Pages - Menu

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

O que é arte?

Título Original: Что такое искусство?
Autor: Leon Tolstói

"Todos os artistas, público e críticos, com pouquíssimas exceções, nunca experimentaram - salvo na infância e na juventude - aquele sentimento singelo, conhecido do homem mais simples e mesmo das crianças, de ser contagiado pelos sentimentos de outrem, algo que faz com que nos alegremos com a alegria do outro, soframos com seu sofrimento e misturemos nossas alma à dele, e que constitui a essência da arte."

O que é arte? Só mesmo um gênio da literatura como Leon Tolstói poderia responder a esta pergunta com um impressionante equilíbrio entre simplicidade e profundidade. Longe de ser mais uma teoria sobre estética, Tolstói vai muito além e disserta sobre a matéria-prima da arte verdadeira: o sentimento do artista. Para isso, o autor de Guerra e Paz nos leva desde as manifestações artísticas dos povos antigos até o final do século XIX, momento em que a arte se transformou em entretenimentos comerciais sem profundidade emocional - mesmo as obras esteticamente perfeitas.

No início do livro, o autor mostra como a arte da antiguidade estava ligada à necessidade do povo de transmitir sentimentos elevados, que circunstancialmente para a época, era o sentimento religioso. Ele se refere aos Salmos, Hinos Védicos, A Odisséia, etc. Porém, "a descrença das altas classes do mundo europeu no final da Idade Média criou uma situação em que a atividade artística foi substituída por uma outra cujo objetivo era proporcionar o maior prazer para um certo grupo de pessoas". A partir deste momento na História, a arte torna-se mera distração a ser consumida por uma classe nobre, ávida por pagar fortunas pelas mais supérfulas distrações. Ou seja, a arte passou de transmissão de sentimento para uma fonte de prazer.

"(...) essas pessoas não só não conseguem distinguir a arte verdadeira das falsificações, mas sempre confundem o que há de pior e mais falso com arte genuína, sem notar a genuína porque as falsificações são sempre mais chamativas, enquanto a arte verdadeira é modesta."

Diante deste cenário, Tolstói vai criticar duramente o papel dos artistas de seu tempo, colocando-os como talentosos falsificadores da arte, que sabem muito bem recortar e colar de suas referências anteriores para criar novos divertimentos vazios. Isso porque é impossível que a demanda por divertimentos consiga extrair sentimentos espontâneos da experiência de vida do artista, que segundo o autor, é o fator que faz uma arte ser verdadeira. Tolstói vai enfatizar isso durante todo o livro: que a verdadeira arte é aquela que surge da necessidade que um homem comum tem de transmitir - através de algum talento - um sentimento que tenha experimentado em sua vida, a fim de contagiar os espectadores para que estes sintam a mesma experiência vivida pelo artista. "As palavras são a comunicação de conhecimento, enquanto a arte é a comunicação de sentimentos", diz o escritor.

Sendo assim, o gênio da literatura russa condena a produção comercial em série da arte, pois isso prejudica a sensibilidade artística do público, que acaba ficando acostumado com uma arte falsa. Apesar de ter sido escrito a mais de cem anos atrás, esta obra nunca foi tão atual diante da imensa quantidade de lixo artístico que infestam a TV, os palcos e os cinemas dos dias de hoje. Arte artificial, fabricada com o único intuito de dar lucro.

"Quando a arte se tornou uma profissão, sua maior e mais preciosa propriedade - a sinceridade - tornou-se enfraquecida e foi parcialmente destruída."


Seguindo esta linha, Tolstói vai exaltar alguns contos e quadros de camponeses desconhecidos, enquanto critica algumas obras de famosos - como Beethoven e Goethe - como sendo artificiais. Ele chega a criticar até mesmo suas próprias obras. Para ele, a arte tem um papel muito mais elevado do que dar prazer a uma elite entediada: a arte é o caminho para a unificação e paz entre os povos. Assim, este livro resgata a essência do ser humano, aquelas sensações sinceras e experiências intensas que somente as crianças e os cidadãos comuns experimentam... sensações essas que são a verdadeira matéria-prima da arte que toca o público e coloca a Humanidade em um caminho de unidade através desta comunicação de sentimentos.

Em resumo, O que é arte? não é um livro que serve para alimentar o ego de intelectuais com teorias bonitas, para que impressionem em textos, críticas e aulas. A obra de Tolstói é uma riquíssima - porém incômoda - reflexão sobre o papel da arte como catalisador do bem comum entre os homens, através da comunicação por sentimentos. E infelizmente, esta necessidade de comunicar sentimentos vem sendo substituída com entretenimentos vazios, gerando assim uma sociedade fria, robótica, depressiva e carente emocionalmente.
--
E você, o que pensa sobre esta polêmica visão de Tolstói? Concorda? Discorda? Deixe o seu comentário!

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

O Senhor das Moscas

Título Original: Lord of the Flies
Autor: William Golding

O que aconteceria se um bando de crianças fossem largadas em uma ilha deserta? Como sobreviveriam e como se organizariam em sociedade? Em O Senhor das Moscas, o ganhador do prêmio Nobel Willian Golding responde a estas perguntas através de uma história que desnuda a natureza humana no contexto dos relacionamentos pessoais e construções sociais. Não há nada mais cativante do que trabalhar com as emoções infantis. O autor soube usar com maestria esses elementos para mostrar como o ser humano rompe com facilidade os limites entre a civilidade e selvageria, entre a inocência e a violência, entre a democracia e a autocracia.

“- Acho que precisamos de um chefe para resolver as coisas.
- Um chefe! Um chefe!
- Eu é que devo ser o chefe - disse Jack com uma arrogância simples - porque sou chefe do coro, além de solista. E consigo atingir o dó sustenido.”

A sinopse é curiosa: um avião cheio de crianças cai em uma ilha deserta e os únicos adultos presentes no voô (os pilotos) morrem na queda. Assim, um bando de crianças inglesas, entre seis e treze anos de idade, devem se virar para sobreviver e ao mesmo tempo tentar chamar a atenção para serem resgatados por algum navio. No início tudo é festa e brincadeira. Eles encontram frutas para comer. Porém a necessidade de ordem e de caçar os leva a viver momentos de tensão e desavenças, numa disputa intensa por poder.

“- Tem coisas que os adultos sabem. - disse Porquinho - Eles não sentem medo do escuro. Eles se encontram, tomam chá e conversam. E aí os problemas se acabavam.”

O autor se mostra extremamente competente ao construir personagens infantis muito convincentes, através de diálogos que surpreendem pela inocência, pureza e espontaneidade. Ao longo da trama, o caráter de cada pequenino é revelado aos poucos, conforme as circunstâncias vão ficando extremas e difíceis. Essa evolução - ou involução - lenta e gradual de alguns personagens é um fator decisivo que faz de O Senhor das Moscas uma obra-prima.

“- E eu, não ganho nada?
Tinha sido mesmo intenção de Jack deixá-lo na dúvida, para reafirmar o seu poder; mas Porquinho, ao anunciar ter sido preterido, tornou necessária a crueldade adicional.
- Você não caçou.”

Além disso, o livro levanta, de forma indireta, diversas questões filosóficas e sociológicas interessantes. O que somos de fato? Somos produtos do meio, ou o meio é um produto nosso? Qual é o modelo ideal de organização política? Um modelo inclusivo que prioriza a vida e a diversidade vocacional, mesmo que isso acarrete mais lentidão no desenvolvimento tecnológico? Ou um modelo exclusivista, cuja prioridade está nas conquistas materiais através da meritocracia e padronização do ser humano? O que funciona melhor: o diálogo ou a imposição autoritária? Como os mitos, crenças e fanatismos são originados? Enfim, a história trata sutilmente dessas e de outras questões, nas entrelinhas dos conflitos entre os personagens.

“Eu tenho medo dele - disse Porquinho - e é por isso que eu sei quem ele é. Quando você sente medo de alguém, odeia a pessoa mas não consegue parar de pensar nela. Você se engana, diz que no fundo ele é bom, mas então, da próxima vez que encontra a pessoa, parece que tem uma crise de asma, e não consegue respirar. E vou dizer mais uma coisa. Ele detesta você também, Ralph."

Enfim, O Senhor das Moscas é leitura obrigatória para aqueles que não se contentam com meras ficções escapistas. É uma obra cativante, visceral, tensa e rica em reflexões importantes sobre a natureza do ser humano e seu papel nas relações sociais. Além disso, a obra serviu de inspiração para vários sucessos comerciais na literatura e no cinema, dentre eles Battle Royale (Koushun Takami, Japão, 1999) e Jogos Vorazes (Suzanne Collins, EUA, 2008).

Puxou a faca da bainha e a cravou no tronco de uma árvore. Da próxima vez não teria piedade. Olhou em volta com ar feroz, desafiando os outros a duvidar do que dizia.

---

E você, já leu? Conte nos comentários o que achou da leitura!

segunda-feira, 31 de março de 2014

O Príncipe

Título Original: Il Principe
Autor: Nicolau Maquiavel (1469-1527)

"A crueldade bem empregada - se é lícito falar bem do mal - é aquela que se faz de uma só vez, por necessidade de segurança; depois não se deve perseverar nela, mas convertê-la no máximo de benefícios para os súditos."

Falar de "O Príncipe" de Maquiavel é entrar em um campo caótico e difícil para uma sociedade cujos ideais políticos sejam a perfeição moral, a bondade e a felicidade para todos. Talvez um dos mais importantes tratados que definiu o Estado moderno como o conhecemos, o livreto ainda causa polêmicas e é mal interpretado por alguns. Por outro lado, é o livro de cabeceira de todos os que alcançaram o poder nos últimos 500 anos, sejam reis, ditadores ou presidentes de repúblicas democráticas. Hoje, a obra é analisada meticulosamente em cursos de liderança para a carreira política, empresarial e militar.

"O homem que quiser ser bom em todos os aspectos terminará arruinado entre tantos que não são bons. Por isso é preciso que o príncipe aprenda, caso queira manter-se no poder, a não ser bom e a valer-se disso segundo a necessidade. (...) Pois com pouquíssimos atos exemplares ele se mostrará mais piedoso que aqueles que, por excesso de piedade, permitem uma série de desordens seguidas de assassínios e roubos."

Escrito em 1513, "O Príncipe" trata-se de uma carta de conselhos a Lourenço II de Médici (1492–1519), Duque de uma província italiana em uma época em que a Itália encontrava-se totalmente dividida. É importante conhecer o contexto e os motivos que levaram Maquiavel a escrever declarações tão fortes, desprovidas de moral ou de senso de humanidade. Maquiavel desejava a unificação da Itália, bem como um bom cargo na alta aristocracia, caso Médici conseguisse conquistar a região com seus conselhos, o que não aconteceu. Assim, conquistar e governar um reino nas condições caóticas em que a Itália se encontrava necessitava de atitudes rígidas, temíveis e astutas, ou, em outras palavras, necessitava que os fins justificassem os meios.

"A ofensa que se faz ao homem deve ser tal que não se possa temer vingança."

Existe uma teoria - não comprovada - de que Maquiavel tenha escrito "O Príncipe" como uma sátira ao poder monárquico, já que ele possui outros escritos defendendo a política democrática. Olhando por este ângulo, chega a ser "malignamente engraçado" a forma que Maquiavel pinta o quadro do príncipe perfeito: um agente sem alma, uma entidade que ignora os conceitos de "bem" e "mal" e simplesmente deve fazer o necessário para manter-se no poder, prosperar sua nação e expandir seus territórios. Mas, caso não seja sátira - o que é provável - aqui o autor rompe com as interpretações filosóficas da Grécia antiga sobre os fundamentos da boa política, cujos objetivos eram a "felicidade" e o "bem comum". Além disso, Maquiavel acaba com tradições religiosas sobre as quais acreditava-se que os ciclos no poder decorriam da determinação divina ou eram provenientes do "direito divino".

No decorrer do livro Maquiavel recorre a inúmeros exemplos históricos - desde os imperadores da antiguidade até os reis europeus de sua época - para mostrar como de fato funciona o jogo do poder e quais são as regras para se ganhar este jogo. Para ele, não adianta o governante ser utópico, cheio de teorias políticas bonitas, pacíficas e inocentes. O jogo do poder é selvagem, uma terra de ninguém, um lugar desumano. Por isso, Maquiavel trata da política não como ela deveria ser, mas como ela é. Assim, seus conselhos - não ao pé da letra, mas adaptados de forma racional ao contexto de cada época e lugar - podem ser úteis para o bom funcionamento de qualquer Governo, seja ele uma monarquia, república ou ditadura.

"É melhor ser amado ou temido? Todos gostariam de ser ambas as coisas; porém, como é difícil conciliá-las é bem mais seguro ser temido que amado... pois os homens são ingratos, volúveis, fingidos e dissimulados, avessos ao perigo, ávidos de ganhos."

Em suma, concordando ou não com as idéias de Maquiavel, "O Príncipe" é um livro obrigatório para entendermos como realmente funciona o poder político no mundo. Aconselho a ler a edição da Ediora Penguin Companhia das Letras (capa da imagem no topo do artigo), que, além de ter uma tradução atual e fácil, conta também com um excelente prefácio do ex-presidente do Brasil, Fernando Henrique Cardoso e um apêndice sobre cada personagem e fato histórico mencionado pelo autor. Evitem ler edições com tradução muito antiga.

E você, já leu "O Príncipe"? Comente abaixo sobre esta polêmica e importante obra!
---------------------------------------------------------------------------------------------------------


PS: mais alguns conselhos maquiavélicos extraídos do livro:

"O mais importante é abster-se dos bens alheios, pois os homens se esquecem com maior rapidez da morte de um pai que da perda do patrimônio."

"Um soberano prudente não pode nem deve manter sua palavra quando isto se reverta contra ele e já não existam os motivos que o levaram a empenhá-la."

"Nunca houve um príncipe que desarmasse seus súditos; ao contrário, quando os encontrou desarmados, sempre os armou; isso porque, ao armá-los, tais armas se tornam suas."

"O desejo de conquista é coisa realmente natural e comum e os homens que podem satisfazê-lo serão louvados sempre e nunca recriminados. Mas não o podendo, e querendo fazê-lo de qualquer modo, aí estão em erro, e merecem censura."

"Quem cria o poder de outrem se arruína, porque tal poder se origina da astúcia ou da força, e ambas são suspeitas a quem se tornou poderoso."

"Jamais se deve deixar que um distúrbio se alastre a fim de evitar uma guerra, porque a guerra é inevitável, e postergá-la só traz vantagens ao adversário."

"A melhor fortaleza que há é não ser odiado pelo povo."

"E quando for imprescindível agir contra o sangue de alguém, que o faça por uma justificativa sólida e um motivo evidente."

segunda-feira, 24 de março de 2014

O Coração das Trevas

Título original: Heart of Darkness
Autor: Joseph Conrad (1857 - 1924)

"A conquista da Terra, o que na maior parte significa tirá-la daqueles que tem uma fisionomia diferente ou narizes ligeiramente mais achatados do que os nossos, não é uma coisa bonita quando você olha demais para ela."

Nesta obra prima da literatura inglesa, Joseph Conrad conduz o leitor a uma fascinante viagem pelo interior da África e, ao mesmo tempo, pelos meandros da mente humana, revelando seus mais grotescos anseios, ganancias, preconceitos, loucuras e fraquezas. Como capitão da marinha inglesa durante 16 anos, Conrad percorreu todos os continentes do globo, tirando disso experiências que se tornaram os cenários de seus inúmeros livros e contos. O tema principal de "O Coração das Trevas" é a fusão do civilizado com o selvagem no interior do ser humano, cujos limites são desconhecidos e se misturam quando o homem é movido pela ganância.

O livro conta a história de um marinheiro chamado Marlow, que parte em uma missão de resgate do misterioso Kurtz, um importante comerciante de marfim, no interior de uma floresta africana ao final do séc. XIX. A jornada acontece em um barco a vapor através de um sinuoso rio que penetra uma tenebrosa floresta repleta de nativos selvagens e exploradores loucos. Esta obra magnífica deu origem ao clássico filme "Apocalipse Now" de Francis Ford Coppola, sendo que na adaptação para o cinema a história foi transportada para a guerra do Vietnã.

Conrad narra sua odisséia com impressionante realismo, detalhando com precisão a bela natureza do local, levando o leitor a uma emocionante experiência imersiva. O ritmo de leitura pode cansar em alguns momentos, pois trata-se de uma obra muito descritiva, cujo valor da mensagem encontra-se implícito no perfil psicológico de seus personagens. É impressionante como o autor consegue centrar toda a trama em um personagem que só vai aparecer no final. Durante toda a travessia no rio, Marlow e o leitor vão aos poucos recebendo uma série de informações sobre o poderoso e misterioso Kurtz, um homem que contagiara toda uma região e tornara-se uma espécie de rei/semi-deus entre nativos e comerciantes na selva.

" 'O senhor não fala com o Sr. Kurtz?', disse eu. 'Você não fala com aquele homem – você o escuta', exclamou com severa exaltação. (...) 'Quem não se tornaria amigo dele ao ouvi-lo falar, ainda que fosse uma só vez?', dizia ela. 'Atraía as pessoas em direção a ele com o que havia de melhor nelas ... esse é o dom dos grandes homens'."

Este é um livro difícil para se fazer uma reflexão, visto que ele aborda questões complexas da mente humana e temas contrastantes como os limites entre bem e mal, certo e errado, civilizado e selvagem, loucura e normalidade. Aconselho a ler a obra duas vezes. A primeira para se ter uma visão livre, na qual o leitor possa tirar suas próprias conclusões. Antes de ler uma segunda vez, pesquise a respeito, leia teses e análises sobre a obra na internet. O tom implícito do autor transforma este livro em uma obra de arte subjetiva e sublime, repleta de sentenças impactantes e poéticas, cheias de significado.

"Coisa engraçada é a vida – misterioso arranjo de lógica implacável para um propósito fútil. O máximo que você pode esperar dela é algum conhecimento de si próprio...que chega tarde demais...uma colheita de inesgotáveis arrependimentos."

O livro também denuncia como o imperialismo das grandes potências trata o ser humano diferente e mais fraco como verdadeiros animais. Alguns taxam a obra de racista, pela diferença como o autor descreve os nativos dos colonizadores, sendo os primeiros apresentados através de suas características físicas, enquanto os segundos pelas suas profissões. Este fato é explicado pela realidade e época em que Conrad viveu, muito diferente da nossa, em que a visão acerca de povos não explorados era a mais bizarra possível.

Leitura obrigatória!

segunda-feira, 17 de março de 2014

A História Sem Fim

Título original: The Neverending Story
Autor: Michael Ende

"Que são todos vocês, seres de Fantasia? Figuras de sonho, invenções do reino da poesia, personagens de uma História Sem Fim! Você se julga real, filhinho? Pois bem, aqui, neste mundo, você é. Mas, se entrar no Nada, deixa de existir. (...) Transformaram-se em desvarios da mente humana, em imagens geradas pelo medo, quando, na realidade, não há nada a temer; em desejo de coisas que os tornam doentes, em idéias de desespero, quando não há razões para desesperar."


O gênero Fantasia na literatura moderna tem a difícil tarefa de criar mitologias, seres surreais e mundos mirabolantes sem ser piegas ou demasiadamente infantil, a não ser, é claro, que se trate de uma obra específica para este público. Ao passar por este crivo, um livro fantástico ainda tem o desafio de não ser mais uma cópia barata de "O Senhor dos Anéis", obra que redefiniu o gênero. Assim, o magnífico livro de Michael Ende, "A História sem Fim", passa por todos estes testes e consagra-se, não como mais uma historinha escapista, mas como uma maravilhosa fonte de criatividade e lições importantes sobre como arquétipos fantasiosos do nosso inconsciente estão diretamente ligados com o que acontece no mundo real.

Bastian, um menino gordo e vítima de bullying que perdeu a mãe e vive com o pai - provedor mas ausente -, rouba um livro numa livraria e passa um dia inteiro lendo-o. Este livro conta a história de Atreyu, uma espécie de elfo que vive em mundo chamado Fantasia. Este mundo possui muitos seres fantásticos dos mais variados e é regido pela Imperatriz Criança. Porém, ele está ameaçado pelo Nada, e, como o próprio nome sugere, é nada e sua função é simplesmente levar a inexistência seres e objetos de FantasiaAtreyu então é convocado pela Imperatriz a encontrar o Salvador, alguém que será capaz de dar a ela um nome e assim impedir que Fantasia desapareça. Durante a leitura, Bastian passa por incríveis experiências que mudam sua vida para sempre.

Apesar de parecer infantil, "A História Sem Fim" é divertimento garantido para pessoas de oito a oitenta anos, sendo que a mensagem passada é muito mais voltada para os adultos. Empolgante, inovador e criativo, sua leitura é leve, com boas doses de humor e aventura, tudo na medida certa. Sem limites na imaginação, Ende cria personagens cativantes e profundos, onde cada lugar ou ser fantástico possui um importante papel nesta engenhosa metáfora sobre o ser humano e seus relacionamentos.

O que é "fantasia"? O que são os contos de fada e mitos? São a mesma coisa que "mentiras"? Segundo Michael Ende, fantasia e mentira são coisas diferentes. Os contos mitológicos, contos de fadas, fantasias, etc não são mentiras, mas são verdades alegóricas que representam os mais profundos anseios e sentimentos humanos. Ao mergulhar no mundo fantástico e entender os princípios universais do inconsciente coletivo, consegue-se compreender melhor o ser humano. Deste modo, podemos amar com mais intensidade, realizar nossos sonhos e lutar melhor pela coletividade. Porém, quando abandonamos as fantasias, desprezando-as como mentiras, elas passam a ser de fato mentiras, fantasmas que arruínam os nobres ideais dos heróis que habitam em nossos sonhos.

Quem teve o privilégio de passar sua infância/adolescência nos anos 80 certamente deliciou-se inúmeras vezes com o emocionante filme de 1984, "A História sem Fim", baseado no livro. Porém poucos chegaram a mergulhar mais fundo no Reino de Fantasia. A adaptação cinematográfica que marcou a juventude de muitos termina na metade do livro e o segundo longa foi um desastre em adequação à obra original. Aproveitando a onda de remakes inúteis que tem invadido os cinemas ultimamente, esta aí uma excelente história que poderia ser recontada nas telonas de forma mais fiel ao livro, com melhores efeitos e acredito que caberia em uma trilogia. E uma coisa não poderia faltar: a esplêndida canção tema do filme original, composta por Giorgio Moroder e Keith Forsey e interpretada por Limahl. Simplesmente maravilhosa!

"Todos os que nos vêm visitar aprendem coisas que só aqui podem aprender e regressam modificados ao seu mundo. Seus olhos se abrem, pois eles se vêem em seu verdadeiro aspecto. Por isso, também podem olhar com novos olhos seu próprio mundo e os outros homens. Descobrem de repente maravilhas e segredos onde outrora só viam a monotonia do cotidiano. Era por isso que eles gostavam de vir até nós. E quanto mais rico e florescente se tornava o nosso mundo graças às visitas deles, menos mentiras havia em seu mundo, e mais perfeito também era esse mundo para eles."

Em suma, "A História sem Fim" é uma obra encantadora que vai deixar crianças empolgadas e adultos inspirados por uma mensagem arrebatadora. Leitura obrigatória!

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

O Banquete

Título Original: Συμπόσιον
Autor: Platão

"Aquilo que, com efeito, deve dirigir toda a vida dos homens, dos que estão prontos a vivê-la nobremente, eis o que nem a estirpe pode incutir tão bem, nem as honras, nem a riqueza, nem nada mais, como o amor."

"O Banquete" trata-se de um espetacular tratado filosófico do grande mestre Platão acerca da maior das virtudes: o Amor. Aqui o filósofo faz uma linda explanação acerca da vida, da natureza, das artes e dos relacionamentos humanos, e mostra que todas as coisas estão vinculadas pelo Amor. Profundo e revolucionário, as idéias de Platão contidas nesta obra marcaram profundamente o pensamento religioso e filosófico do ocidente, iluminando um mundo de trevas e superstições com a luz do amor que gera vida, paz e harmonia entre os seres. É possível notar que suas idéias foram posteriormente desenvolvidas por Jesus e pelos primeiros cristãos, que fizeram do amor a base de uma vida santificada.

"Assim, pois, eu afirmo que o Amor é dos deuses o mais antigo, o mais honrado e o mais poderoso para a aquisição da virtude e da felicidade entre os homens, tanto em sua vida como após sua morte."

A linguagem utilizada no livro é de fácil compreensão se comparado com outros escritos da antiguidade, como os difíceis poemas de Homero. Para passar seus sublimes conceitos, Platão cria um diálogo fictício entre vários filósofos e poetas, dentre eles o seu mentor e maior mestre grego da antiguidade: Sócrates. Como discípulo de Sócrates, Platão também subverte os padrões religiosos de sua época. Exaltando o deus Amor acima de todos os demais, ele corre o risco de sofrer o que seu mestre sofreu: ser julgado e condenado por "ofender os deuses" e "corromper" os jovens, pois Sócrates os influenciava a buscar a "divindade" interior da razão ao invés de consultar os oráculos dos deuses.

"É mau aquele amante popular, que ama o corpo mais que a alma; pois não é ele constante, por amar um objeto que também não é constante. Com efeito, ao mesmo tempo que cessa o viço do corpo, que era o que ele amava, “alça ele o seu vôo”, sem respeito a muitas palavras e promessas feitas. Ao contrário, o amante do caráter, que é bom, é constante por toda a vida, porque se fundiu com o que é constante."

Em suma, é um livro profundo de significado. Não tenho a pretensão de fazer aqui uma análise detalhada pois não sou filósofo e é possível encontrar uma infinidade de abordagens interessantes sobre ele na internet. Sou somente um entusiasta que absorve a essência dessas jóias literárias. E afirmo que "O Banquete" é, de fato, um banquete de sabedoria de um grande mestre que descobriu o melhor alimento com o qual podemos sustentar nossa vida e construir um mundo melhor. Recomendadíssimo!

Para quem deseja se aprofundar: http://www.esdc.com.br/CSF/artigo_2008_10_o_banquete.htm

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

O Analista

Título Original: The Analyst
Autor: John Katzenbach

"Sempre há pessoas que se sacrificam para que outras pessoas possam viver. Soldados em combate. Bombeiros em um prédio em chamas. Policiais nas ruas. A sua vida é tão adorável e produtiva e tão importante que possamos automaticamente admitir que ela seja mais valiosa do que a vida que ela poderia salvar?"
(Extraído de O Analista)

Existem livros ruins, e chegar até a metade deles já é um grande feito. Existem livros bons. Estes, indicamos reativamente, ou seja, quando somos questionados sobre eles ou em alguma conversa ocasional sobre o assunto que lembre a obra. Porém, existe uma outra categoria de livros, que se encontra bem acima daqueles considerados bons. Existem os livros que nos marcam profundamente. Estes, indicamos proativamente, como se fosse obrigação a sua leitura. São histórias que levam o leitor a viver a vida dos personagens de forma tão intensa que, quando terminado, ele respira como se tivesse perdido o fôlego durante toda a sua leitura. O Analista, de John Katzenbach, se enquadra nesta categoria... a categoria de livro perfeito.

Nesta obra-prima do suspense psicológico, Katzenbach constrói um complexo e empolgante thriller moderno com uma narrativa dinâmica e repleta de tensão, muitos climax, personagens profundamente cativantes e assustadores e reviravoltas inacreditáveis. Tudo isto é orquestrado em perfeita harmonia na composição de uma trama muito bem estruturada, sem pontas soltas e com um ritmo que não perde a cadência em nenhum momento.

O livro conta a história de Frederick Starks, um psicanalista experiente, que, ao completar 53 anos, recebe uma misteriosa carta com os dizeres: "Feliz aniversário de cinquenta e três anos, doutor. Bem-vindo ao primeiro dia de sua morte". Ainda na carta, dr. Starks é ameaçado por alguém que diz "pertencer ao seu passado" e o desafia a se matar ou a descobrir a identidade de seu algoz. Caso contrário, uma lista de 53 nomes de parentes do médico seria alvo de destruição, tanto psicológica quanto física.

O autor se revela um mestre do suspense ao levar o leitor a montar um tenebroso quebra-cabeças psicológico, onde o protagonista deve usar de seus conhecimentos de psicanálise para tentar descobrir quem o está ameaçando. Assim, ele entra em uma perigosa investigação para desencavar de seu passado o motivo que levou este psicótico a odiá-lo e desejar a sua morte. Em meio ao caos de muita tensão e acontecimentos aterradores, o personagem principal é conduzido a um verdadeiro inferno psicossomático, interagindo com personagens marcantes em sua profundidade emocional.

É fascinante o fato de uma trama tão complexa, envolvendo inúmeros personagens e lugares, do passado e do presente, ser tão bem amarrada e extremamente verossímil. O elemento surpresa está presente a todo instante, fazendo o leitor se surpreender a cada página, gerando uma ansiedade adrenalínica acerca da misteriosa identidade do vilão, principalmente depois da primeira metade, onde a história sofre uma reviravolta alucinante.

Além de ser emocionante do ponto de vista ficcional, o livro passa ainda uma interessante mensagem sobre as consequências catastróficas que nosso estilo de vida egocêntrico podem gerar no futuro.

Leitura obrigatória!

Poderá também gostar de:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...