiões cujos deuses “estavam fora do alcance do julgamento ético. Na verdade, estavam fora de todos os pares de opostos: bem e mal, verdadeiro e falso, ser e não-ser, vida e morte.(...) A orientação de tal ordem de pensamento era metafísica, não ética ou racional, mas trans-ética e trans-racional. No Extremo Oriente, por exemplo, (...) o mundo não era para ser reformado, mas apenas conhecido, reverenciado, e suas leis obedecidas.” As leis éticas de Israel estavam a muito esquecidas tanto pelos reis hebreus quanto pelo povo. Assim, o povo escolhido do único Deus Jeová já havia sido totalmente absorvido pela idolatria e costumes pagãos. Tanto que, anos depois, o rei Josias encontra a Lei no Templo e restaura o monoteísmo em Israel como nunca havia sido praticado desde os tempos do profeta Samuel (2 Cr. 35:18). Ou seja, durante cerca de 300 anos, os hebreus estavam desviados de suas Leis éticas, morais e ritualísticas.


Surge então, na Pérsia, um profeta chamado Zoroastro, anunciando de forma revolucionária uma filosofia que consistia de vários elementos importantes na construção do pensamento judaico, cristão e islâmico posteriores. Zoroastro dissemina na Pérsia e no mundo o monoteísmo, sendo Ahura Mazda o único Senhor e Criador do Universo. Oposto a Ele, existe Angra Mainyu, que é a personificação da Maldade e Mentira, uma espécie de Satanás. Dentre as diversas doutrinas propagadas pelo profeta persa, estão: o dualismo ético gerador do juízo eterno baseado em fazer ou não boas obras, a imortalidade da alma, a ressurreição dos mortos, juízo final com a aniquilação do Mal (Angra Mainyu) e a restauração do Reino perfeito de Ahura Mazda.

As doutrinas zoroastrianas se espalharam de tal forma que podemos observar sua influência em muitos fatos importantes da história. Por exemplo, o imperador persa Ciro era um devoto fiel de Ahura Mazda e seguia piamente os preceitos de Zoroastro. Como podemos ler na Bíblia, Ciro, o Grande, é aclamado pelo profeta Isaías como o "ungido do Senhor" (Is. 45:1-4), pois fora benevolente para com os povos cativos e libertou muitos deles, inclusive os judeus, para voltarem para suas terras (Esdras 1:1-7). Ciro acreditava na prática das boas obras, da misericórdia e no amor como forma de salvação, como Zoroastro pregava. "A nobreza de seu caráter resplandece", escreve o Prof. Eduard Meyer, "tanto nos escritos dos persas, a quem ele conduziu ao domínio do mundo, como nos dos judeus, que libertou, e dos gregos a quem derrotou".


Os judeus, durante o cativeiro babilônico, absorveram em suas tradições muitas das doutrinas pregadas por Zoroastro. Mais tarde pode-se ver a criação de dois partidos político-religiosos em Israel: os fariseus e saduceus. Conforme lê-se nos evangelhos, os saduceus eram mais "puritanos" com relação às tradições judaicas e não aceitavam misturas gentílicas. Por isso não acreditavam na ressurreição dos mortos, na imortalidade da alma, no juízo final de vivos e mortos, dentre outras doutrinas que surgiram com Zoroastro, e não com os judeus. Já os fariseus eram mais "liberais" e aceitavam a introdução do pensamento zoroastriano em suas crenças.

Muitos dos ensinos, princípios e parábolas de Jesus e várias ilustrações do Apocalipse são bem parecidos com aquilo que Zoroastro pregava, principalmente referindo-se à prática das boas obras, boas ações e boas palavras. Parábolas como a do rico e Lázaro (Lc 16:19-31) e a ilustração do julgamento final baseado na caridade para com os pobres e rejeitados (Mt. 25:31-46) parecem ter sido extraídos de textos de Zoroastro. Muitas doutrinas cristãs estudadas nos seminários teológicos até hoje são oriundas do zoroastrismo. Ora, isto não tira a autoridade do Filho de Deus, muito pelo contrário, mostra que Jesus não era um bitolado religioso judeu, mas sim um Homem completo, que compreendia a revelação de Deus em todos os povos e as utilizava para mostrar a grandeza e soberania de um Deus que não está limitado a "cercas" religiosas ou culturais.
Helenismo

Vimos na Parte II deste estudo que a Grécia passava, por volta de 400 a.C., por um período de transformações profundas no pensamento coletivo mitológico e filosófico. Os mitos outrora idolatrados passavam agora para a categoria de meras alegorias pelos sábios gregos. Filósofos tentavam exprimir uma redefinição da essência divina, ou "causa última" como chamavam pelo termo ἀρχή. Tales de Mileto acreditava que a causa última era a "água"; Anaximandro, o "ilimitado"; Anaxímenes, o "ar"; os pitagóricos, o "número". Porém, um século mais tarde, Platão e sua escola abordaram o tema de forma mais sublime, inclusive repetida por Jesus e pelos apóstolos. Platão dizia que a essência divina era o "amor".


"Tem-se argumentado que a mitologia grega degenerou de religião em literatura por causa do sentido sumamente crítico da mente grega, que já se havia voltado contra ela nos séculos VI e V a.C. Com frequência, esse argumento envolve a idéia de que o politeísmo é uma forma inferior de religião, vulnerável à crítica, enquanto o monoteísmo, não. Em consequência, quando a mente grega começou a analisá-lo de modo crítico, o politeísmo foi liquidado. Abriu-se então o caminho para a Verdade Cristã revelada do Deus Único em Três Pessoas, com seu panteão de anjos, contrapanteão de demônios, comunhão de santos, perdão de pecados e ressurreição do corpo. Abriu-se caminho também à presença múltipla (em cada gota consagrada do vinho e pão da Santa Ceia) do Filho de Deus morto e ressuscitado - verdadeiro Deus e verdadeiro Homem -, nascido milagrosamente da Virgem Mãe Maria." [1]


Tanto o monoteísmo hebreu quanto o persa (com exceção de Ciro) tinham como característica marcante o extermínio de tudo aquilo que era considerado impuro dos inimigos (inclusive animais e crianças), pois não havia outro Deus senão o seu próprio. Com a chegada de Alexandre, o Grande, no cenário político mundial em 334 a.C., a conquista do Oriente e da Índia, não com destruição mas com o domínio cultural, fizeram com que os deuses gregos influenciassem todas as culturas do mundo. Apesar de os gregos estarem em uma nova fase de pensamento filosófico acerca do divino, "os belos deuses gregos, longe de morrer, sopraram seu alento inspirador por toda a Ásia, despertando novas formas religiosas e estéticas na Índia Maurya, na China Han e no Japão. No Ocidente, despertaram Roma e no sul deram um novo significado aos antiquíssimos cultos da deusa Ísis e seu cônjuge." [1]


Existem três pontos importantes a serem observados quanto à influência grega no mundo: 1) o sincretismo religioso promoveu tolerância e respeito entre diversas culturas, pois os povos dominados por Alexandre identificavam analogias entre seus deuses e os dos gregos; 2) O desenvolvimento da matemática e astronomia fora muito mais proeminente devido às trocas de conhecimento com os sábios do Oriente; 3) Na Índia, a filosofia grega encontrou-se com os iogues jainistas, budistas e bramanistas, dando origem a um saber místico psicossomático que seria o embrião da moderna psicologia de Nietzsche, Freud e Jung.


Além disso, os avanços na ciência promovida no império alexandrino foram inúmeros. Aristarco de Samos (310-230 a.C.) propôs que a Terra e todos os planetas giravam em torno do Sol, contrariando o pensamento geocêntrico que predominou até Copérnico (1473 d.C.)! Erastóstenes de Cirene (275-200 a.C.) mediu a circunferência da Terra com uma imprecisão de apenas 321 quilômetros, e concluiu que se podia navegar da Espanha, na direção oeste, até a Índia. Sugeriu também que o Atlântico estaria dividido por uma massa de terra (América)! Na medicina, Herófilo de Calcedônia (séc. III a.C.) descobria a relação entre o cérebro, a coluna vertebral e os nervos, e Erasístrato de Chíos (séc. III a.C.) reconhecia a diferença entre os nervos motores e sensoriais.



Referências:
[1] As Máscaras de Deus - Vol. 3 - Mitologia Ocidental
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Na próxima parte veremos como o cristianismo transformou o mundo utilizando muito do pensamento grego de um lado, porém também lançando mão do antigo pensamento "levantino" conquistador e ditatorial.

2 comentários:

  1. Onde está a parte IV?

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    Respostas
    1. Olá... eu cheguei a começar a escrever, mas infelizmente não tive tempo de terminar. Pretendo escrever esta continuação em breve, bem como resumir também o livro "Mitologia Oriental", também do Campbell.
      Me mande o seu endereço de email e assim que o artigo estiver disponível eu aviso.
      Segue meu email: rafapaz@gmail.com

      Abs

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