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quarta-feira, 28 de setembro de 2016

O que é arte?

Título Original: Что такое искусство?
Autor: Leon Tolstói

"Todos os artistas, público e críticos, com pouquíssimas exceções, nunca experimentaram - salvo na infância e na juventude - aquele sentimento singelo, conhecido do homem mais simples e mesmo das crianças, de ser contagiado pelos sentimentos de outrem, algo que faz com que nos alegremos com a alegria do outro, soframos com seu sofrimento e misturemos nossas alma à dele, e que constitui a essência da arte."

O que é arte? Só mesmo um gênio da literatura como Leon Tolstói poderia responder a esta pergunta com um impressionante equilíbrio entre simplicidade e profundidade. Longe de ser mais uma teoria sobre estética, Tolstói vai muito além e disserta sobre a matéria-prima da arte verdadeira: o sentimento do artista. Para isso, o autor de Guerra e Paz nos leva desde as manifestações artísticas dos povos antigos até o final do século XIX, momento em que a arte se transformou em entretenimentos comerciais sem profundidade emocional - mesmo as obras esteticamente perfeitas.

No início do livro, o autor mostra como a arte da antiguidade estava ligada à necessidade do povo de transmitir sentimentos elevados, que circunstancialmente para a época, era o sentimento religioso. Ele se refere aos Salmos, Hinos Védicos, A Odisséia, etc. Porém, "a descrença das altas classes do mundo europeu no final da Idade Média criou uma situação em que a atividade artística foi substituída por uma outra cujo objetivo era proporcionar o maior prazer para um certo grupo de pessoas". A partir deste momento na História, a arte torna-se mera distração a ser consumida por uma classe nobre, ávida por pagar fortunas pelas mais supérfulas distrações. Ou seja, a arte passou de transmissão de sentimento para uma fonte de prazer.

"(...) essas pessoas não só não conseguem distinguir a arte verdadeira das falsificações, mas sempre confundem o que há de pior e mais falso com arte genuína, sem notar a genuína porque as falsificações são sempre mais chamativas, enquanto a arte verdadeira é modesta."

Diante deste cenário, Tolstói vai criticar duramente o papel dos artistas de seu tempo, colocando-os como talentosos falsificadores da arte, que sabem muito bem recortar e colar de suas referências anteriores para criar novos divertimentos vazios. Isso porque é impossível que a demanda por divertimentos consiga extrair sentimentos espontâneos da experiência de vida do artista, que segundo o autor, é o fator que faz uma arte ser verdadeira. Tolstói vai enfatizar isso durante todo o livro: que a verdadeira arte é aquela que surge da necessidade que um homem comum tem de transmitir - através de algum talento - um sentimento que tenha experimentado em sua vida, a fim de contagiar os espectadores para que estes sintam a mesma experiência vivida pelo artista. "As palavras são a comunicação de conhecimento, enquanto a arte é a comunicação de sentimentos", diz o escritor.

Sendo assim, o gênio da literatura russa condena a produção comercial em série da arte, pois isso prejudica a sensibilidade artística do público, que acaba ficando acostumado com uma arte falsa. Apesar de ter sido escrito a mais de cem anos atrás, esta obra nunca foi tão atual diante da imensa quantidade de lixo artístico que infestam a TV, os palcos e os cinemas dos dias de hoje. Arte artificial, fabricada com o único intuito de dar lucro.

"Quando a arte se tornou uma profissão, sua maior e mais preciosa propriedade - a sinceridade - tornou-se enfraquecida e foi parcialmente destruída."


Seguindo esta linha, Tolstói vai exaltar alguns contos e quadros de camponeses desconhecidos, enquanto critica algumas obras de famosos - como Beethoven e Goethe - como sendo artificiais. Ele chega a criticar até mesmo suas próprias obras. Para ele, a arte tem um papel muito mais elevado do que dar prazer a uma elite entediada: a arte é o caminho para a unificação e paz entre os povos. Assim, este livro resgata a essência do ser humano, aquelas sensações sinceras e experiências intensas que somente as crianças e os cidadãos comuns experimentam... sensações essas que são a verdadeira matéria-prima da arte que toca o público e coloca a Humanidade em um caminho de unidade através desta comunicação de sentimentos.

Em resumo, O que é arte? não é um livro que serve para alimentar o ego de intelectuais com teorias bonitas, para que impressionem em textos, críticas e aulas. A obra de Tolstói é uma riquíssima - porém incômoda - reflexão sobre o papel da arte como catalisador do bem comum entre os homens, através da comunicação por sentimentos. E infelizmente, esta necessidade de comunicar sentimentos vem sendo substituída com entretenimentos vazios, gerando assim uma sociedade fria, robótica, depressiva e carente emocionalmente.
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E você, o que pensa sobre esta polêmica visão de Tolstói? Concorda? Discorda? Deixe o seu comentário!

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

O Senhor das Moscas

Título Original: Lord of the Flies
Autor: William Golding

O que aconteceria se um bando de crianças fossem largadas em uma ilha deserta? Como sobreviveriam e como se organizariam em sociedade? Em O Senhor das Moscas, o ganhador do prêmio Nobel Willian Golding responde a estas perguntas através de uma história que desnuda a natureza humana no contexto dos relacionamentos pessoais e construções sociais. Não há nada mais cativante do que trabalhar com as emoções infantis. O autor soube usar com maestria esses elementos para mostrar como o ser humano rompe com facilidade os limites entre a civilidade e selvageria, entre a inocência e a violência, entre a democracia e a autocracia.

“- Acho que precisamos de um chefe para resolver as coisas.
- Um chefe! Um chefe!
- Eu é que devo ser o chefe - disse Jack com uma arrogância simples - porque sou chefe do coro, além de solista. E consigo atingir o dó sustenido.”

A sinopse é curiosa: um avião cheio de crianças cai em uma ilha deserta e os únicos adultos presentes no voô (os pilotos) morrem na queda. Assim, um bando de crianças inglesas, entre seis e treze anos de idade, devem se virar para sobreviver e ao mesmo tempo tentar chamar a atenção para serem resgatados por algum navio. No início tudo é festa e brincadeira. Eles encontram frutas para comer. Porém a necessidade de ordem e de caçar os leva a viver momentos de tensão e desavenças, numa disputa intensa por poder.

“- Tem coisas que os adultos sabem. - disse Porquinho - Eles não sentem medo do escuro. Eles se encontram, tomam chá e conversam. E aí os problemas se acabavam.”

O autor se mostra extremamente competente ao construir personagens infantis muito convincentes, através de diálogos que surpreendem pela inocência, pureza e espontaneidade. Ao longo da trama, o caráter de cada pequenino é revelado aos poucos, conforme as circunstâncias vão ficando extremas e difíceis. Essa evolução - ou involução - lenta e gradual de alguns personagens é um fator decisivo que faz de O Senhor das Moscas uma obra-prima.

“- E eu, não ganho nada?
Tinha sido mesmo intenção de Jack deixá-lo na dúvida, para reafirmar o seu poder; mas Porquinho, ao anunciar ter sido preterido, tornou necessária a crueldade adicional.
- Você não caçou.”

Além disso, o livro levanta, de forma indireta, diversas questões filosóficas e sociológicas interessantes. O que somos de fato? Somos produtos do meio, ou o meio é um produto nosso? Qual é o modelo ideal de organização política? Um modelo inclusivo que prioriza a vida e a diversidade vocacional, mesmo que isso acarrete mais lentidão no desenvolvimento tecnológico? Ou um modelo exclusivista, cuja prioridade está nas conquistas materiais através da meritocracia e padronização do ser humano? O que funciona melhor: o diálogo ou a imposição autoritária? Como os mitos, crenças e fanatismos são originados? Enfim, a história trata sutilmente dessas e de outras questões, nas entrelinhas dos conflitos entre os personagens.

“Eu tenho medo dele - disse Porquinho - e é por isso que eu sei quem ele é. Quando você sente medo de alguém, odeia a pessoa mas não consegue parar de pensar nela. Você se engana, diz que no fundo ele é bom, mas então, da próxima vez que encontra a pessoa, parece que tem uma crise de asma, e não consegue respirar. E vou dizer mais uma coisa. Ele detesta você também, Ralph."

Enfim, O Senhor das Moscas é leitura obrigatória para aqueles que não se contentam com meras ficções escapistas. É uma obra cativante, visceral, tensa e rica em reflexões importantes sobre a natureza do ser humano e seu papel nas relações sociais. Além disso, a obra serviu de inspiração para vários sucessos comerciais na literatura e no cinema, dentre eles Battle Royale (Koushun Takami, Japão, 1999) e Jogos Vorazes (Suzanne Collins, EUA, 2008).

Puxou a faca da bainha e a cravou no tronco de uma árvore. Da próxima vez não teria piedade. Olhou em volta com ar feroz, desafiando os outros a duvidar do que dizia.

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E você, já leu? Conte nos comentários o que achou da leitura!

domingo, 14 de setembro de 2014

A Alma Imoral

Título Original: A Alma Imoral
Autor: Nilton Bonder

Talvez o maior desafio para o homem moderno não seja descobrir os mistérios do Universo ou as muitas incógnitas científicas. Antes disso, existe uma questão muito mais urgente para que os avanços de nossa espécie possam prosseguir de forma saudável: o homem precisa conhecer a si mesmo. Em "A Alma Imoral", o aclamado rabino e escritor carioca Nilton Bonder nos leva a um mergulho profundo no interior deste ser complexo e intrigante. Com base em biologia, antropologia e ilustrando com contos bíblicos, Bonder revela que a essência do ser humano é composta pela tensão entre duas forças opostas entre si, uma batalhando pela preservação de tradições, da moral e dos "corretos" vigentes (o corpo) e outra que luta pelo rompimento com estes códigos, em prol de evoluir para novos "corretos" (a alma).

Apesar de profundo, o autor usa uma linguagem fácil e agradável a qualquer tipo de leitor. Como rabino, ele ilustra suas conclusões com base em personagens bíblicos, mas o livro está muito longe de ser religioso. Bonder se mostra um escritor bem racional e humanista e as citações bíblicas estão mais para demonstrações metafóricas do que dogmáticas. A própria utilização da palavra "alma" - foco maior do livro - é uma linguagem figurada para o íntimo do ser, os recônditos da mente que dificilmente alguém expõe. A alma seria uma espécie de nudez, coberta pelo disfarce da moral.

Não é difícil perceber na natureza e na história humana como o estabelecimento de padrões são necessários para a continuidade da vida. Códigos genéticos - na biologia - ou códigos morais - na antropologia - são a chave para passar para as próximas gerações os "corretos" estabelecidos que foram "bons" no passado e supostamente serão "bons" também no futuro. Porém, para que haja evolução biológica, é necessário que uma espécie rompa com os códigos genéticos de seus antepassados. Da mesma forma, nas diversas culturas humanas, não houve evolução na política, religião, economia, ciência, artes ou conquistas de direitos humanos sem que houvesse a quebra de padrões antigos.

Baseado nestas observações, Bonder define o que seria a "alma" humana:

"A 'alma', diferente da definição popular, seria nada mais do que o componente consciente da necessidade de evolução, a parcela de nós capaz de romper com os padrões e com a moral. Sua natureza seria, portanto, transgressora e "imoral", por não corroborar com os interesses da moral."

Assim, o animal moral - o corpo - tem na tradição um instrumento fundamental para sua preservação, seja no âmbito familiar, social ou religioso. A alma, por outro lado, tem por lema que o "bom é inimigo do ótimo" e busca romper os "bons" estabelecidos para alcançar o "ótimo" e assim evoluir.

"Transgredir é transcender, e nossa história não teria mártires no campo político, científico, religioso, cultural e artístico caso fosse possível transcender sem colocar em risco a sobrevivência da espécie."

É possível notar como a transgressão leva a transcendência através, por exemplo, do surgimento da democracia, da abolição da escravatura, das conquistas dos direitos trabalhistas, dos negros e das mulheres, etc. Ou seja, em toda a História, não houve evolução sem a transgressão de um determinado código estabelecido.

Assim, o autor revela que a saúde do ser depende do equilíbrio destas duas naturezas, a que preserva e a que transgride. Saber conhecer o tempo de honrar tradições e o tempo de quebrá-las é essencial para que o homem evolua com segurança. O corpo sem a alma representa o conservadorismo extremo, o fundamentalismo que exalta o coletivo e ignora o indivíduo, transformando os homens em robôs obedientes. Já a alma sem o corpo é a personificação do caos, da irresponsabilidade, da anarquia e da "rebeldia sem causa" que resulta em destruição. O corpo e alma são dependentes entre si. Não pode haver tradição sem traição, nem traição sem tradição.

"A espécie humana enfrenta um mundo que realmente se estreitou. Ele é estreito tanto pela moral como pela rebeldia. A repressão vitoriana e o licencioso mundo hippie são lugares estreitos para um ser humano que aos poucos percebe que busca algo diferente. A alienação e a falta de “causas” são os sintomas mais evidentes de que a busca não se dá pela extirpação desse conflito, mas por uma tentativa de vivê-lo de forma ampla no íntimo de cada um de nós."

Enfim, depois que você ler "A Alma Imoral" a sua visão da natureza humana, da História e da vida nunca mais será a mesma. Uma verdadeira obra prima, profunda em significado e simples na didática.
Leitura obrigatória!

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E você, já leu o livro? Você acredita em morais absolutos ou entende que toda moral é passível de ser revista e alterada? Comente abaixo:

segunda-feira, 7 de abril de 2014

O Apanhador no Campo de Centeio

Título Original: The Catcher in the Rye
Autor: Jerome David Salinger (1919-2010)

"- E a vida é um jogo, meu filho. A vida é um jogo que se tem de disputar de acordo com as regras. 
- Sim, senhor, sei que é. Eu sei.
(...) Jogo uma ova. Bom jogo esse. Se a gente está do lado dos bacanas, aí sim, é um jogo - concordo plenamente. Mas se a gente está do outro lado, onde não tem nenhum fodão, então que jogo é esse? Que jogo, que nada."

Mais que um livro, um agente transformador! Esta é a melhor frase que encontrei para expressar o sentimento que ficou ao terminar de ler "O Apanhador no Campo de Centeio", de J. D. Salinger, um dos maiores clássicos da literatura moderna e talvez um dos livros mais importantes da revolução cultural ocorrida na segunda metade do século XX. Esta singela narrativa fascina leitores de todas as idades pelo seu cativante protagonista adolescente, pela linguagem informal e de baixo calão e por ser uma obra pioneira a falar abertamente dos conflitos internos dos jovens.

Um dos pontos mais importantes de uma obra literária são seus personagens. Talvez seja o ponto mais importante. Ao término de uma leitura, pode-se avaliar o grau de qualidade da obra pela saudade que o leitor fica de seus protagonistas. Livros medianos ou ruins - mesmo que possuam boas tramas -  fazem dos personagens meros robôs falantes que nunca deixarão saudades, nunca farão o leitor revisitá-los em outros momentos, como se revisita amigos de longas datas. Assim, o papel do bom escritor não é criar meros personagens, mas sim criar amigos do leitor, daqueles que dão prazer de seguir, imitar, compartilhar, conversar... de simplesmente estar junto. Quando o autor consegue esta magia, ele alcança seu Magnum opus. Em "O Apanhador no Campo de Centeio", Salinger nos presenteia com um personagem-amigo que tem marcado a vida de milhões de leitores desde seu lançamento em 1951.

"Estou sempre dizendo: "Muito prazer em conhecê-lo" para alguém que não tenho nenhum prazer em conhecer. Mas a gente tem que fazer essas coisas para seguir vivendo."

A trama de "O Apanhador..." é a mais simples possível. O protagonista, Holden Caulfield, é um adolescente que, após ser expulso de seu colégio, narra os acontecimentos dos dias subsequentes a este vexame. Neste tempo, ele encontra amigos, professores e a irmã mais nova, vagueia por ruas e bares, conhece pessoas diferentes e tenta ao máximo adiar a notícia da expulsão para os pais.

Nota-se que não é a trama que faz deste livro uma obra prima, mas sim o personagem principal com seus diálogos inocentes e pensamentos autênticos. Sua visão de mundo é livre de hipocrisia e cheia de questionamentos que ninguém é capaz de entender, somente o leitor. Relacionamentos, amizade, sexo, drogas, futilidades, cultura, aceitação, rejeição e mais um turbilhão de questões internas que todo adolescente possui - mas raramente as expõe - são os assuntos deste personagem que conversa com o leitor numa linguagem informal, pura e sincera. No decorrer da leitura, é impossível não se identificar com o jovem Caulfield. O leitor, independente da idade, certamente encontrará nos pensamentos do protagonista aquilo que ele mesmo sempre pensou, mas nunca teve coragem de se expressar. Sem nenhum sentimentalismo, "O Apanhador no Campo de Centeio" é um livro libertador!

"Os colégios de rapazes estão entupidos de cretinos, e você só faz estudar bastante para poder um dia comprar uma droga dum cadilaque, e você é obrigado a fingir que fica chateado se o time de futebol perder, e só faz falar de garotas e bebida e sexo o dia inteiro, e todo mundo forma uns grupinhos nojentos. Os caras do time de basquete formam um grupinho, os camaradas que jogam bridge formam um grupinho. Até os que são sócios da porcaria do Clube do Livro formam um grupinho. Se você tenta bater um papo inteligente..."

Lançado em 1951, este livro foi uma obra pioneira na expressão dos questionamentos e conflitos internos dos jovens, sempre ignorados até então. Na verdade, conceitos como "adolescente" e "jovem" - como os conhecemos hoje - não existiam até o início do século XX. Desde a antiguidade,  as "crianças" passavam para a idade adulta em média aos quatorze anos, onde casavam-se e trabalhavam. Após a Revolução Industrial, no séc XIX, fora criada uma etapa na vida dos jovens, entre treze e dezoito anos de idade, para que eles pudessem se preparar para a vida adulta - embrião do conceito de "adolescência".

Porém, até a metade do séc. XX, ninguém se preocupara em mostrar ao mundo o clamor de inadequação e o choque que a natureza jovem encontra ao se deparar com um mundo tão hipócrita, falso e fútil. Neste momento é que chega a obra prima de Salinger, abrindo caminho para um revolução cultural jamais vista na história, quebrando inúmeros paradigmas e tabus da sociedade.

"O caso é o seguinte: na maioria das vezes que a gente está quase fazendo o negócio com uma garota - uma garota que não seja uma prostituta nem nada, evidentemente - ela fica dizendo para a gente parar. Meu problema é que eu paro. A maioria dos sujeitos não pára, mas eu não consigo ser assim. A gente nunca sabe se elas realmente querem que a gente pare, ou se estão apenas com um medo danado, ou se estão pedindo que a gente pare só para que, se a gente continuar mesmo, a culpa seja só nossa, e não delas."

Em suma, "O Apanhador no Campo de Centeio" merece ser lido, relido, pensado, refletido e propagado. Obviamente que ele não tem hoje o mesmo efeito revolucionário que teve sessenta anos atrás, mas a essência de sua mensagem continuará marcando a vida de milhões ainda por muito tempo.

segunda-feira, 31 de março de 2014

O Príncipe

Título Original: Il Principe
Autor: Nicolau Maquiavel (1469-1527)

"A crueldade bem empregada - se é lícito falar bem do mal - é aquela que se faz de uma só vez, por necessidade de segurança; depois não se deve perseverar nela, mas convertê-la no máximo de benefícios para os súditos."

Falar de "O Príncipe" de Maquiavel é entrar em um campo caótico e difícil para uma sociedade cujos ideais políticos sejam a perfeição moral, a bondade e a felicidade para todos. Talvez um dos mais importantes tratados que definiu o Estado moderno como o conhecemos, o livreto ainda causa polêmicas e é mal interpretado por alguns. Por outro lado, é o livro de cabeceira de todos os que alcançaram o poder nos últimos 500 anos, sejam reis, ditadores ou presidentes de repúblicas democráticas. Hoje, a obra é analisada meticulosamente em cursos de liderança para a carreira política, empresarial e militar.

"O homem que quiser ser bom em todos os aspectos terminará arruinado entre tantos que não são bons. Por isso é preciso que o príncipe aprenda, caso queira manter-se no poder, a não ser bom e a valer-se disso segundo a necessidade. (...) Pois com pouquíssimos atos exemplares ele se mostrará mais piedoso que aqueles que, por excesso de piedade, permitem uma série de desordens seguidas de assassínios e roubos."

Escrito em 1513, "O Príncipe" trata-se de uma carta de conselhos a Lourenço II de Médici (1492–1519), Duque de uma província italiana em uma época em que a Itália encontrava-se totalmente dividida. É importante conhecer o contexto e os motivos que levaram Maquiavel a escrever declarações tão fortes, desprovidas de moral ou de senso de humanidade. Maquiavel desejava a unificação da Itália, bem como um bom cargo na alta aristocracia, caso Médici conseguisse conquistar a região com seus conselhos, o que não aconteceu. Assim, conquistar e governar um reino nas condições caóticas em que a Itália se encontrava necessitava de atitudes rígidas, temíveis e astutas, ou, em outras palavras, necessitava que os fins justificassem os meios.

"A ofensa que se faz ao homem deve ser tal que não se possa temer vingança."

Existe uma teoria - não comprovada - de que Maquiavel tenha escrito "O Príncipe" como uma sátira ao poder monárquico, já que ele possui outros escritos defendendo a política democrática. Olhando por este ângulo, chega a ser "malignamente engraçado" a forma que Maquiavel pinta o quadro do príncipe perfeito: um agente sem alma, uma entidade que ignora os conceitos de "bem" e "mal" e simplesmente deve fazer o necessário para manter-se no poder, prosperar sua nação e expandir seus territórios. Mas, caso não seja sátira - o que é provável - aqui o autor rompe com as interpretações filosóficas da Grécia antiga sobre os fundamentos da boa política, cujos objetivos eram a "felicidade" e o "bem comum". Além disso, Maquiavel acaba com tradições religiosas sobre as quais acreditava-se que os ciclos no poder decorriam da determinação divina ou eram provenientes do "direito divino".

No decorrer do livro Maquiavel recorre a inúmeros exemplos históricos - desde os imperadores da antiguidade até os reis europeus de sua época - para mostrar como de fato funciona o jogo do poder e quais são as regras para se ganhar este jogo. Para ele, não adianta o governante ser utópico, cheio de teorias políticas bonitas, pacíficas e inocentes. O jogo do poder é selvagem, uma terra de ninguém, um lugar desumano. Por isso, Maquiavel trata da política não como ela deveria ser, mas como ela é. Assim, seus conselhos - não ao pé da letra, mas adaptados de forma racional ao contexto de cada época e lugar - podem ser úteis para o bom funcionamento de qualquer Governo, seja ele uma monarquia, república ou ditadura.

"É melhor ser amado ou temido? Todos gostariam de ser ambas as coisas; porém, como é difícil conciliá-las é bem mais seguro ser temido que amado... pois os homens são ingratos, volúveis, fingidos e dissimulados, avessos ao perigo, ávidos de ganhos."

Em suma, concordando ou não com as idéias de Maquiavel, "O Príncipe" é um livro obrigatório para entendermos como realmente funciona o poder político no mundo. Aconselho a ler a edição da Ediora Penguin Companhia das Letras (capa da imagem no topo do artigo), que, além de ter uma tradução atual e fácil, conta também com um excelente prefácio do ex-presidente do Brasil, Fernando Henrique Cardoso e um apêndice sobre cada personagem e fato histórico mencionado pelo autor. Evitem ler edições com tradução muito antiga.

E você, já leu "O Príncipe"? Comente abaixo sobre esta polêmica e importante obra!
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PS: mais alguns conselhos maquiavélicos extraídos do livro:

"O mais importante é abster-se dos bens alheios, pois os homens se esquecem com maior rapidez da morte de um pai que da perda do patrimônio."

"Um soberano prudente não pode nem deve manter sua palavra quando isto se reverta contra ele e já não existam os motivos que o levaram a empenhá-la."

"Nunca houve um príncipe que desarmasse seus súditos; ao contrário, quando os encontrou desarmados, sempre os armou; isso porque, ao armá-los, tais armas se tornam suas."

"O desejo de conquista é coisa realmente natural e comum e os homens que podem satisfazê-lo serão louvados sempre e nunca recriminados. Mas não o podendo, e querendo fazê-lo de qualquer modo, aí estão em erro, e merecem censura."

"Quem cria o poder de outrem se arruína, porque tal poder se origina da astúcia ou da força, e ambas são suspeitas a quem se tornou poderoso."

"Jamais se deve deixar que um distúrbio se alastre a fim de evitar uma guerra, porque a guerra é inevitável, e postergá-la só traz vantagens ao adversário."

"A melhor fortaleza que há é não ser odiado pelo povo."

"E quando for imprescindível agir contra o sangue de alguém, que o faça por uma justificativa sólida e um motivo evidente."

segunda-feira, 24 de março de 2014

O Coração das Trevas

Título original: Heart of Darkness
Autor: Joseph Conrad (1857 - 1924)

"A conquista da Terra, o que na maior parte significa tirá-la daqueles que tem uma fisionomia diferente ou narizes ligeiramente mais achatados do que os nossos, não é uma coisa bonita quando você olha demais para ela."

Nesta obra prima da literatura inglesa, Joseph Conrad conduz o leitor a uma fascinante viagem pelo interior da África e, ao mesmo tempo, pelos meandros da mente humana, revelando seus mais grotescos anseios, ganancias, preconceitos, loucuras e fraquezas. Como capitão da marinha inglesa durante 16 anos, Conrad percorreu todos os continentes do globo, tirando disso experiências que se tornaram os cenários de seus inúmeros livros e contos. O tema principal de "O Coração das Trevas" é a fusão do civilizado com o selvagem no interior do ser humano, cujos limites são desconhecidos e se misturam quando o homem é movido pela ganância.

O livro conta a história de um marinheiro chamado Marlow, que parte em uma missão de resgate do misterioso Kurtz, um importante comerciante de marfim, no interior de uma floresta africana ao final do séc. XIX. A jornada acontece em um barco a vapor através de um sinuoso rio que penetra uma tenebrosa floresta repleta de nativos selvagens e exploradores loucos. Esta obra magnífica deu origem ao clássico filme "Apocalipse Now" de Francis Ford Coppola, sendo que na adaptação para o cinema a história foi transportada para a guerra do Vietnã.

Conrad narra sua odisséia com impressionante realismo, detalhando com precisão a bela natureza do local, levando o leitor a uma emocionante experiência imersiva. O ritmo de leitura pode cansar em alguns momentos, pois trata-se de uma obra muito descritiva, cujo valor da mensagem encontra-se implícito no perfil psicológico de seus personagens. É impressionante como o autor consegue centrar toda a trama em um personagem que só vai aparecer no final. Durante toda a travessia no rio, Marlow e o leitor vão aos poucos recebendo uma série de informações sobre o poderoso e misterioso Kurtz, um homem que contagiara toda uma região e tornara-se uma espécie de rei/semi-deus entre nativos e comerciantes na selva.

" 'O senhor não fala com o Sr. Kurtz?', disse eu. 'Você não fala com aquele homem – você o escuta', exclamou com severa exaltação. (...) 'Quem não se tornaria amigo dele ao ouvi-lo falar, ainda que fosse uma só vez?', dizia ela. 'Atraía as pessoas em direção a ele com o que havia de melhor nelas ... esse é o dom dos grandes homens'."

Este é um livro difícil para se fazer uma reflexão, visto que ele aborda questões complexas da mente humana e temas contrastantes como os limites entre bem e mal, certo e errado, civilizado e selvagem, loucura e normalidade. Aconselho a ler a obra duas vezes. A primeira para se ter uma visão livre, na qual o leitor possa tirar suas próprias conclusões. Antes de ler uma segunda vez, pesquise a respeito, leia teses e análises sobre a obra na internet. O tom implícito do autor transforma este livro em uma obra de arte subjetiva e sublime, repleta de sentenças impactantes e poéticas, cheias de significado.

"Coisa engraçada é a vida – misterioso arranjo de lógica implacável para um propósito fútil. O máximo que você pode esperar dela é algum conhecimento de si próprio...que chega tarde demais...uma colheita de inesgotáveis arrependimentos."

O livro também denuncia como o imperialismo das grandes potências trata o ser humano diferente e mais fraco como verdadeiros animais. Alguns taxam a obra de racista, pela diferença como o autor descreve os nativos dos colonizadores, sendo os primeiros apresentados através de suas características físicas, enquanto os segundos pelas suas profissões. Este fato é explicado pela realidade e época em que Conrad viveu, muito diferente da nossa, em que a visão acerca de povos não explorados era a mais bizarra possível.

Leitura obrigatória!

segunda-feira, 17 de março de 2014

A História Sem Fim

Título original: The Neverending Story
Autor: Michael Ende

"Que são todos vocês, seres de Fantasia? Figuras de sonho, invenções do reino da poesia, personagens de uma História Sem Fim! Você se julga real, filhinho? Pois bem, aqui, neste mundo, você é. Mas, se entrar no Nada, deixa de existir. (...) Transformaram-se em desvarios da mente humana, em imagens geradas pelo medo, quando, na realidade, não há nada a temer; em desejo de coisas que os tornam doentes, em idéias de desespero, quando não há razões para desesperar."


O gênero Fantasia na literatura moderna tem a difícil tarefa de criar mitologias, seres surreais e mundos mirabolantes sem ser piegas ou demasiadamente infantil, a não ser, é claro, que se trate de uma obra específica para este público. Ao passar por este crivo, um livro fantástico ainda tem o desafio de não ser mais uma cópia barata de "O Senhor dos Anéis", obra que redefiniu o gênero. Assim, o magnífico livro de Michael Ende, "A História sem Fim", passa por todos estes testes e consagra-se, não como mais uma historinha escapista, mas como uma maravilhosa fonte de criatividade e lições importantes sobre como arquétipos fantasiosos do nosso inconsciente estão diretamente ligados com o que acontece no mundo real.

Bastian, um menino gordo e vítima de bullying que perdeu a mãe e vive com o pai - provedor mas ausente -, rouba um livro numa livraria e passa um dia inteiro lendo-o. Este livro conta a história de Atreyu, uma espécie de elfo que vive em mundo chamado Fantasia. Este mundo possui muitos seres fantásticos dos mais variados e é regido pela Imperatriz Criança. Porém, ele está ameaçado pelo Nada, e, como o próprio nome sugere, é nada e sua função é simplesmente levar a inexistência seres e objetos de FantasiaAtreyu então é convocado pela Imperatriz a encontrar o Salvador, alguém que será capaz de dar a ela um nome e assim impedir que Fantasia desapareça. Durante a leitura, Bastian passa por incríveis experiências que mudam sua vida para sempre.

Apesar de parecer infantil, "A História Sem Fim" é divertimento garantido para pessoas de oito a oitenta anos, sendo que a mensagem passada é muito mais voltada para os adultos. Empolgante, inovador e criativo, sua leitura é leve, com boas doses de humor e aventura, tudo na medida certa. Sem limites na imaginação, Ende cria personagens cativantes e profundos, onde cada lugar ou ser fantástico possui um importante papel nesta engenhosa metáfora sobre o ser humano e seus relacionamentos.

O que é "fantasia"? O que são os contos de fada e mitos? São a mesma coisa que "mentiras"? Segundo Michael Ende, fantasia e mentira são coisas diferentes. Os contos mitológicos, contos de fadas, fantasias, etc não são mentiras, mas são verdades alegóricas que representam os mais profundos anseios e sentimentos humanos. Ao mergulhar no mundo fantástico e entender os princípios universais do inconsciente coletivo, consegue-se compreender melhor o ser humano. Deste modo, podemos amar com mais intensidade, realizar nossos sonhos e lutar melhor pela coletividade. Porém, quando abandonamos as fantasias, desprezando-as como mentiras, elas passam a ser de fato mentiras, fantasmas que arruínam os nobres ideais dos heróis que habitam em nossos sonhos.

Quem teve o privilégio de passar sua infância/adolescência nos anos 80 certamente deliciou-se inúmeras vezes com o emocionante filme de 1984, "A História sem Fim", baseado no livro. Porém poucos chegaram a mergulhar mais fundo no Reino de Fantasia. A adaptação cinematográfica que marcou a juventude de muitos termina na metade do livro e o segundo longa foi um desastre em adequação à obra original. Aproveitando a onda de remakes inúteis que tem invadido os cinemas ultimamente, esta aí uma excelente história que poderia ser recontada nas telonas de forma mais fiel ao livro, com melhores efeitos e acredito que caberia em uma trilogia. E uma coisa não poderia faltar: a esplêndida canção tema do filme original, composta por Giorgio Moroder e Keith Forsey e interpretada por Limahl. Simplesmente maravilhosa!

"Todos os que nos vêm visitar aprendem coisas que só aqui podem aprender e regressam modificados ao seu mundo. Seus olhos se abrem, pois eles se vêem em seu verdadeiro aspecto. Por isso, também podem olhar com novos olhos seu próprio mundo e os outros homens. Descobrem de repente maravilhas e segredos onde outrora só viam a monotonia do cotidiano. Era por isso que eles gostavam de vir até nós. E quanto mais rico e florescente se tornava o nosso mundo graças às visitas deles, menos mentiras havia em seu mundo, e mais perfeito também era esse mundo para eles."

Em suma, "A História sem Fim" é uma obra encantadora que vai deixar crianças empolgadas e adultos inspirados por uma mensagem arrebatadora. Leitura obrigatória!

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