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segunda-feira, 19 de agosto de 2013

O Banquete

Título Original: Συμπόσιον
Autor: Platão

"Aquilo que, com efeito, deve dirigir toda a vida dos homens, dos que estão prontos a vivê-la nobremente, eis o que nem a estirpe pode incutir tão bem, nem as honras, nem a riqueza, nem nada mais, como o amor."

"O Banquete" trata-se de um espetacular tratado filosófico do grande mestre Platão acerca da maior das virtudes: o Amor. Aqui o filósofo faz uma linda explanação acerca da vida, da natureza, das artes e dos relacionamentos humanos, e mostra que todas as coisas estão vinculadas pelo Amor. Profundo e revolucionário, as idéias de Platão contidas nesta obra marcaram profundamente o pensamento religioso e filosófico do ocidente, iluminando um mundo de trevas e superstições com a luz do amor que gera vida, paz e harmonia entre os seres. É possível notar que suas idéias foram posteriormente desenvolvidas por Jesus e pelos primeiros cristãos, que fizeram do amor a base de uma vida santificada.

"Assim, pois, eu afirmo que o Amor é dos deuses o mais antigo, o mais honrado e o mais poderoso para a aquisição da virtude e da felicidade entre os homens, tanto em sua vida como após sua morte."

A linguagem utilizada no livro é de fácil compreensão se comparado com outros escritos da antiguidade, como os difíceis poemas de Homero. Para passar seus sublimes conceitos, Platão cria um diálogo fictício entre vários filósofos e poetas, dentre eles o seu mentor e maior mestre grego da antiguidade: Sócrates. Como discípulo de Sócrates, Platão também subverte os padrões religiosos de sua época. Exaltando o deus Amor acima de todos os demais, ele corre o risco de sofrer o que seu mestre sofreu: ser julgado e condenado por "ofender os deuses" e "corromper" os jovens, pois Sócrates os influenciava a buscar a "divindade" interior da razão ao invés de consultar os oráculos dos deuses.

"É mau aquele amante popular, que ama o corpo mais que a alma; pois não é ele constante, por amar um objeto que também não é constante. Com efeito, ao mesmo tempo que cessa o viço do corpo, que era o que ele amava, “alça ele o seu vôo”, sem respeito a muitas palavras e promessas feitas. Ao contrário, o amante do caráter, que é bom, é constante por toda a vida, porque se fundiu com o que é constante."

Em suma, é um livro profundo de significado. Não tenho a pretensão de fazer aqui uma análise detalhada pois não sou filósofo e é possível encontrar uma infinidade de abordagens interessantes sobre ele na internet. Sou somente um entusiasta que absorve a essência dessas jóias literárias. E afirmo que "O Banquete" é, de fato, um banquete de sabedoria de um grande mestre que descobriu o melhor alimento com o qual podemos sustentar nossa vida e construir um mundo melhor. Recomendadíssimo!

Para quem deseja se aprofundar: http://www.esdc.com.br/CSF/artigo_2008_10_o_banquete.htm

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Filhos do Éden - Herdeiros de Atlântida

Título Original: Filhos do Éden - Herdeiros de Atlântida
Autor: Eduardo Spohr

Em Filhos do Éden - Herdeiros de Atlântida, Eduardo Spohr lança o leitor em uma nova aventura angelical que se passa no mesmo universo que o seu primeiro livro A Batalha do Apocalipse. Enquanto a primeira obra trata-se de uma história fechada envolvendo um anjo renegado vivendo em várias eras desde a criação do mundo até o Apocalipse, Filhos do Éden é o primeiro livro de uma nova saga que aborda o drama pessoal de alguns anjos nos dias atuais, desvendando mistérios que se encaixam como peças de quebra-cabeça no grande universo mitológico criado pelo autor.

A trama gira em torno de Kaira, um anjo feminino (sim, neste universo anjos tem sexo, mas não o utilizam, rs) materializada como humana, que precisa ser resgatada da Terra por outros alados, pois sofrera uma espécie de amnésia espiritual e não acredita mais que é um anjo. No decorrer da trama surge uma série de intrigas envolvendo a cidade perdida de Atlântida e os três líderes das facções angelicais: Miguel, o líder de todos os anjos que governa ditatorialmente e anseia por destruir a raça humana; Gabriel, o arcanjo que se rebelou contra Miguel e luta pela preservação da vida na Terra; Lúcifer, a Estrela da Manhã que desejou ser maior que Deus e foi condenado às regiões mais hostis das camadas celestiais, o Inferno. Deuses mitológicos também contracenam com os personagens, que neste universo representam espíritos de homens que, de tanto serem idolatrados, acabaram virando deuses, mas em sua maioria foram derrotados pelos anjos nas guerras pelo domínio dos sete céus.

A aventura fantástica é bem divertida e envolvente, porém menos épica que A Batalha do Apocalipse. No primeiro livro o autor extrai emoção dos grandes acontecimentos históricos da humanidade e de como estes fatos foram influenciados pelos seres alados no decorrer das eras. Já nesta nova saga,  os personagens são mais introspectivos e a trama de menor magnitude. Por causa disso e devido a tratar-se de um livro grande, às vezes a narrativa fica um pouco arrastada, sobrando muitas páginas para poucos acontecimentos. Porém vê-se neste segundo livro traços de evolução evidentes na escrita de Spohr. Os trechos de ação são de perfeição cinematográfica, as descrições de cenário muito bem elaboradas e existe um interessante aprofundamento nas emoções dos personagens.

No fundo, acredito que este tipo de história funcionaria melhor no cinema. No livro, o autor interrompe demais a dinâmica da trama para explicar as "regras" de seu universo. Isso pode cansar algumas pessoas, apesar de não prejudicar o valor da obra. Talvez se ele investisse mais no suspense e mistério envolvendo seus personagens, ao invés de deixar tudo explicadinho, sobraria tempo para tramas mais intricadas. Se a obra for para a telona algum dia, como não haveria tempo para tantas explicações, talvez pudéssemos ver algo mais dinâmico. Da mesma forma como foi em Senhor dos Anéis. Muitas pessoas não conseguiram ler o livro por causa das imensas descrições explicativas de Tolkien, mas assistiram o filme e gostaram. Torçamos para que James Cameron, Christopher Nolan ou J.J. Abrahms faça uma adaptação do universo de Eduardo Spohr!

Apesar destes pontos de atenção (não considero pontos negativos), a leitura vale muito a pena para quem gosta de ficção fantástica!

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Mitologia Ocidental - Parte III


Dualismo ético - Zoroastrismo

Por volta do século VII a.C., o mundo estava mergulhado no politeísmo e em religiões cujos deuses “estavam fora do alcance do julgamento ético. Na verdade, estavam fora de todos os pares de opostos: bem e mal, verdadeiro e falso, ser e não-ser, vida e morte.(...) A orientação de tal ordem de pensamento era metafísica, não ética ou racional, mas trans-ética e trans-racional. No Extremo Oriente, por exemplo, (...) o mundo não era para ser reformado, mas apenas conhecido, reverenciado, e suas leis obedecidas.” As leis éticas de Israel estavam a muito esquecidas tanto pelos reis hebreus quanto pelo povo. Assim, o povo escolhido do único Deus Jeová já havia sido totalmente absorvido pela idolatria e costumes pagãos. Tanto que, anos depois, o rei Josias encontra a Lei no Templo e restaura o monoteísmo em Israel como nunca havia sido praticado desde os tempos do profeta Samuel (2 Cr. 35:18). Ou seja, durante cerca de 300 anos, os hebreus estavam desviados de suas Leis éticas, morais e ritualísticas.


Surge então, na Pérsia, um profeta chamado Zoroastro, anunciando de forma revolucionária uma filosofia que consistia de vários elementos importantes na construção do pensamento judaico, cristão e islâmico posteriores. Zoroastro dissemina na Pérsia e no mundo o monoteísmo, sendo Ahura Mazda o único Senhor e Criador do Universo. Oposto a Ele, existe Angra Mainyu, que é a personificação da Maldade e Mentira, uma espécie de Satanás. Dentre as diversas doutrinas propagadas pelo profeta persa, estão: o dualismo ético gerador do juízo eterno baseado em fazer ou não boas obras, a imortalidade da alma, a ressurreição dos mortos, juízo final com a aniquilação do Mal (Angra Mainyu) e a restauração do Reino perfeito de Ahura Mazda.

As doutrinas zoroastrianas se espalharam de tal forma que podemos observar sua influência em muitos fatos importantes da história. Por exemplo, o imperador persa Ciro era um devoto fiel de Ahura Mazda e seguia piamente os preceitos de Zoroastro. Como podemos ler na Bíblia, Ciro, o Grande, é aclamado pelo profeta Isaías como o "ungido do Senhor" (Is. 45:1-4), pois fora benevolente para com os povos cativos e libertou muitos deles, inclusive os judeus, para voltarem para suas terras (Esdras 1:1-7). Ciro acreditava na prática das boas obras, da misericórdia e no amor como forma de salvação, como Zoroastro pregava. "A nobreza de seu caráter resplandece", escreve o Prof. Eduard Meyer, "tanto nos escritos dos persas, a quem ele conduziu ao domínio do mundo, como nos dos judeus, que libertou, e dos gregos a quem derrotou".


Os judeus, durante o cativeiro babilônico, absorveram em suas tradições muitas das doutrinas pregadas por Zoroastro. Mais tarde pode-se ver a criação de dois partidos político-religiosos em Israel: os fariseus e saduceus. Conforme lê-se nos evangelhos, os saduceus eram mais "puritanos" com relação às tradições judaicas e não aceitavam misturas gentílicas. Por isso não acreditavam na ressurreição dos mortos, na imortalidade da alma, no juízo final de vivos e mortos, dentre outras doutrinas que surgiram com Zoroastro, e não com os judeus. Já os fariseus eram mais "liberais" e aceitavam a introdução do pensamento zoroastriano em suas crenças.

Muitos dos ensinos, princípios e parábolas de Jesus e várias ilustrações do Apocalipse são bem parecidos com aquilo que Zoroastro pregava, principalmente referindo-se à prática das boas obras, boas ações e boas palavras. Parábolas como a do rico e Lázaro (Lc 16:19-31) e a ilustração do julgamento final baseado na caridade para com os pobres e rejeitados (Mt. 25:31-46) parecem ter sido extraídos de textos de Zoroastro. Muitas doutrinas cristãs estudadas nos seminários teológicos até hoje são oriundas do zoroastrismo. Ora, isto não tira a autoridade do Filho de Deus, muito pelo contrário, mostra que Jesus não era um bitolado religioso judeu, mas sim um Homem completo, que compreendia a revelação de Deus em todos os povos e as utilizava para mostrar a grandeza e soberania de um Deus que não está limitado a "cercas" religiosas ou culturais.
Helenismo

Vimos na Parte II deste estudo que a Grécia passava, por volta de 400 a.C., por um período de transformações profundas no pensamento coletivo mitológico e filosófico. Os mitos outrora idolatrados passavam agora para a categoria de meras alegorias pelos sábios gregos. Filósofos tentavam exprimir uma redefinição da essência divina, ou "causa última" como chamavam pelo termo ἀρχή. Tales de Mileto acreditava que a causa última era a "água"; Anaximandro, o "ilimitado"; Anaxímenes, o "ar"; os pitagóricos, o "número". Porém, um século mais tarde, Platão e sua escola abordaram o tema de forma mais sublime, inclusive repetida por Jesus e pelos apóstolos. Platão dizia que a essência divina era o "amor".


"Tem-se argumentado que a mitologia grega degenerou de religião em literatura por causa do sentido sumamente crítico da mente grega, que já se havia voltado contra ela nos séculos VI e V a.C. Com frequência, esse argumento envolve a idéia de que o politeísmo é uma forma inferior de religião, vulnerável à crítica, enquanto o monoteísmo, não. Em consequência, quando a mente grega começou a analisá-lo de modo crítico, o politeísmo foi liquidado. Abriu-se então o caminho para a Verdade Cristã revelada do Deus Único em Três Pessoas, com seu panteão de anjos, contrapanteão de demônios, comunhão de santos, perdão de pecados e ressurreição do corpo. Abriu-se caminho também à presença múltipla (em cada gota consagrada do vinho e pão da Santa Ceia) do Filho de Deus morto e ressuscitado - verdadeiro Deus e verdadeiro Homem -, nascido milagrosamente da Virgem Mãe Maria." [1]


Tanto o monoteísmo hebreu quanto o persa (com exceção de Ciro) tinham como característica marcante o extermínio de tudo aquilo que era considerado impuro dos inimigos (inclusive animais e crianças), pois não havia outro Deus senão o seu próprio. Com a chegada de Alexandre, o Grande, no cenário político mundial em 334 a.C., a conquista do Oriente e da Índia, não com destruição mas com o domínio cultural, fizeram com que os deuses gregos influenciassem todas as culturas do mundo. Apesar de os gregos estarem em uma nova fase de pensamento filosófico acerca do divino, "os belos deuses gregos, longe de morrer, sopraram seu alento inspirador por toda a Ásia, despertando novas formas religiosas e estéticas na Índia Maurya, na China Han e no Japão. No Ocidente, despertaram Roma e no sul deram um novo significado aos antiquíssimos cultos da deusa Ísis e seu cônjuge." [1]


Existem três pontos importantes a serem observados quanto à influência grega no mundo: 1) o sincretismo religioso promoveu tolerância e respeito entre diversas culturas, pois os povos dominados por Alexandre identificavam analogias entre seus deuses e os dos gregos; 2) O desenvolvimento da matemática e astronomia fora muito mais proeminente devido às trocas de conhecimento com os sábios do Oriente; 3) Na Índia, a filosofia grega encontrou-se com os iogues jainistas, budistas e bramanistas, dando origem a um saber místico psicossomático que seria o embrião da moderna psicologia de Nietzsche, Freud e Jung.


Além disso, os avanços na ciência promovida no império alexandrino foram inúmeros. Aristarco de Samos (310-230 a.C.) propôs que a Terra e todos os planetas giravam em torno do Sol, contrariando o pensamento geocêntrico que predominou até Copérnico (1473 d.C.)! Erastóstenes de Cirene (275-200 a.C.) mediu a circunferência da Terra com uma imprecisão de apenas 321 quilômetros, e concluiu que se podia navegar da Espanha, na direção oeste, até a Índia. Sugeriu também que o Atlântico estaria dividido por uma massa de terra (América)! Na medicina, Herófilo de Calcedônia (séc. III a.C.) descobria a relação entre o cérebro, a coluna vertebral e os nervos, e Erasístrato de Chíos (séc. III a.C.) reconhecia a diferença entre os nervos motores e sensoriais.



Referências:
[1] As Máscaras de Deus - Vol. 3 - Mitologia Ocidental
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Na próxima parte veremos como o cristianismo transformou o mundo utilizando muito do pensamento grego de um lado, porém também lançando mão do antigo pensamento "levantino" conquistador e ditatorial.

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Sem Barganhas com Deus

Título Original: Sem Barganhas com Deus
Autor: Caio Fábio D'Araújo Filho


O livro "Sem Barganhas com Deus", de Caio Fábio, é um tratado revolucionário, magistral e subversivo para quebrar conceitos cristãos errados sobre "moral absoluta". O autor confronta a mentalidade religiosa fundamentada no que ele chama de "Teologia Moral de Causa e Efeito", que busca atribuir a providência ou salvação divina como resultado daquilo que fazemos segundo os padrões morais estabelecidos por uma minoria no passado e adotada pela maioria ao longo dos anos.

"Ora, antes de haver Moral houve seres Moralistas. Estes são os filhos de Caim e de sua presunção de agradar a Deus por suas próprias obras. Mas fazem isto pela força de coação, e usam o seu poder a fim de impor um comportamento ou fabricar valores que são estabelecidos sobre os demais, e que, depois de um tempo, são aceitos como média, como maioria, como consenso."

Caio Fábio revela, através de exemplos como os heróis da Bíblia, que os conceitos morais de certo e errado variam tanto com o decorrer dos séculos que torna-se incoerente associar a prática da Moral com as dicotomias de santidade/pecado, salvação/perdição, benção/maldição. Por exemplo, Abraão, Jacó, Davi, Moisés e outros grandes homens "justos" da Bíblia mataram muita gente e possuíram várias mulheres. Ora, se hoje um homem que mata e tem dez esposas resolvesse abrir uma igreja, quem o reconheceria como homem de Deus? Provavelmente ninguém!

"A durabilidade da Moral não é longa. Varia de tempos em tempos, mas no tempo em que está vigente, torna-se um valor absoluto da maioria contra as minorias. E esta é a ironia: minorias a impõem sobre uma maioria, e, depois, esse código se volta sobre os milhares de minorias, que, inconscientemente, “assinaram o acordo”. 

"Teologia Moral de Causa e Efeito" busca também justificar de forma lógica que a benção, salvação e prosperidade vem sobre os "justos", segundo os padrões morais estabelecidos no tempo vigente. Enquanto que a maldição, perdição e miséria vem sobre os "maus", ou seja, aqueles que não se enquadram nos conceitos de certo e errado da maioria. Algumas linhas religiosas - que pregam reencarnação ou castas - transferem esta lógica de "causa" e "efeito" para vidas passadas. Porém, o livro de Eclesiastes desconstrói a idéia de "causa" e "efeito" moral:

"... há justos a quem sucede segundo as obras dos ímpios, e há ímpios a quem sucede segundo as obras dos justos." Ec. 8:14
"Tudo sucede igualmente a todos; o mesmo sucede ao justo e ao ímpio, ao bom e ao puro, como ao impuro; assim ao que sacrifica como ao que não sacrifica; assim ao bom como ao pecador; ao que jura como ao que teme o juramento." Ec. 9:2

Assim, o conceito de "justo" varia no tempo e lugar. Ser justo, muitas vezes, é viver segundo a "normalidade" temporal do que está estabelecido como certo e errado pela maioria dentro de algum contexto religioso. Esta mentalidade, ao invés de gerar vida, gera a morte, pois escraviza pessoas em normas que normalmente vão contra a naturalidade da vida, levando-as a viverem cheias de culpas e neuroses por não atingirem um padrão "ideal" de santidade. E por outro lado, produz gente soberba e exclusivista, que acham que são "melhores" do que aqueles que não conseguem viver segundo os padrões que tanto idolatram.

E o que é ser justo de fato? Ser justo consiste em amar e valorizar o ser humano. Esta é a única chave para viver em paz, sendo de fato um justo, ainda que "errado" segundo padrões estabelecidos. Segundo Caio, "não tenho de ser para ninguém nada além daquilo que Deus sabe que eu sou. Isto me ajuda a não ter medo de ser gente". Assim,  amar, exercer misericórdia e ajudar o necessitado são as regras de ouro. E nada disso tem a ver com a Moral.

É interessante frisar que as Leis da sociedade são importantes para o convívio social, já que nem todos (ou a maioria) não entende o que é viver em Amor. Mas leis sociais são diferentes de leis morais. Neste ponto, o autor escreve:

"A Lei nos proíbe de não permitir o outro ser, desde que a expressão de seu ser não seja contra a liberdade do próximo de também ser. A Lei nos garante que essa liberdade vai apenas até o limite em que sua expressão de ser não violente um outro ser humano. A Moral, todavia, nos impede de ser diferentes da maioria, portanto, mata a expressão do ser."

Em suma, o livro trata destes assuntos e de outros relacionados, como a famosa dicotomia teológica "Lei x Graça".

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E você, o que pensa sobre estes assuntos? O que você pensa sobre a Moral? E com relação à mentalidade de "causa" e "consequência" moral resultando em benção/maldição? Comente abaixo.

sábado, 23 de março de 2013

Cristianismo Pagão

Título Original: Pagan Christianity?
Autor: Frank Viola e George Barna

"A vida é vivida adiante, mas entendida para trás. Sem compreender os erros do passado, estamos condenados a um futuro imperfeito."

O livro "Cristianismo pagão", de Frank A. Viola, trata-se de uma bombástica revelação acerca das origens das práticas, tradições e doutrinas cristãs. Percorrendo minuciosamente a história da cristandade, desde a igreja primitiva, passando por todas as transformações efetuadas pelo Império Romano e pela Reforma, até o moderno sistema religioso cristão, o autor revela as estarrecedoras origens pagãs das práticas, liturgias e conceitos teológicos do cristianismo.

O foco do livro é desvendar as origens de certas práticas cristãs e como elas foram adicionadas aos ensinos de Jesus ao longo destes dois milênios. Apesar de algumas práticas e crenças serem comuns tanto para o Catolicismo como para o Protestantismo (e suas infindáveis ramificações), o livro concentra-se mais nos costumes destes últimos.

"A experiência provê a dolorosa prova de que as tradições, uma vez engendradas, são primeiramente tidas como úteis, depois consideradas necessárias, até finalmente serem transformadas em ídolos. Todos têm que se curvar diante delas ou haverá punição." - J.C. Ryle.

A obra de Viola é chocante e assustadora, porém simultaneamente reveladora. O ponto chave do livro fala a respeito do distanciamento que a igreja institucionalizada fez de Deus com relação ao cotidiano das pessoas. O culto cristão, na época da igreja primitiva, não passava de "reuniões marcadas pelo funcionamento de cada membro, numa espontânea, livre, vibrante e aberta participação (...) um encontro fluido, imprevisível, não um ritual estático", e ocorriam nas casas e em qualquer lugar do cotidiano.

Não haviam sacerdotes, clero ou pastores assalariados. Haviam "Anciãos", "presbíteros", "pastores" ou "bispos", que são termos sinônimos usados no Novo Testamento e representavam aqueles irmãos mais maduros na fé que auxiliavam os mais novos. Eles não eram centralizadores da revelação divina e nem controlavam a vida dos fiéis. Seus objetivos eram ser facilitadores e não autoridades hierárquicas. A pregação do Evangelho não era um monólogo retórico cheio de argumentos teológicos convincentes, mas era simplesmente diálogos simples e singelos entre todos os irmãos.

As ofertas eram para os pobres ou, circunstancialmente, para alguns enviados itinerantes, já que, naquela época, as pessoas exerciam suas profissões em suas próprias terras e quando viajavam para pregar o Evangelho precisavam ser sustentados pelas ofertas da igreja.

Com a instituição da Igreja Oficial por Constantino aproximadamente no ano 300 d.C., tudo mudou. O ambiente singelo, simples e fluente das casas e lugares públicos passou para os templos pagãos, agora convertidos em templos cristãos. Surge o clero assalariado, como mediadores entre Deus e a igreja, e eram constituído pelos bispos e por sacerdotes pagãos que traziam suas práticas místicas para o cristianismo. As ordenações clericais fizeram calar o povo para que só profissionais da fé assalariados pudessem pregar retóricas teológicas. Estes retóricos (ou Sofistas) eram filósofos que cobravam para elaborar discursos de entretenimento. Assim, com a chegadas deles no clero, a pregação tomou a forma de monólogo que conhecemos hoje, muito diferente dos calorosos diálogos entre todos os irmãos nas igrejas caseiras.

Além disso, é instituído o dízimo, no ano 680 d.C., como um imposto pelo Império/Igreja. Ou seja, nos primeiros 600 anos de existência, a igreja nunca praticou o dízimo.

Do ano 300 d.C até 1500 d.C., a dicotomia "secular x sagrado" e a demonização de tudo o que a igreja determinava como abominável transformaram o cristianismo em uma religião de ascetismo, medo e culpa, que é o oposto de Graça, Amor e Liberdade do Evangelho. Até que surge Martinho Lutero (1483-1546) limpando a "casa", removendo vários erros doutrinários com a instituição da Reforma Protestante. Apesar dos diversos benefícios sociais que os protestantes proporcionaram ao mundo (juntamente com o Iluminismo e a Revolução Francesa) muitas tradições católicas permaneceram no meio evangélico com um formato diferente e novas doutrinas foram sendo adicionadas ao longo dos séculos.

Com a reforma, o clero permaneceu, assim como seu precioso dízimo. O sermão, o púlpito e a Bíblia tornaram-se o centro do culto. Posteriormente, conceitos como "Salvação individual do pecador" e o apelo ao final dos sermões criaram uma idéia exclusivista de salvação somente para aqueles que "aceitam" a Jesus.

No período de fundamentação da Reforma Protestante na Europa, João Calvino (1509-1564), um grande intelectual e teólogo francês, acreditava que a revolução religiosa cristã deveria ser mais radical, dando início ao movimento puritano. Esta linha doutrinária anunciava uma santidade baseada no esforço humano, cheio de regras sobre comida, vestimentas, frequencia ao templo, acepção de pessoas e um monte de "podes" e "não podes" que excluía aqueles que não se adaptavam às Leis estabelecidas.

Com a chegada do movimento pentecostal (por volta do ano 1900), muitas doutrinas novas foram introduzidas nos cultos evangélicos, que passaram a dar maior ênfase em manifestações espirituais externas e visíveis. Porém, o apóstolo Paulo orientava a igreja primitiva a manter a ordem e fazer um culto racional (I Co. 14:40; Rm. 12:1). Também neste movimento, o conceito do "pastor" local como uma autoridade hierárquica inquestionável se intensificou, algo que Jesus nunca aprovaria entre seus discípulos. Posteriormente, ao longo do século XX, espetáculos retóricos e musicais fizeram do culto um show sensacionalista e proselitista.

Conclusão

Em suma, o livro Cristianismo Pagão é essencial para compreender como uma seita simples, absurda e ingênua como o cristianismo primitivo se distanciou de suas origens, se tornou uma aberração moralista e trouxe atrasos significativos para o desenvolvimento racional humano, seja pelo Catolicismo ou pelo Protestantismo.

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E você, sabe as origens de suas práticas religiosas? Comente abaixo o que você pensa acerca destes assuntos!

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Mitologia Ocidental - Parte II

A IDADE DOS HERÓIS

No artigo anterior sobre Mitologia Ocidental, baseado no livro “As Máscaras de Deus - Vol. 3 - Mitologia Ocidental”, de Joseph Campbell, vimos que a história de abertura da religião judaica (início do Gênesis bíblico) possui muitas semelhanças com antigos mitos sumérios e, de forma impressionante, também está presente em culturas agrícolas dos trópicos como na África, Índia, Sudeste Asiático, Melanésia, Polinésia, México, Peru e até no Brasil. As principais características destes mitos e ritos são: “1. a serpente; 2. a mulher; 3. o assassinato da serpente, da mulher ou de ambas; 4. o crescimento de plantas comestíveis a partir da cabeça ou do corpo enterrado da vítima; 5. o surgimento da morte e da procriação nessa mesma época; 6. o término, com isso, da era mitológica” [1].

Campbell sugere que o conto judaico, bem como os demais mitos semelhantes, seria uma forma de sobrepujar as religiões predominantes anteriormente, que veneravam a serpente, a mulher e a mãe Terra. Agora, estes elementos são amaldiçoados pela doutrina da Queda. Outro conto interessante que pode conter traços de dominação cultural é a história de Caim e Abel. Aqui há um pastor de ovelhas que obtém o favor de Deus, enquanto um agricultor não. O agricultor, então, mata o pastor e recebe como maldição uma vida errante sobre a Terra. Os semitas, de onde se originaram os hebreus, eram pastores, e os povos conquistados de Canaã eram agricultores. Logo, é razoável um conto que exemplifique a superioridade do novo povo dominante. É interessante notar que contos semelhantes - da disputa entre um agricultor e um pastor - podem ser encontrados em diversas mitologias antigas, porém, em culturas agrícolas, o agricultor é o herói e o pastor, o vilão. Mas, sendo literal ou não, a história de Caim e Abel é, na verdade, uma profecia mostrando que o sangue do justo sempre será derramado pelo invejoso e ímpio. O cumprimento máximo desta previsão ocorre em Jesus Cristo, morto pelo homens, oferecendo uma oferta melhor a Deus: a sua própria vida.

Acerca de Moisés, um fato curioso é que o nome deste profeta não é de origem hebraica como muitos imaginam. Ele foi adaptado para o hebraico. Moisés é um nome de origem egípcia e significa “criança”. Vários faráos tiveram nomes com a mesma origem, porém acompanhados de nomes de deuses egípcios, como Ramsés (Ra-moisés), Tutmósis (Tut-moisés) e Amósis (A-moisés). É provável que o povo hebreu, após viver várias gerações como escravos no Egito, tenha absorvido muito de sua cultura e crenças. Além disso, existe uma suposição de que Moisés tenha sido fortemente influenciado pelos conceitos de um faraó chamado Akenaton. Durante seu reinado, Akenaton implantou um culto monoteísta no Império, mas morreu cedo e seus ideais religiosos revolucionários foram abandonados pelo seu sucessor, que entregou novamente o Egito ao politeísmo. Moisés, então, teria juntado este legado com as tradições orais hebraicas para libertar o povo de Israel da escravidão e instituir as bases da fé judaica.

Enquanto isso, na Grécia, as transformações mitológicas gregas ocorridas neste período - cerca de 1.000 a. C. - , foram fundamentais na construção do pensamento racional, humanista e individualista que predominou durante muitos séculos, influenciando de forma assustadora todo o ocidente e parte do oriente e resultando no que somos hoje como sociedade. Por exemplo, no conto da Odisséia de Homero, observa-se a criação do herói cuja realização individual sobrepuja a vontade coletiva. Enquanto os demais integrantes do grupo de Odisseu sempre falhavam e iam morrendo durante a jornada, o herói toma as decisões corretas e consegue retornar são e salvo. Em diversas situações, a libertinagem, a curiosidade e empolgação coletivas geram problemas diversos que somente são solucionados pelas habilidades do herói. Mas é conveniente assinalar que, na situação em que Odisseu se autodenomina “Ninguém” e fere o Cíclope - causando indiferença nos amigos do monstro ao tomarem conhecimento que “ninguém” o havia ferido - constata-se que, apesar do egocentrismo aparente do herói, há provações em que somente a anulação do ego, do nome e de fama pessoal é capaz de proporcionar vitória em uma esfera de forças transpessoais incontroláveis do subconciente.

Os gregos então, após vitórias militares surpreendentes contra os numerosos persas, passaram por um momento de amadurecimento político jamais visto até o momento. “Eles sentiam-se orgulhosos de ser homens em vez de escravos. De ser os únicos no mundo que tinham aprendido a viver não como servos de um deus (no sentido político, não individual), obedientes a alguma lei divina invocada, nem como funcionários ajustados a alguma ordem cósmica em eterna rotação; mas como homens com discernimento racional, cujas leis eram votadas, não ‘ouvidas’; cujas artes celebravam a humanidade, não a divindade (pois mesmo os deuses haviam agora se tornado homens) e, consequentemente, em cujas ciências a verdade e não a fantasia começava a aparecer. A constatação de uma ordem cósmica não era interpretada como um modelo para a ordem humana, mas como seu marco ou limite. Tampouco a sociedade era para ser santificada acima dos homens que a constituíam.” [1] [com notas minhas em itálico].

Nesta época, a ascenção das idéias filosóficas na Grécia sobrepujaram os determinismos religiosos. Muitos filósofos buscavam explicar a origem da vida de diversas formas. Um termo grego muito utilizado por todos eles para explicar o conceito de Deus, ou o Infinito ou a Essência de tudo era ἀρχή (que significa “princípio”). Alguns diziam que o ἀρχή era a água, outros o entendiam como o éter. Pitágoras, por exemplo, tinha um conceito diferente. Para ele, o ἀρχή eram os números, pelos quais a arte, a psicologia, a filosofia, o ritual, a matemática, a música e os esportes seriam reconhecidos como aspectos de uma única ciência da harmonia. “Portanto, finalmente, o conhecimento, e não o êxtase, tornou-se o meio de realização. E os antigos modos do mito e da arte ritualística uniu-se harmoniosamente a aventura alvorecente da ciência grega, para uma nova vida” [1]. Neste momento, a razão e a ciência tornaram-se os novos deuses gregos.

Não é em vão que o apóstolo Paulo fala "Porque os judeus pedem sinais, e os gregos buscam sabedoria; (...)", em uma alusão à insaciável sede grega por conhecimento e explicação racionais. Paulo conclui seu pensamento dizendo  "(...) mas nós pregamos a Cristo crucificado, certamente escândalo para os judeus, e loucura para os gentios", exemplificando assim que o âmago do Evangelho, a morte de Cristo pelos pecados da humanidade, não se explica racionalmente.

No próximo artigo veremos como a ciência grega envoluiu de maneira assustadora no decorrer dos últimos 500 anos a.C. a ponto de ser descoberto, nesta época, que a Terra era redonda e girava em torno do Sol, além de sua circunferência ter sido calculada com altíssima precisão. Veremos também como o conceito de ἀρχή (princípio divino) se transformou no amor platônico que, juntamente com a doutrina de um profeta persa chamado Zoroastro, influenciou e determinou os ensinamentos judaico e cristão posteriores.

Referências:
[1] As Máscaras de Deus - Vol. 3 - Mitologia Ocidental

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E você, o que acha sobre o início de Gênesis? Acha que a história de Caim e Abel é literal ou simbólica? Ou talvez tenha de fato acontecido, mas de outra forma? Acredita que a filosofia e ciência grega influenciaram a nossa sociedade atual? Comente abaixo:

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Mitologia Ocidental - Parte I

Introdução

Tendo em vista a necessidade de se conhecer as origens religiosas e culturais que envolvem a nossa sociedade ocidental atual, venho através deste e em artigos futuros, trazer à luz um conhecimento profundo e interessantíssimo que nem sempre é muito abordado em aulas de história ou nas igrejas. Baseado no livro “As Máscaras de Deus - Vol. 3 - Mitologia Ocidental”, de Joseph Campbell, pretendo esclarecer importantes aspectos históricos que moldaram este lado do mundo em seu racionalismo e individualismo excessivos, bem como explicar de onde nasceram as bases doutrinárias do judaísmo, cristianismo e islamismo.



PARTE 1 - A Idade da deusa

Existe uma teoria, aceita por muitos paleontólogos e arqueólogos - mas também muito contestada - de que há alguns milhares de anos antes de Moisés e até mesmo de Abraão, houve na Terra um período cujas crenças não eram dominadas por fortes deuses masculinos e nem os homens regiam a ordem social. Na transição pré-histórica entre as eras paleolítica e neolítica (entre dez e quatro mil anos a.C.) havia a chamada Era Matriarcal na região que posteriormente tornara-se a antiga Suméria, a civilização mais antiga de que se tem um conhecimento mais concreto. Desta era remotíssima, evidências arqueológicas mostram que os deuses predominantes eram representados pela figura feminina, já que a mulher era a “geradora de vida” pelo parto. Nesta época, em muitos lugares, as mulheres também exerciam um papel importante na organização social.

Fig. 1: Selo Sumério: a árvore da vida e do conhecimento,
a serpente, a mulher e o deus eternamente morto e ressuscitado
Tendo esta herança matriarcal, muitas crenças da Idade do Bronze (cerca de 3.000 a.C.) tinham como símbolos comuns a mulher como geradora de vida, bem como a serpente e a lua como divindades que representavam os ciclos de nascimento, crescimento, morte e ressurreição. A serpente por causa de sua capacidade de renovar sua pele, “morrendo e ressucitando” e a lua por suas fases, pelas quais se apaga (lua nova) e “ressucita” (minguante e cheia). Em muitas imagens encontradas, pode-se observar também a crença em um jardim de perfeição, onde há uma árvore da vida eterna e guardiões em seus limites (como pode ser observado na figura 1). Resumindo, os elementos essenciais de muitas crenças antigas eram: um jardim perfeito, mulher, serpente, guardião do jardim, fruto da árvore da vida eterna. Qualquer semelhança com o Jardim do Éden bíblico, talvez não seja mera coincidência.

Com o passar do tempo, uma sucessão de mudanças culturais e sociais nessas civilizações passaram a transformar suas crenças. Pastores nômades árias do Norte e semitas do Sul, passaram a dominar e invadir de modo violento os veneráveis locais de culto do mundo antigo, fazendo com que o racionalismo e força bruta - características masculinas – tomassem lugar da intuitividade feminina, dominante enquanto a humanidade adorava a deusa mãe Terra e vivia principalmente da colheita frutífera. Assim, “contra esse símbolo do poder imortal encontramos o princípio guerreiro da grande façanha do indivíduo que arremessou seu raio, fazendo ceder a antiga ordem de crença, bem como de civilização” [1]. No Ocidente, o princípio do livre-arbítrio, com sua carga moral de responsabilidade individual, estabelece a primeira característica distintiva da mitologia ocidental. Observa-se agora, oposta à ordem matriarcal de sociedade e culto, a ordem Patriarcal, “marcada pelo ardor da eloquência justa e pela fúria do fogo e da espada” [1].

Na ordem Patriarcal, os deuses masculinos passam a sobrepujar os deuses femininos. Heróis do céu passam a pisar nas serpentes e monstros da Terra. “Quer pensemos nas vitórias de Zeus e Apolo, Teseu e Perseu, Jasão e os demais, sobre os dragões da Idade do Ouro, ou nos voltemos para a de Jeová sobre o Leviatã, a lição é a mesma. A de uma força autopropulsora maior que a do destino de qualquer serpente terrena. (…) Todas são, acima de tudo, um protesto contra a adoração da Terra e os daimones da fertilidade da Terra” [1].

O ponto de vista Patriarcal veio para separar os pares de opostos – macho e fêmea, vida e morte, verdadeiro e falso, bem e mal – como se fossem absolutos em si mesmos e não apenas aspectos diferentes do todo, como se acreditava antes. Porém, apesar do Patriarcado ter dominado totalmente as formas de culto do Ocidente, resquícios do Matriarcado foram se arrastando ao longo dos séculos, no chamado “mito da mãe do deus morto e ressuscitado”. Tendo diversas representações locais desde 5500 a.C., esta deusa tem “sobrevivido” nas crenças de diversos povos, seja como Mãe dos deuses pelos frígios, Minerva pelos atenienses, Vênus pelos ciprianos, Diana pelos cretenses, Prosépina pelos sicilianos e Ceres pelos nativos de Elêusis. Para alguns, Juno, para outros, Belona, Hécate ou Ramnúsia. Mas seu nome mais conhecido na antiguidade era Rainha Ísis e na atualidade, Virgem Maria.

A evolução da ordem Patriarcal culminou também na separação impressionante das mentalidades Ocidental e Oriental. “No espírito europeu a força estruturadora nutre-se da longa formação de suas raças nas atividades da caça e, consequentemente, das virtudes do julgamento individual e da excelência independente. Ao contrário, no mais jovem porém culturalmente muito mais complexo Oriente Próximo, as virtudes da vida grupal e a submissão à autoridade foram os ideais incutidos no indivíduo que, em tal mundo, não é na verdade nenhum indivíduo – no sentido europeu – mas o componente de um grupo. E por toda a história conturbada da interação desses dois mundos culturais em seus movimentos pendulares alternados, o conflito insolúvel dos princípios do indivíduo paleolítico e do santificado grupo neolítico criou e manteve até hoje a situação tanto de reciprocidade criativa quanto de menosprezo mútuo” [1].

Um fator interessante relacionado às mitologias primitivas, é o quanto o judaísmo e o cristianismo foram por elas influenciados. Segue abaixo alguns exemplos desta possível influência:
  • Este relato sobre a ilha-paraíso suméria, Dilmun, no meio do mar primevo, de 2050 a.C., assemelha-se à profecia bíblica sobre o reinado do Messias na Terra.
    • “O leão não mata, o lobo não devora o cordeiro... A mulher de idade não diz: sou uma mulher de idade, O homem de idade não diz: sou um homem de idade.” (Relato sumério)
    • "E morará o lobo com o cordeiro, e o leopardo com o cabrito se deitará, e o bezerro, e o filho de leão e o animal cevado andarão juntos, e um menino pequeno os guiará” (Isaías 11:6)
  • Descrição de um antigo mito sumério, com seus paralelos bíblicos:
    • “O céu (An) e a terra (Ki) eram no princípio uma única montanha indivisa (Anki), da qual a parte inferior, a terra, era feminina, e a superior, o céu, masculina. Mas os dois foram divididos (como Adão, dividido em Adão e Eva) por seu filho Enlil (na Bíblia, pelo criador Jeová), quando surgiu o mundo da temporalidade (como ocorreu quando Eva comeu a maçã).” [1]
  • Na mitologia da antiga babilônia, onde o senhor Marduk, filho do grande deus Ea, derrota a monstruosa Tiamat e seus demônios, tem-se paralelos incríveis com a doutrina da criação bíblica:
    • O nome da mãe-monstro babilônica ti'amat, está etimologicamente relacionado ao termo hebraico tehom, “o profundo”, do segundo versículo de Gênesis. Assim como o vento de Anu (no conto mitológico) soprou sobre o Abismo, e o de Marduk sobre a face de Tiamat, também no Gênesis 1:2, “um vento [ou espírito] de Elohim pairou [ou soprou] sobre as águas”. Por outro lado, quando Marduk estendeu a metade superior do corpo materno como um teto, com as águas do céu sobre este teto, também em Gênesis 1:17, “Elohim fez o firmamento, que separou as águas que estão sob o firmamento das águas que estão acima”; e ainda, como Ea venceu Apsu e Marduk venceu Tiamat, também Jeová venceu os monstros marinhos Raab (Jó 26:12,13) e Leviatã (Jó 41; Salmo 74:14).
Conclusão

Neste primeiro artigo vimos as transformações nas civilizações primitivas que supostamente influenciaram a origem de crenças ocidentais posteriores. É muito interessante saber que o antigo e difundido mito do "deus nascido de uma virgem, eternamente morto e ressuscitado" está presente em diversas crenças da antiguidade e não somente no Cristianismo.

Referências:
[1] As Máscaras de Deus - Vol. 3 - Mitologia Ocidental

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E você, acredita que houve uma era Matriarcal? Acredita que algumas histórias da Bíblia podem ser evoluções de antigas crenças sumérias, ou não? Deixe abaixo seus comentários:

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

O Analista

Título Original: The Analyst
Autor: John Katzenbach

"Sempre há pessoas que se sacrificam para que outras pessoas possam viver. Soldados em combate. Bombeiros em um prédio em chamas. Policiais nas ruas. A sua vida é tão adorável e produtiva e tão importante que possamos automaticamente admitir que ela seja mais valiosa do que a vida que ela poderia salvar?"
(Extraído de O Analista)

Existem livros ruins, e chegar até a metade deles já é um grande feito. Existem livros bons. Estes, indicamos reativamente, ou seja, quando somos questionados sobre eles ou em alguma conversa ocasional sobre o assunto que lembre a obra. Porém, existe uma outra categoria de livros, que se encontra bem acima daqueles considerados bons. Existem os livros que nos marcam profundamente. Estes, indicamos proativamente, como se fosse obrigação a sua leitura. São histórias que levam o leitor a viver a vida dos personagens de forma tão intensa que, quando terminado, ele respira como se tivesse perdido o fôlego durante toda a sua leitura. O Analista, de John Katzenbach, se enquadra nesta categoria... a categoria de livro perfeito.

Nesta obra-prima do suspense psicológico, Katzenbach constrói um complexo e empolgante thriller moderno com uma narrativa dinâmica e repleta de tensão, muitos climax, personagens profundamente cativantes e assustadores e reviravoltas inacreditáveis. Tudo isto é orquestrado em perfeita harmonia na composição de uma trama muito bem estruturada, sem pontas soltas e com um ritmo que não perde a cadência em nenhum momento.

O livro conta a história de Frederick Starks, um psicanalista experiente, que, ao completar 53 anos, recebe uma misteriosa carta com os dizeres: "Feliz aniversário de cinquenta e três anos, doutor. Bem-vindo ao primeiro dia de sua morte". Ainda na carta, dr. Starks é ameaçado por alguém que diz "pertencer ao seu passado" e o desafia a se matar ou a descobrir a identidade de seu algoz. Caso contrário, uma lista de 53 nomes de parentes do médico seria alvo de destruição, tanto psicológica quanto física.

O autor se revela um mestre do suspense ao levar o leitor a montar um tenebroso quebra-cabeças psicológico, onde o protagonista deve usar de seus conhecimentos de psicanálise para tentar descobrir quem o está ameaçando. Assim, ele entra em uma perigosa investigação para desencavar de seu passado o motivo que levou este psicótico a odiá-lo e desejar a sua morte. Em meio ao caos de muita tensão e acontecimentos aterradores, o personagem principal é conduzido a um verdadeiro inferno psicossomático, interagindo com personagens marcantes em sua profundidade emocional.

É fascinante o fato de uma trama tão complexa, envolvendo inúmeros personagens e lugares, do passado e do presente, ser tão bem amarrada e extremamente verossímil. O elemento surpresa está presente a todo instante, fazendo o leitor se surpreender a cada página, gerando uma ansiedade adrenalínica acerca da misteriosa identidade do vilão, principalmente depois da primeira metade, onde a história sofre uma reviravolta alucinante.

Além de ser emocionante do ponto de vista ficcional, o livro passa ainda uma interessante mensagem sobre as consequências catastróficas que nosso estilo de vida egocêntrico podem gerar no futuro.

Leitura obrigatória!

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

As Crônicas de Nárnia

Título Original: The Chronicles of Narnia
Autor: C. S. Lewis

"Oh, Filhos de Adão, com que esperteza vocês se defendem daquilo que lhes pode fazer o bem!" Aslan

Um grande clássico da literatura fantástica infantil, As Crônicas de Nárnia são uma série de livros sobre um universo paralelo, para onde crianças de nosso mundo viajam, vivendo excitantes e divertidas aventuras com anões, fadas, faunos, animais falantes, feiticeiras, gigantes e dragões. Porém, a obra não se resume somente a isto. Em meio a todo este vasto universo mitológico, C. S. Lewis consegue com genialidade permear as histórias com muita sabedoria, filosofia e princípios morais, sem parecer chato ou religioso.



São sete pequenos livros:
1 - O Sobrinho do Mago
2 - O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa
3 - O Cavalo e seu Menino

4 - Príncipe Caspian
5 - A Viagem do Peregrino da Alvorada
6 - A Cadeira de Prata
7 - A Última Batalha

No primeiro livro (O Sobrinho do Mago), Lewis conta a origem de um mundo mágico, com um país chamado Nárnia, criado pela canção de um Leão falante e sábio chamado Aslan. Sua canção gera vida e faz surgir milhares de seres estranhos, como faunos, centauros, animais que falam, sereias, etc. Através de um anel mágico, um menino na Inglaterra consegue entrar neste mundo, causando problemas e vivendo perigosas aventuras junto com uma amiga e seu tio, um mago. É muito interessante conhecer as origens de determinados elementos e de personagens presentes nas histórias seguintes, como o poste misterioso no meio da floresta, a feiticeira branca e o armário mágico.

A partir do segundo livro em diante, o autor elabora diversas aventuras independentes, porém todas interligadas por personagens e situações comuns e de vital importância no conjunto total da obra. Todas estas tramas divertem bastante, com muita correria, perigos, guerras, magia, traição, romance e lições de coragem, amizade e fidelidade. Os diálogos entre os animais falantes são muito engraçados, mostrando um interessante "preconceito" dos animais para com os homens, devido às diferenças de costumes entre as raças. Este "preconceito", na verdade, é uma sutil crítica de Lewis para com aqueles que não compreendem a cultura ou o comportamento de pessoas que vivem em um contexto diferente do nosso.

Um alerta importante para os que pretendem se aventurar em Nárnia com estes livros é o fato de serem histórias bem infantis. Talvez isso incomode os leitores adultos e acostumados com uma literatura mais madura. Diferentemente dos livros de Tolkien, que se adaptam facilmente a todas as idades, As Crônicas de Nárnia são uma experiência maravilhosa para os pequenos, mas é provável que poucos adultos se empolguem com essa leitura. Como C. S. Lewis era um religioso protestante, a obra é permeada de mensagens cristãs subliminares, como esta, por exemplo:

"– Vejam só, companheiros: antes que o mundo limpo e novo que lhes dei tivesse sete horas de vida, a força do Mal já o invadiu; despertada e trazida até aqui por este Filho de Adão.(...)
– Mas não se deixem abater. O mal virá desse mal, mas temos ainda uma longa jornada, e cuidarei para que o pior caia em cima de mim. Por enquanto, providenciemos para que, por muitas centenas de anos, seja esta uma terra de júbilo em um mundo jubiloso. E, como a raça de Adão trouxe a ferida, que a raça de Adão trabalhe para saná-la."


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E você, já leu os livros? Conte sua experiência!

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

1984

Título Original: 1984
Autor: George Orwell  (1903 - 1950)
 
"Quem controla o passado controla o futuro; quem controla o presente controla o passado."

Talvez um dos livros mais importantes do século XX e muito mais do que uma ficção política futurista, 1984 é uma séria advertência contra toda e qualquer forma de sistema de manipulação de massas, seja de caráter político, religioso ou científico. Escrito em 1944, o que deveria ser apenas uma crítica ao sistema comunista russo da época, tornou-se uma obra-prima atemporal, que instiga o leitor a refletir acerca da sociedade em que vivemos. Manipulação do pensamento, guerras eternas, inimigos fictícios e o controle da informação são alguns dos assuntos tratados nesta impressionante história profética, que ilustra ludicamente fatos que assustadoramente tem acontecido nos últimos 60 anos da história da humanidade.

A história se passa em um futuro distópico, no ano de 1984, no país chamado Oceania, em que um governo totalitário controla todas as ações e pensamentos de seus cidadãos através de teletelas (televisores com câmeras e microfones) instaladas por todos os cantos. O misterioso líder deste governo, o Grande Irmão, é o "olho que tudo vê", e castiga de forma brutal todo aquele que manifestar qualquer pequeno sinal de desvio de conduta contra o seu Partido. Esses cidadãos, por sua vez, amam o Grande Irmão e o Partido, fanaticamente. Winston, um funcionário do governo que trabalha no Ministério da Verdade, cuja função é manipular as notícias e recriar a história conforme os interesses do Partido, resolve se rebelar contra o sistema com a ajuda de uma amiga, e descobre que terá que lutar contra algo muito mais poderoso do que poderia imaginar.

A data que o autor sugeriu para este futuro, em 1984, torna-se irrelevante para nós hoje e a trama em si é muito simples, apesar de possuir boas doses de suspense. Mas o melhor do livro é o cenário em que a história se passa e sua mensagem, extramamente atual, pode ser aplicada a toda e qualquer espécie de ideologia social, política, religiosa, filosófica ou científica. No livro, o Partido dominante governa baseado não pela força, mas na operação estratégica de "conversão" a uma forma de pensar dúbia, chamada duplipensamento. Segundo esta técnica de logro mental, as pessoas passam a acreditar em conceitos contraditórios ao mesmo tempo. Elas perdem a noção do certo e do errado, e passam a assumir como certo aquilo que o Partido diz ser certo. Este, por sua vez, constantemente adultera a história do país - excluindo e incluindo fatos em livros e jornais, criando e eliminando personagens, reais ou fictícios -, enquanto os cidadãos vivem uma espécie de amnésia oficial, acreditando e duvidando ao mesmo tempo.

Outro fator importante abordado no livro é a forma com que o Partido canaliza o ódio e revolta das pessoas para guerras sem fim e inimigos fictícios, distraindo as pessoas para que não se revoltem contra o Partido. O Partido estimula os cidadãos contra um determinado cidadão, Emmanuel Goldstein, que representa o grande inimigo da lei e da ordem. Não se sabe se ele realmente existe ou não. O que importa é gerar um frenesi de ódio contra ele e fazer com que as pessoas tenham um inimigo em quem colocar a culpa de todos os males.

A todo instante vemos governos e igrejas fazendo a mesma coisa em nosso mundo. Vietnamitas, Sadan Hussein e Osama Bin Laden são alguns exemplos de inimigos "criados" pelo governo norte-americano, com a finalidade de distrair a população, que por sua vez não busca o conhecimento verdadeiro dos fatos históricos, mas acreditam cegamente no que o Grande Irmão "Tio Sam" fala. Estude a fundo sobre Guerra do Vietnan, Guerra do Golfo e sobre Bin Laden e verá que os conceitos de "amigo" ou "inimigo" são relativos dependendo dos interesses de quem manda. Já no âmbito religioso, existem outras formas de se criar "inimigos". Por exemplo, muitos culpam o Diabo ou o Carma pelas desgraças de sua vida, quando na verdade o que falta é coragem para assumir seus erros ou enfrentar os desafios e provações concernentes a todo ser humano.

Em suma, 1984 é leitura obrigatória a todo aquele que não deseja ser mera massa de manobra, para aqueles que buscam ser pessoas autênticas, que anseiam por expressar sua opinião ainda que ela seja diferente da opinião de todos, para aqueles que não se contentam com verdades absolutas sem uma averiguação mais profunda e para aqueles que odeiam a Mídia repleta de parcialidade e controlada por interesses políticos. Este livro é para quem deseja agir de forma não convencional e ir na contra-mão do sistema, visando a verdadeira liberdade de espírito.

Se você ainda não leu o livro, aconselho a colocá-lo no topo de sua lista de leitura. É de fato uma obra muito importante, que merece uma atenção especial.
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O que você pensa sobre a manipulação de massas pela Mídia, políticos e igrejas? Acredita que isso acontece em nosso país (Brasil)? Comente sobre estes assuntos abaixo!

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