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quarta-feira, 28 de setembro de 2016

O que é arte?

"Todos os artistas, público e críticos, com pouquíssimas exceções, nunca experimentaram - salvo na infância e na juventude - aquele sentimento singelo, conhecido do homem mais simples e mesmo das crianças, de ser contagiado pelos sentimentos de outrem, algo que faz com que nos alegremos com a alegria do outro, soframos com seu sofrimento e misturemos nossas alma à dele, e que constitui a essência da arte."

O que é arte? A pergunta que por séculos incomodou inúmeros intelectuais, filósofos e psicólogos ressoa como um trovão na mente e na pena de um dos maiores gênios da literatura, Leon Tolstói. Longe de ser mais uma teoria estética sobre a arte, Tolstói vai muito além e disserta sobre a matéria-prima da arte verdadeira: o sentimento do artista. Para isso, o autor de Guerra e Paz nos leva desde as manifestações artísticas dos povos antigos até o final do século XIX, momento em que a arte se transformou em entretenimentos comerciais sem profundidade emocional - mesmo as obras esteticamente perfeitas.

No início do livro, o autor mostra como a arte da antiguidade estava ligada à necessidade do povo de transmitir sentimentos elevados, que circunstancialmente para a época, era o sentimento religioso. Ele se refere aos Salmos, Hinos Védicos, A Odisséia, etc. Porém, "a descrença das altas classes do mundo europeu no final da Idade Média criou uma situação em que a atividade artística foi substituída por uma outra cujo objetivo era proporcionar o maior prazer para um certo grupo de pessoas". A partir deste momento na História, a arte torna-se mera distração a ser consumida por uma classe nobre, ávida por pagar fortunas pelas mais supérfulas distrações. Ou seja, a arte passou de transmissão de sentimento para uma fonte de prazer.

"(...) essas pessoas não só não conseguem distinguir a arte verdadeira das falsificações, mas sempre confundem o que há de pior e mais falso com arte genuína, sem notar a genuína porque as falsificações são sempre mais chamativas, enquanto a arte verdadeira é modesta."

Diante deste cenário, Tolstói vai criticar duramente o papel dos artistas de seu tempo, colocando-os como talentosos falsificadores da arte, que sabem muito bem recortar e colar de suas referências anteriores para criar novos divertimentos vazios. Isso porque é impossível que a demanda por divertimentos consiga extrair sentimentos espontâneos da experiência de vida do artista, que segundo o autor, é o fator que faz uma arte ser verdadeira. Tolstói vai enfatizar isso durante todo o livro: que a verdadeira arte é aquela que surge da necessidade que um homem comum tem de transmitir um sentimento que tenha experimentado em sua vida, e consequentemente esta transmissão irá contagiar os espectadores para que estes sintam a mesma experiência vivida pelo artista. "As palavras são a comunicação de conhecimento, enquanto a arte é a comunicação de sentimentos", diz o escritor.

Sendo assim, o gênio da literatura russa condena a produção comercial em série da arte, pois isso prejudica a sensibilidade artística do público, que acaba ficando acostumado com uma arte falsa. Apesar de ter sido escrito a mais de cem anos atrás, esta obra nunca foi tão atual diante da imensa quantidade de lixo artístico que infestam a TV, os palcos e os cinemas dos dias de hoje. Arte artificial, fabricada com o único intuito de dar lucro.

"Quando a arte se tornou uma profissão, sua maior e mais preciosa propriedade - a sinceridade - tornou-se enfraquecida e foi parcialmente destruída."

Seguindo esta linha, Tolstói vai exaltar alguns contos e quadros de camponeses desconhecidos, enquanto critica algumas obras de famosos - como Beethoven e Goethe - como sendo artificiais. Ele chega a criticar até mesmo suas próprias obras. Para ele, a arte tem um papel muito mais elevado do que dar prazer a uma elite entediada: a arte é o caminho para a unificação e paz entre os povos. Assim, este livro resgata a essência do ser humano, aquelas sensações sinceras e experiências intensas que somente as crianças e os cidadãos comuns experimentam... sensações essas que são a verdadeira matéria-prima da arte que toca o público e coloca a Humanidade em um caminho de unidade através desta comunicação de sentimentos.

Em resumo, O que é arte? não é um livro que serve para alimentar o ego de intelectuais com teorias bonitas, para que impressionem em textos, críticas e aulas. A obra de Tolstói é uma riquíssima - porém incômoda - reflexão sobre o papel da arte como catalisador do bem comum entre os homens, através da comunicação por sentimentos. E infelizmente, esta necessidade de comunicar sentimentos vem sendo substituída com entretenimentos vazios, gerando assim uma sociedade fria, robótica, depressiva e carente emocionalmente.
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E você, o que pensa sobre esta polêmica visão de Tolstói? Concorda? Discorda? Deixe o seu comentário!

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

O Senhor das Moscas

O que aconteceria se um bando de crianças fossem largadas em uma ilha deserta? Como sobreviveriam e como se organizariam em sociedade? Em O Senhor das Moscas, o ganhador do prêmio Nobel Willian Golding responde a estas perguntas através de uma história que desnuda a natureza humana no contexto dos relacionamentos pessoais e construções sociais. Não há nada mais cativante do que trabalhar com as emoções infantis. O autor soube usar com maestria esses elementos para mostrar como o ser humano rompe com facilidade os limites entre a civilidade e selvageria, entre a inocência e a violência, entre a democracia e a autocracia.

“- Acho que precisamos de um chefe para resolver as coisas.
- Um chefe! Um chefe!
- Eu é que devo ser o chefe - disse Jack com uma arrogância simples - porque sou chefe do coro, além de solista. E consigo atingir o dó sustenido.”

A sinopse é curiosa: um avião cheio de crianças cai em uma ilha deserta e os únicos adultos presentes no voô (os pilotos) morrem na queda. Assim, um bando de crianças inglesas, entre seis e treze anos de idade, devem se virar para sobreviver e ao mesmo tempo tentar chamar a atenção para serem resgatados por algum navio. No início tudo é festa e brincadeira. Eles encontram frutas para comer. Porém a necessidade de ordem e de caçar os leva a viver momentos de tensão e desavenças, numa disputa intensa por poder.

“- Tem coisas que os adultos sabem. - disse Porquinho - Eles não sentem medo do escuro. Eles se encontram, tomam chá e conversam. E aí os problemas se acabavam.”

O autor se mostra extremamente competente ao construir personagens infantis muito convincentes, através de diálogos que surpreendem pela inocência, pureza e espontaneidade. Ao longo da trama, o caráter de cada pequenino é revelado aos poucos, conforme as circunstâncias vão ficando extremas e difíceis. Essa evolução - ou involução - lenta e gradual de alguns personagens é um fator decisivo que faz de O Senhor das Moscas uma obra-prima.

“- E eu, não ganho nada?
Tinha sido mesmo intenção de Jack deixá-lo na dúvida, para reafirmar o seu poder; mas Porquinho, ao anunciar ter sido preterido, tornou necessária a crueldade adicional.
- Você não caçou.”

Além disso, o livro levanta, de forma indireta, diversas questões filosóficas e sociológicas interessantes. O que somos de fato? Somos produtos do meio, ou o meio é um produto nosso? Qual é o modelo ideal de organização política? Um modelo inclusivo que prioriza a vida e a diversidade vocacional, mesmo que isso acarrete mais lentidão no desenvolvimento tecnológico? Ou um modelo exclusivista, cuja prioridade está nas conquistas materiais através da meritocracia e padronização do ser humano? O que funciona melhor: o diálogo ou a imposição autoritária? Como os mitos, crenças e fanatismos são originados? Enfim, a história trata sutilmente dessas e de outras questões, nas entrelinhas dos conflitos entre os personagens.

“Eu tenho medo dele - disse Porquinho - e é por isso que eu sei quem ele é. Quando você sente medo de alguém, odeia a pessoa mas não consegue parar de pensar nela. Você se engana, diz que no fundo ele é bom, mas então, da próxima vez que encontra a pessoa, parece que tem uma crise de asma, e não consegue respirar. E vou dizer mais uma coisa. Ele detesta você também, Ralph."

Enfim, O Senhor das Moscas é leitura obrigatória para aqueles que não se contentam com meras ficções escapistas. É uma obra cativante, visceral, tensa e rica em reflexões importantes sobre a natureza do ser humano e seu papel nas relações sociais. Além disso, a obra serviu de inspiração para vários sucessos comerciais na literatura e no cinema, dentre eles Battle Royale (Koushun Takami, Japão, 1999) e Jogos Vorazes (Suzanne Collins, EUA, 2008).

Puxou a faca da bainha e a cravou no tronco de uma árvore. Da próxima vez não teria piedade. Olhou em volta com ar feroz, desafiando os outros a duvidar do que dizia.

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E você, já leu? Conte nos comentários o que achou da leitura!

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Thomas Jefferson vs Bíblia

Thomas Jefferson  vs  Bíblia: O que os fundadores dos EUA realmente pensavam sobre o Cristianismo?

Um dos pais fundadores da nação norte-americana - autor da Declaração da Independência e terceiro presidente do país - usou uma tesoura para recortar vários trechos da Bíblia e publicar um volume somente com as passagens que ele achava que eram úteis. A Bíblia de Jefferson existe até hoje, e está disponível online (aqui). Mas será que ele realmente chamou o livro sagrado de  "um monte de merda", como alguns dizem?

A resposta a essa pergunta é sim... e não!

Sim, Jefferson pensava que a maior parte da Bíblia era um monte de porcaria, e sim, ele fez, por analogia, uso do termo "esterco". Não há dúvida: Se Barack Obama repetisse as palavras de Jefferson, republicanos conservadores rangeriam de raiva e muita merda seria lançado no ventilador.

Mas vamos continuar a analisar a outra metade da resposta, o "não", que demanda explicar bem o contexto e as palavras exatas de Jefferson.

Comparando com alguns comentários de Thomas Paine sobre a Bíblia, a crítica de Jefferson até que foi bem leve. Jefferson fazia parte de um grupo de homens eruditos e respeitáveis que se esforçavam para remover as camadas de mitologia e superstição que foram claramente adicionados no primeiro e segundo séculos do Cristianismo. A analogia que ele usou foi de "separar o esterco dos diamantes", e o que ele decidiu aproveitar da Bíblia - os diamantes - era o que ele acreditava serem as autênticas palavras de Jesus.

A busca de Jefferson para extrair o homem do mito - isto é, a busca pelo Jesus histórico - continua até hoje. Cristãos de todas as épocas nunca concordaram sobre quem ou o que Jesus é, por isso o Cristianismo é fragmentado em mais de 30.000 denominações diferentes. No início da era cristã, a adoração a Jesus gerou alguns pequenos conflitos e divisões, que Bart Ehrman, PhD em teologia, chama de "Cristianismos perdidos". Nos últimos duzentos anos, legiões de teólogos, tradutores, antropólogos, historiadores, entusiastas e até profissionais de saúde mental tem formulado versões diversas sobre o homem por trás do mito - ou questionando se ele de fato existiu.

Ironicamente, as primeiras tentativas de separar o Jesus-ficção do Jesus-fato foram justamente nos concílios da Igreja que resultaram na nossa Bíblia, ou seja, foram em reuniões para decidir quais textos eram de inspiração divina e quais não eram, dentre centenas de manuscritos. Estes concílios não possuíam o mínimo das técnicas modernas de análise histórica e seus métodos eram arcaicos e ingênuos pelos padrões atuais. Sem contar que cada participante destes concílios tinha uma tarefa hercúlea: certificar que a adoração a Jesus era a mesma praticada séculos antes, quando do surgimento da religião. Ou seja, os "editores" do Canon bíblico inseriam ou removiam textos na Bíblia de acordo com a proximidade do possível autor para com Jesus e o livro em si deveria estar de acordo com a linha romana do Cristianismo.

Convencidos de conseguirem separar as revelações divinas das impurezas, as autoridades da Igreja selaram o Canon (ou conteúdo da Bíblia) no século IV. Assim, como a Igreja se expandiu junto com o Império Romano, cristãos que pensavam diferente das doutrinas estabelecidas eram queimados, juntamente com seus textos heréticos.

Nos dias de Jefferson, porém, o Iluminismo prevaleceu. A Reforma Protestante, dois séculos antes, tinha deixado a Bíblia praticamente intacta (após a retirada dos chamados livros Apócrifos) e, de fato, elevaram em muito a autoridade das Escrituras. Mas os fundadores dos EUA e muitos intelectuais da época não viam os Evangelhos como verdadeiros em sua plenitude. Muitos eram deístas - acreditavam que as verdades espirituais eram mais fáceis de serem encontradas no estudo da natureza e na aplicação da razão do que em textos sagrados. Thomas Jefferson era um deles e ele não era fã das teologias cristãs e nem dos teólogos, como suas cartas deixam claro:

"Em nome de dogmas religiosos os homens tem torturado, guerreado e queimado uns aos outros desde o início dos tempos, tudo por causa de doutrinas abstratas e ininteligíveis, totalmente fora da compreensão da mente humana. Se eu entrar nesta arena, serei apenas mais um lunático no meio de muitos."  — para Carey, 1816: N. Y. Pub Lib., MS, IV, 409.

"Já não dá mais para os homens sinceros fingirem que acreditam nos misticismos platônicos de que três são um, e um são três; ou que um não é três e três não é um... mas isso constitui o ofício, o poder e o lucro dos líderes religiosos. Removam toda esta baboseira mística e eles não conseguirão arrebanhar nem uma mosca. Devemos então, como os Quakers, viver sem nenhum tipo de liderança eclesiástica, moralizando a nós mesmos, seguindo o oráculo da consciência e parar de pregar coisas que os homens não podem entender." — para John Adams, 1813.

"O ridículo é a única arma que pode ser usada contra proposições ininteligíveis. Idéias devem ser deixadas de lado até que a razão atue sobre elas; e nenhum homem tem a menor idéia do que seja a Trindade de fato. A Trindade é apenas o Abracadabra dos saltimbancos que se autodenominam sacerdotes de Jesus." — para Van der Kemp, 1816.

"Os pastores desfiguraram tanto os simples ensinos de Jesus que qualquer um que ouça essas pregações absurdas - misturadas com jargões platônicos, aristotélicos e outros misticismos - jamais diria que isso tem alguma coisa a ver com o sublime pregador do Sermão da Montanha." — para Dr. Waterhouse, 1815.

"Instale a razão firmemente em seu trono e traga diante do seu tribunal todo fato, toda opinião. Questione com coragem até mesmo a existência de Deus; porque, se existe um, ele deve aprovar mais o respeito à razão do que o medo cego." — para Peter Carr, 1787.

No entanto, apesar da aversão de Jefferson à religião organizada e todos os absurdos que ela carrega, ele nunca questionou se Jesus foi mesmo um personagem histórico real ou meramente um modelo para nos inspirar. De fato, foram estes dois pressupostos que o levaram a comentar sobre "esterco" nas cartas a James Madison e W. Short:

"O maior de todos os reformadores da religião foi o próprio Jesus de Nazaré. Abstraindo o que é realmente seu discurso do lixo no qual ele está misturado, facilmente conseguimos distinguir seu brilho no meio das impurezas que os escritores dos Evangelhos adicionaram e podemos separar os diamantes do esterco. Assim obtemos as bases de um sistema da mais sublime moralidade que jamais saíram da boca de um homem." — To W. Short, Oct. 31, 1819.

"É evidente que algumas partes do Novo Testamento procederam de um homem extraordinário, enquanto outras são fabricações de mentes bem inferiores. Separar as partes boas das ruins é como retirar diamantes enterrados em esterco." - para John Adams, 1804.

Para Jefferson, Jesus foi um sábio e beneficente mestre da moral. Porém, foram adicionados a seus ensinos uma série de impurezas míticas e histórias fabricadas que fizeram dele um ser mágico, como o nascimento virginal, milagres e a ressurreição. Ele também odiava as superstições do ensino cristão sobre pecado e salvação - a idéia de que todos nascemos em pecado por causa de Adão e Eva, por exemplo, ou que alguns poucos, os eleitos, serão escolhidos para viver eternamente no céu.

Tanto para Jefferson como para milhões de pessoas através da História, a figura de Jesus é uma espécie de teste psicotéctnico - como aquelas imagens borradas em que o paciente diz o que está enxergando nelas. Ou seja, Jesus é um personagem criado com tantas ambiguidades que Ele consegue justificar para cada grupo aquilo que este grupo considera certo ou errado. Para cristãos de classe alta, Jesus é o cara que jogaria golf com eles. Para cristãos de esquerda, Jesus é o amigo dos pobres. Para os conservadores, Jesus é um rígido juíz. Porém, como um intelectual do Iluminismo e rebelde contra a coroa Britânica, Jefferson via Jesus como um benevolente homem da razão, assassinado não por nossos pecados, mas por rebeldia contra o sistema religioso da época. Seu Jesus era um espelho de suas próprias aspirações e dos valores que ele via como certos para si e para o país que ele ajudou a fundar. E para ele, estes valores eram os diamantes.

Valerie Tarico
Traduzido de http://www.salon.com/2014/12/03/thomas_jefferson_vs_the_bible_what_americas_founding_father_really_thought_about_religion_partner/

domingo, 14 de setembro de 2014

A Alma Imoral

Título Original: A Alma Imoral
Autor: Nilton Bonder

Talvez o maior desafio para o homem moderno não seja descobrir os mistérios do Universo ou as muitas incógnitas científicas. Antes disso, existe uma questão muito mais urgente para que os avanços de nossa espécie possam prosseguir de forma saudável: o homem precisa conhecer a si mesmo. Em "A Alma Imoral", o aclamado rabino e escritor carioca Nilton Bonder nos leva a um mergulho profundo no interior deste ser complexo e intrigante. Com base em biologia, antropologia e ilustrando com contos bíblicos, Bonder revela que a essência do ser humano é composta pela tensão entre duas forças opostas entre si, uma batalhando pela preservação de tradições, da moral e dos "corretos" vigentes (o corpo) e outra que luta pelo rompimento com estes códigos, em prol de evoluir para novos "corretos" (a alma).

Apesar de profundo, o autor usa uma linguagem fácil e agradável a qualquer tipo de leitor. Como rabino, ele ilustra suas conclusões com base em personagens bíblicos, mas o livro está muito longe de ser religioso. Bonder se mostra um escritor bem racional e humanista e as citações bíblicas estão mais para demonstrações metafóricas do que dogmáticas. A própria utilização da palavra "alma" - foco maior do livro - é uma linguagem figurada para o íntimo do ser, os recônditos da mente que dificilmente alguém expõe. A alma seria uma espécie de nudez, coberta pelo disfarce da moral.

Não é difícil perceber na natureza e na história humana como o estabelecimento de padrões são necessários para a continuidade da vida. Códigos genéticos - na biologia - ou códigos morais - na antropologia - são a chave para passar para as próximas gerações os "corretos" estabelecidos que foram "bons" no passado e supostamente serão "bons" também no futuro. Porém, para que haja evolução biológica, é necessário que uma espécie rompa com os códigos genéticos de seus antepassados. Da mesma forma, nas diversas culturas humanas, não houve evolução na política, religião, economia, ciência, artes ou conquistas de direitos humanos sem que houvesse a quebra de padrões antigos.

Baseado nestas observações, Bonder define o que seria a "alma" humana:

"A 'alma', diferente da definição popular, seria nada mais do que o componente consciente da necessidade de evolução, a parcela de nós capaz de romper com os padrões e com a moral. Sua natureza seria, portanto, transgressora e "imoral", por não corroborar com os interesses da moral."

Assim, o animal moral - o corpo - tem na tradição um instrumento fundamental para sua preservação, seja no âmbito familiar, social ou religioso. A alma, por outro lado, tem por lema que o "bom é inimigo do ótimo" e busca romper os "bons" estabelecidos para alcançar o "ótimo" e assim evoluir.

"Transgredir é transcender, e nossa história não teria mártires no campo político, científico, religioso, cultural e artístico caso fosse possível transcender sem colocar em risco a sobrevivência da espécie."

É possível notar como a transgressão leva a transcendência através, por exemplo, do surgimento da democracia, da abolição da escravatura, das conquistas dos direitos trabalhistas, dos negros e das mulheres, etc. Ou seja, em toda a História, não houve evolução sem a transgressão de um determinado código estabelecido.

Assim, o autor revela que a saúde do ser depende do equilíbrio destas duas naturezas, a que preserva e a que transgride. Saber conhecer o tempo de honrar tradições e o tempo de quebrá-las é essencial para que o homem evolua com segurança. O corpo sem a alma representa o conservadorismo extremo, o fundamentalismo que exalta o coletivo e ignora o indivíduo, transformando os homens em robôs obedientes. Já a alma sem o corpo é a personificação do caos, da irresponsabilidade, da anarquia e da "rebeldia sem causa" que resulta em destruição. O corpo e alma são dependentes entre si. Não pode haver tradição sem traição, nem traição sem tradição.

"A espécie humana enfrenta um mundo que realmente se estreitou. Ele é estreito tanto pela moral como pela rebeldia. A repressão vitoriana e o licencioso mundo hippie são lugares estreitos para um ser humano que aos poucos percebe que busca algo diferente. A alienação e a falta de “causas” são os sintomas mais evidentes de que a busca não se dá pela extirpação desse conflito, mas por uma tentativa de vivê-lo de forma ampla no íntimo de cada um de nós."

Enfim, depois que você ler "A Alma Imoral" a sua visão da natureza humana, da História e da vida nunca mais será a mesma. Uma verdadeira obra prima, profunda em significado e simples na didática.
Leitura obrigatória!

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E você, já leu o livro? Você acredita em morais absolutos ou entende que toda moral é passível de ser revista e alterada? Comente abaixo:

quarta-feira, 28 de maio de 2014

Deus, um delírio

Título Original: The God delusion
Autor: Richard Dawkins

"Questiona com coragem até a existência de Deus; porque, se houver um, ele deve aprovar mais o respeito à razão que o medo cego." Thomas Jefferson

Falar de religião é sempre polêmico. No entanto, a religião tem influenciado e decidido os rumos da história da humanidade ao longo de milênios de tal forma que um debate crítico, racional e científico sobre Deus e a autoridade de livros sagrados se faz mais que necessário. Em "Deus, um delírio", Richard Dawkins, etólogo e biólogo evolutivo, mostra que a fé religiosa não é dona do privilégio único de estar além e acima de qualquer crítica. Pelo contrário, devemos questionar todas as "verdades" - sem evidências - que tem sido propagadas desde tempos remotos. O objetivo do livro não é provar a inexistência de Deus, mas sim refutar argumentos religiosos infundados, levando o leitor à conclusão de que é muito improvável que exista alguma divindade. Para isso, Dawkins especula sobre as origens genéticas da fé religiosa, desfaz o mito de que a moral depende da religião e alerta sobre os perigos da doutrinação absolutista.

Nos primeiros capítulos do livro, Dawkins se faz de "advogado do diabo" e nos apresenta os argumentos religiosos mais comuns para justificar a existência de Deus, oferecendo para cada um refutações plausivelmente explicadas. Dos oito argumentos relatados, destaco aqui dois:

1 - Argumento da "Causa sem Causa": segundo Tomás de Aquino, "nada é causado por si só. Todo efeito tem uma causa anterior". Logo, conclui-se que Deus deve ser a Causa que originou tudo.
Refutação: Este argumento gera o problema da regressão infinita. Se todo efeito tem uma causa anterior, então quem criou Deus? Dizer que Deus não foi criado, que ele é eterno, suscita uma outra questão: qual o critério foi utilizado para concluir que uma coisa é eterna e outra não é? Porque Deus é eterno e o Universo não pode ser? Pelo visto, não há critério, só especulação.

2 - Argumento da "experiência pessoal": eu creio em Deus porque Ele se revelou a mim, mudou minha vida, me deu paz, me abençoou, etc...
Refutação: As pessoas não entendem que o fato de "X" ser um consolo não significa que "X" seja verdade. A experiência pessoal "com Deus" é passível de inúmeras interpretações. Não prova a existência divina, mas talvez prove a complexidade de nossa mente, sua capacidade de criar ilusões e consequentemente de suprir carências. Dawkins compara a experiência adulta com Deus com as experiências infantis com Amigos Imaginários, mostrando casos reais interessantes sobre a semelhança entre ambas as situações.

Em seguida, o autor disserta sobre as origens dos anseios religiosos no interior do ser humano. Lançando mão de estudos genéticos e antropológicos, ele sugere que o desenvolvimento da religião está relacionado com a tendência natural que temos de acreditar em tudo que nossos pais ou líderes tribais nos disserem. Tais confiança e obediência são valiosas para a sobrevivência, assim a seleção natural preservou esse comportamento. Porém, junto com os ensinamentos essenciais para a vida, vieram também as especulações/alucinações desses líderes sobre divindades. Portanto, a inclinação religiosa seria uma espécie de subproduto do gene que nos faz sermos fiéis aos nossos ancestrais em prol da preservação da espécie.

Outra questão relevante sobre o assunto é se existe moral e altruísmo sem religião. Como já foi dito, a moral sempre se desenvolveu junto com a religião como mecanismo para preservação da espécie e da unidade tribal. Além disso, o ser humano é altruísta por causa da seleção natural, assim como o são diversos animais na natureza que praticam atos surpreendentemente benignos entre membros da mesma espécie. Se alguém só consegue fazer o bem motivado por Deus, no fundo ele não precisa de Deus, mas sim de um Policial Cósmico. É comum ver pessoas "boas" saqueando lojas quando policiais de uma cidade entram em greve. Ou seja, estes, assim como os religiosos, não conseguem ser bons ou cumprir as leis se não houver recompensa e punição, seja neste mundo ou no vindouro.

Muitos se perguntam porque Richard Dawkins é tão hostil com as religiões. Neste quesito, o autor alerta sobre o perigo de se ensinar uma verdade absoluta sem evidências a pessoas que irão interpretar esses "absolutos" de forma completamente diferente. Ou seja, a Bíblia por exemplo, contém textos amorosos e pacíficos, assim como textos xenofóbicos, homofóbicos e machistas. Um cristão moderado poderá interpretar e filtrar somente coisas boas da Bíblia, porém, alguém menos equilibrado talvez terá uma outra visão daquelas verdades absolutas. Logo, o absoluto torna-se relativo, podendo gerar fanatismos e produzir uma série de males, como divisões familiares, alienação do mundo real e até mortes em nome de Deus. Tudo isso porque ela é ensinada como a "Palavra de Deus" ou "Verdade Absoluta" e não como um clássico da literatura antiga, como a Ilíada ou a Odisséia de Homero.

Entretanto, Richard Dawkins não nega totalmente a existência de Deus. Segundo o autor, Deus pode até existir, mas a falta de evidências reduz em muito a probabilidade deste fato. Sendo assim, ele nos estimula a buscar na ciência as possíveis respostas para os mistérios do Universo. A diferença entre ciência e religião é que a primeira é flexível, suas conclusões estão sempre se alterando conforme novas evidências são encontradas. A religião, por outro lado, é inflexível, não admite a hipótese de possuir dogmas falsos. Na ciência, é comum vermos novas teorias derrubarem teorias antigas. Porém, nunca veremos um pastor pregar na igreja um sermão que negue o nascimento virginal ou a ressurreição. Assim é a religião. Inflexível. Imutável. Não é no mínimo perigoso seguir tamanha rigidez ideológica?

Enfim, recomendo fortemente esta magnífica obra, que é muito mais profunda e detalhada que esta simples resenha. O autor aborda com propriedade temas como ciência, religião, antropologia e filosofia para nos fazer repensar o motivo de nossas crenças religiosas.

E você, acredita em Deus? Porque? Escreva nos comentários!

segunda-feira, 7 de abril de 2014

O Apanhador no Campo de Centeio

Título Original: The Catcher in the Rye
Autor: Jerome David Salinger (1919-2010)

"- E a vida é um jogo, meu filho. A vida é um jogo que se tem de disputar de acordo com as regras. 
- Sim, senhor, sei que é. Eu sei.
(...) Jogo uma ova. Bom jogo esse. Se a gente está do lado dos bacanas, aí sim, é um jogo - concordo plenamente. Mas se a gente está do outro lado, onde não tem nenhum fodão, então que jogo é esse? Que jogo, que nada."

Mais que um livro, um agente transformador! Esta é a melhor frase que encontrei para expressar o sentimento que ficou ao terminar de ler "O Apanhador no Campo de Centeio", de J. D. Salinger, um dos maiores clássicos da literatura moderna e talvez um dos livros mais importantes da revolução cultural ocorrida na segunda metade do século XX. Esta singela narrativa fascina leitores de todas as idades pelo seu cativante protagonista adolescente, pela linguagem informal e de baixo calão e por ser uma obra pioneira a falar abertamente dos conflitos internos dos jovens.

Um dos pontos mais importantes de uma obra literária são seus personagens. Talvez seja o ponto mais importante. Ao término de uma leitura, pode-se avaliar o grau de qualidade da obra pela saudade que o leitor fica de seus protagonistas. Livros medianos ou ruins - mesmo que possuam boas tramas -  fazem dos personagens meros robôs falantes que nunca deixarão saudades, nunca farão o leitor revisitá-los em outros momentos, como se revisita amigos de longas datas. Assim, o papel do bom escritor não é criar meros personagens, mas sim criar amigos do leitor, daqueles que dão prazer de seguir, imitar, compartilhar, conversar... de simplesmente estar junto. Quando o autor consegue esta magia, ele alcança seu Magnum opus. Em "O Apanhador no Campo de Centeio", Salinger nos presenteia com um personagem-amigo que tem marcado a vida de milhões de leitores desde seu lançamento em 1951.

"Estou sempre dizendo: "Muito prazer em conhecê-lo" para alguém que não tenho nenhum prazer em conhecer. Mas a gente tem que fazer essas coisas para seguir vivendo."

A trama de "O Apanhador..." é a mais simples possível. O protagonista, Holden Caulfield, é um adolescente que, após ser expulso de seu colégio, narra os acontecimentos dos dias subsequentes a este vexame. Neste tempo, ele encontra amigos, professores e a irmã mais nova, vagueia por ruas e bares, conhece pessoas diferentes e tenta ao máximo adiar a notícia da expulsão para os pais.

Nota-se que não é a trama que faz deste livro uma obra prima, mas sim o personagem principal com seus diálogos inocentes e pensamentos autênticos. Sua visão de mundo é livre de hipocrisia e cheia de questionamentos que ninguém é capaz de entender, somente o leitor. Relacionamentos, amizade, sexo, drogas, futilidades, cultura, aceitação, rejeição e mais um turbilhão de questões internas que todo adolescente possui - mas raramente as expõe - são os assuntos deste personagem que conversa com o leitor numa linguagem informal, pura e sincera. No decorrer da leitura, é impossível não se identificar com o jovem Caulfield. O leitor, independente da idade, certamente encontrará nos pensamentos do protagonista aquilo que ele mesmo sempre pensou, mas nunca teve coragem de se expressar. Sem nenhum sentimentalismo, "O Apanhador no Campo de Centeio" é um livro libertador!

"Os colégios de rapazes estão entupidos de cretinos, e você só faz estudar bastante para poder um dia comprar uma droga dum cadilaque, e você é obrigado a fingir que fica chateado se o time de futebol perder, e só faz falar de garotas e bebida e sexo o dia inteiro, e todo mundo forma uns grupinhos nojentos. Os caras do time de basquete formam um grupinho, os camaradas que jogam bridge formam um grupinho. Até os que são sócios da porcaria do Clube do Livro formam um grupinho. Se você tenta bater um papo inteligente..."

Lançado em 1951, este livro foi uma obra pioneira na expressão dos questionamentos e conflitos internos dos jovens, sempre ignorados até então. Na verdade, conceitos como "adolescente" e "jovem" - como os conhecemos hoje - não existiam até o início do século XX. Desde a antiguidade,  as "crianças" passavam para a idade adulta em média aos quatorze anos, onde casavam-se e trabalhavam. Após a Revolução Industrial, no séc XIX, fora criada uma etapa na vida dos jovens, entre treze e dezoito anos de idade, para que eles pudessem se preparar para a vida adulta - embrião do conceito de "adolescência".

Porém, até a metade do séc. XX, ninguém se preocupara em mostrar ao mundo o clamor de inadequação e o choque que a natureza jovem encontra ao se deparar com um mundo tão hipócrita, falso e fútil. Neste momento é que chega a obra prima de Salinger, abrindo caminho para um revolução cultural jamais vista na história, quebrando inúmeros paradigmas e tabus da sociedade.

"O caso é o seguinte: na maioria das vezes que a gente está quase fazendo o negócio com uma garota - uma garota que não seja uma prostituta nem nada, evidentemente - ela fica dizendo para a gente parar. Meu problema é que eu paro. A maioria dos sujeitos não pára, mas eu não consigo ser assim. A gente nunca sabe se elas realmente querem que a gente pare, ou se estão apenas com um medo danado, ou se estão pedindo que a gente pare só para que, se a gente continuar mesmo, a culpa seja só nossa, e não delas."

Em suma, "O Apanhador no Campo de Centeio" merece ser lido, relido, pensado, refletido e propagado. Obviamente que ele não tem hoje o mesmo efeito revolucionário que teve sessenta anos atrás, mas a essência de sua mensagem continuará marcando a vida de milhões ainda por muito tempo.

segunda-feira, 31 de março de 2014

O Príncipe

Título Original: Il Principe
Autor: Nicolau Maquiavel (1469-1527)

"A crueldade bem empregada - se é lícito falar bem do mal - é aquela que se faz de uma só vez, por necessidade de segurança; depois não se deve perseverar nela, mas convertê-la no máximo de benefícios para os súditos."

Falar de "O Príncipe" de Maquiavel é entrar em um campo caótico e difícil para uma sociedade cujos ideais políticos sejam a perfeição moral, a bondade e a felicidade para todos. Talvez um dos mais importantes tratados que definiu o Estado moderno como o conhecemos, o livreto ainda causa polêmicas e é mal interpretado por alguns. Por outro lado, é o livro de cabeceira de todos os que alcançaram o poder nos últimos 500 anos, sejam reis, ditadores ou presidentes de repúblicas democráticas. Hoje, a obra é analisada meticulosamente em cursos de liderança para a carreira política, empresarial e militar.

"O homem que quiser ser bom em todos os aspectos terminará arruinado entre tantos que não são bons. Por isso é preciso que o príncipe aprenda, caso queira manter-se no poder, a não ser bom e a valer-se disso segundo a necessidade. (...) Pois com pouquíssimos atos exemplares ele se mostrará mais piedoso que aqueles que, por excesso de piedade, permitem uma série de desordens seguidas de assassínios e roubos."

Escrito em 1513, "O Príncipe" trata-se de uma carta de conselhos a Lourenço II de Médici (1492–1519), Duque de uma província italiana em uma época em que a Itália encontrava-se totalmente dividida. É importante conhecer o contexto e os motivos que levaram Maquiavel a escrever declarações tão fortes, desprovidas de moral ou de senso de humanidade. Maquiavel desejava a unificação da Itália, bem como um bom cargo na alta aristocracia, caso Médici conseguisse conquistar a região com seus conselhos, o que não aconteceu. Assim, conquistar e governar um reino nas condições caóticas em que a Itália se encontrava necessitava de atitudes rígidas, temíveis e astutas, ou, em outras palavras, necessitava que os fins justificassem os meios.

"A ofensa que se faz ao homem deve ser tal que não se possa temer vingança."

Existe uma teoria - não comprovada - de que Maquiavel tenha escrito "O Príncipe" como uma sátira ao poder monárquico, já que ele possui outros escritos defendendo a política democrática. Olhando por este ângulo, chega a ser "malignamente engraçado" a forma que Maquiavel pinta o quadro do príncipe perfeito: um agente sem alma, uma entidade que ignora os conceitos de "bem" e "mal" e simplesmente deve fazer o necessário para manter-se no poder, prosperar sua nação e expandir seus territórios. Mas, caso não seja sátira - o que é provável - aqui o autor rompe com as interpretações filosóficas da Grécia antiga sobre os fundamentos da boa política, cujos objetivos eram a "felicidade" e o "bem comum". Além disso, Maquiavel acaba com tradições religiosas sobre as quais acreditava-se que os ciclos no poder decorriam da determinação divina ou eram provenientes do "direito divino".

No decorrer do livro Maquiavel recorre a inúmeros exemplos históricos - desde os imperadores da antiguidade até os reis europeus de sua época - para mostrar como de fato funciona o jogo do poder e quais são as regras para se ganhar este jogo. Para ele, não adianta o governante ser utópico, cheio de teorias políticas bonitas, pacíficas e inocentes. O jogo do poder é selvagem, uma terra de ninguém, um lugar desumano. Por isso, Maquiavel trata da política não como ela deveria ser, mas como ela é. Assim, seus conselhos - não ao pé da letra, mas adaptados de forma racional ao contexto de cada época e lugar - podem ser úteis para o bom funcionamento de qualquer Governo, seja ele uma monarquia, república ou ditadura.

"É melhor ser amado ou temido? Todos gostariam de ser ambas as coisas; porém, como é difícil conciliá-las é bem mais seguro ser temido que amado... pois os homens são ingratos, volúveis, fingidos e dissimulados, avessos ao perigo, ávidos de ganhos."

Em suma, concordando ou não com as idéias de Maquiavel, "O Príncipe" é um livro obrigatório para entendermos como realmente funciona o poder político no mundo. Aconselho a ler a edição da Ediora Penguin Companhia das Letras (capa da imagem no topo do artigo), que, além de ter uma tradução atual e fácil, conta também com um excelente prefácio do ex-presidente do Brasil, Fernando Henrique Cardoso e um apêndice sobre cada personagem e fato histórico mencionado pelo autor. Evitem ler edições com tradução muito antiga.

E você, já leu "O Príncipe"? Comente abaixo sobre esta polêmica e importante obra!
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PS: mais alguns conselhos maquiavélicos extraídos do livro:

"O mais importante é abster-se dos bens alheios, pois os homens se esquecem com maior rapidez da morte de um pai que da perda do patrimônio."

"Um soberano prudente não pode nem deve manter sua palavra quando isto se reverta contra ele e já não existam os motivos que o levaram a empenhá-la."

"Nunca houve um príncipe que desarmasse seus súditos; ao contrário, quando os encontrou desarmados, sempre os armou; isso porque, ao armá-los, tais armas se tornam suas."

"O desejo de conquista é coisa realmente natural e comum e os homens que podem satisfazê-lo serão louvados sempre e nunca recriminados. Mas não o podendo, e querendo fazê-lo de qualquer modo, aí estão em erro, e merecem censura."

"Quem cria o poder de outrem se arruína, porque tal poder se origina da astúcia ou da força, e ambas são suspeitas a quem se tornou poderoso."

"Jamais se deve deixar que um distúrbio se alastre a fim de evitar uma guerra, porque a guerra é inevitável, e postergá-la só traz vantagens ao adversário."

"A melhor fortaleza que há é não ser odiado pelo povo."

"E quando for imprescindível agir contra o sangue de alguém, que o faça por uma justificativa sólida e um motivo evidente."

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