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segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

O Mestre do Amor

Título Original: O Mestre do Amor
Autor: Augusto Cury

"A maior vingança contra um inimigo é perdoá-lo" Augusto Cury

Neste livreto sobre os ensinos de amor de Jesus, Augusto Cury leva o leitor a uma deliciosa viagem pelos misteriosos caminhos dos sentimentos deste personagem mitológico em suas últimas horas de vida na cruz. A análise racional e psiquiátrica do autor revela como Jesus superou todos os ataques à sua saúde mental e espiritual, perdoou seus ofensores, levou seus ouvintes à plena liberdade e foi capaz de moldar o caráter de homens rudes, segundo os contos dos Evangelhos - fictícios, porém cheios de bons exemplos.

Falar sobre Jesus Cristo sem o viés religioso da fé é algo que poucos cientistas se atrevem a fazer. Augusto Cury - médico, psiquiatra e psicoterapeuta - se lança neste terreno inexplorado e consegue, com admirável habilidade, analisar a mente do Mito Jesus sem as bases absolutistas que as religiões impõem para passar suas idéias. Um dos poucos racionalistas famosos da atualidade que ainda acredita em Deus - total contradição, aff - Cury destaca nesta obra os detalhes das ações, emoções e pensamentos de Jesus. Ele mostra que, mesmo tendo todos os motivos para ser uma pessoa mal-resolvida emocionalmente, ele venceu, através do amor, todos os potenciais traumas que fariam dele mais um pobre cidadão oprimido, como muitos em seu tempo.

Segundo Cury - que é um especialista em fenômenos neurológicos - qualquer pessoa submetida a tortura e sofrimento perde sua razão e passa a agir agressivamente como um animal. Relatos históricos acerca de criminosos crucificados mostram que estes ficavam se contorcendo freneticamente na cruz como loucos, ansiando sair daquele sofrimento. O que Jesus fala no ápice de sua dor - "Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem" - revela que o perdão não deve ter limites. Além disso, chegou a rejeitar um anestésico que os romanos davam para aliviar a dor dos condenados. Segundo o autor, Jesus "não queria perder a consciência em nenhum momento do seu martírio. Queria viver as aflições humanas até o final.".

Alguns acreditam que a melhor forma de educar e organizar um grupo social é através do controle ditatorial. A história nos mostra que este método não funciona, mas muitos insistem em impor suas regras rígidas em seus lares ou sobre seus subordinados no trabalho, achando que estão cumprindo com seu dever. Os fariseus também acreditavam que estavam servindo a Deus crucificando Jesus. Este porém, em contraste com o legalismo religioso baseado em Moisés, ensinava as pessoas a serem livres, atuando no funcionamento da mente. Ele sabia que "o amor é a maior fonte de motivação e de transformação interior". Jesus constantemente instigava seus ouvintes à dúvida, respondendo com perguntas, levando-os a questionar e refletir. Frases como "Quem não tem pecado, atire a primeira pedra" (Jo 8:7) ou "De quem é esta efígie e esta inscrição?" (Mt 22:20) mostram que Jesus não ensinava baseado em leis absolutistas, mas sim, na liberdade do pensamento, baseado no amor.

E por fim, Jesus investiu seu tempo em "trabalhar pessoas difíceis, para mostrar que vale a pena investir no ser humano". Muitas vezes não compreendemos porque temos que lidar com pessoas tão difíceis em nosso lar, trabalho ou escola. Jesus pegou escórias da sociedade e os transformou em mestres na arte de amar. Segundo o autor, "[Jesus] conduziu-os a despir suas máscaras sociais e a descobrir que a felicidade não está nos aplausos da multidão nem no exercício do poder, mas nas avenidas da emoção e nas vielas do espírito".

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E você, o que pensa sobre as lições de amor deste personagem mitológico do cristianismo? Deixe nos comentários sua opinião...

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

O morro dos ventos uivantes

Título Original: Wuthering Heights
Autor: Emily Brontë (1918 - 1948)

Nesta obra prima da literatura inglesa do século XIX temos um complexo, indigesto e conturbado romance. Forte e violento, macabro e doentio. É difícil até mesmo escrever uma resenha sobre ele, pois seu gênero varia de romance a terror psicológico, de drama melancólico a suspense sobrenatural. Um livro peculiar, que, ou o leitor ama, ou odeia. Único livro escrito por Emily Brontë - que morrera de tuberculose aos trinta anos -, foi mal compreendido na época de seu lançamento, mas reverenciado, anos depois, como uma das melhores novelas já feitas na história da literatura.

Toda a história se passa no interior da Inglaterra, por volta do ano 1800, em duas granjas vizinhas isoladas da cidade. Seus moradores - as famílias Earnshaw e Linton - viviam com certa tranquilidade até que um dia, o Sr. Earnshaw viaja para cidade e traz consigo uma criança estranha que mendigava pelas ruas. O menino, chamado Heathcliff, tinha origem e sobrenome desconhecidos. Sua adaptação a esta nova família acaba sendo muito conturbada e, conforme ele crescia, a vida tranquila nestas fazendas nunca mais seria a mesma.

Para as meninas que gostam de romances melosos, esse livro não é para vocês. A autora elabora com maestria uma linha do tempo, contando a história de duas gerações de duas famílias que são confrontadas com seu próprio orgulho, egoísmo e preconceito e saem de um pseudo-paraíso para o inferno ao longo de suas vidas. Esta é uma história de ódio, vingança e sofrimento. Chega a ser depressivo em alguns momentos e, após concluir a leitura, o leitor precisa de um tempo - dias ou semanas - para meditar na mensagem que ela passa sobre egocentrismo e suas consequências.

Emily Brontë foi soberba na escrita, que, apesar de densa, não chega a cansar e prende o leitor pela descrição arrebatadora de ambientes e intensidade dos personagens. Um deles destaca-se pela sua chocante malignidade. Este sujeito gera nojo e repulsa no leitor durante quase todo o livro. Ele é a personificação da pura maldade e perversidade. Suas atitudes vingativas e o terror psicológico imposto em suas vítimas são tão diabólicos que fazem com que Darth Vader ou Hannibal Lecter pareçam anjinhos perto dele. Para escritores que estejam em busca de referências criativas para construir um autêntico vilão em suas histórias, de dar calafrios na espinha, recomendo fortemente este livro.

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E você, já leu este livro? Gostaria de saber sua opinião. Você odiou ou amou? Demorou muito para digerir, ou vomitou? Deixe nos comentários o seu parecer!

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

O livro de Ouro da Mitologia

Título Original: The Age of Fable
Autor: Thomas Bulfinch  (1796 - 1867)

Nesta excelente compilação das mitologias antigas, Thomas Bulfinch desmistifica para o grande público aquilo que por muito tempo ficou obscurecido em difíceis poesias nas bibliotecas de universidades. A obra aborda, em sua maior parte, os contos dos deuses, semi-deuses e heróis gregos, de onde a cultura ocidental moderna herdou sua essência. Dentre as inúmeras histórias fantásticas, destacam-se lendas que expressam a personalidade humana, outras que explicam a origem dos elementos da natureza e também as grandes jornadas de Heróis que influenciaram artistas desde a antiguidade até hoje. Ao final, o autor conta ainda as principais histórias das mitologias oriental e nórdica, além de tentar explicar estas fábulas sob vários pontos de vista, inclusive o bíblico.

A cultura ocidental moderna tem como fundamento duas vertentes de pensamento que tem moldado a vida de milhões de pessoas ao longo dos últimos dois mil anos. A primeira delas é a religiosa e é constituída principalmente pelo zoroastrismo*, judaísmo, cristianismo e islamismo. A segunda vertente é a humanista e tem sua essência nas mitologias grega, romana, celta e germânica. A revolução da psicologia, o Iluminismo e a Renascença pós Idade Média buscou explicar o comportamento humano analisando as curiosas e incríveis histórias mitológicas da antiguidade.

Cupido
Em "O livro de Ouro da Mitologia" é possível compreender que a mitologia grega tem uma grande importância na elaboração dos principais conceitos da psicologia. Os deuses gregos são imorais e egoístas (em contraste com o Deus judaico-cristão que é moralmente perfeito), revelando traços comuns da natureza humana. Por isso seu estudo se faz importante para uma melhor compreensão de nós mesmos. Por exemplo, o deus Eros (Cupido) era uma criança e não queria crescer. Muitos homens hoje crescem no corpo mas se recusam a crescer na mente, sendo infantis e egoístas, vivendo numa espécie de "Síndrome de Peter Pan". Eros, então, começa a crescer quando ganha um irmão e volta a ser criança quando o mesmo o deixa. Isto representa que só amadurecemos na medida em que desenvolvemos nossos relacionamentos.

Os gregos costumavam contar a origem dos elementos da natureza a partir de lendas interessantes. Muitos rios, montanhas, ventos, plantas, flores e animais surgiram, segundo eles, a partir de heróis que morreram e ressucitaram sob estas formas. Por exemplo, Eco era uma mulher que falava demais e sempre queria dar a palavra final em discussões. Um dia ela foi amaldiçoada por Hera (esposa de Zeus), que a confinou em rochedos. Com essa história, os gregos explicavam a origem do eco. Quando gritamos para algum rochedo ou caverna, segundo eles, Eco repete e dá a palavra final.

Odisseu e o Ciclope
Ademais, as histórias mais emocionantes da mitologia grega são, sem dúvida, as jornadas épicas dos grandes heróis humanos e semi-divinos, como Hércules, Odisseu, Aquiles, Enéias, Jasão, dentre outros. É impressionante a tamanha criatividade que bardos e poetas do passado tinham para contar histórias tão empolgantes, de dar inveja a Spielberg ou James Cameron. Destaca-se a história de Odisseu (ou Ulisses) - de onde vem o termo odisséia - que, após lutar como soldado e estrategista na violenta Guerra de Tróia,  passa por diversos perigos em sua volta para casa. Nesta jornada, ele luta contra gigantes de um olho só (Ciclopes), supera maldições, sobrevive a naufrágios, foge do encanto das sereias, luta contra monstros, vai e volta do inferno, escapa da ira de alguns deuses e é ajudado por outros. Cada detalhe da jornada é permeado de aventura, onde Odisseu utiliza de suas qualidades de estrategista para sobreviver, enquanto muitos de seus amigos morrem durante a jornada.

Por fim, Bulfinch encerra sua obra contando de forma resumida as principais histórias da mitologia oriental e nórdica, além de explicar as mitologias pagãs sob o ponto de vista bíblico, histórico, alegórico e científico. Segue um trecho curioso do livro, onde o autor compara alguns elementos da mitologia grega com a Bíblia e identifica semelhanças:

"De acordo com esta teoria (bíblica), todas as lendas mitológicas têm sua origem nas narrativas das Escrituras, embora os fatos tenham sido distorcidos e alterados. Assim, Deucalião é apenas um outro nome de Noé, Hércules de Sansão, Árion de Jonas etc. "Sir Walter Raleigh, em sua História do Mundo, diz: Jubal, Tubal e Tubal Caim são Mercúrio, Vulcano e Apolo, inventores do pastoreio, da fundição e da música. O Dragão que guarda os pomos de ouro era a serpente que enganou Eva. A torre de Nemrod [Babel] foi a tentativa dos Gigantes contra o Céu."

Concluindo, recomendo fortemente o livro para os que desejam descobrir as origens da cultura ocidental, compreender melhor a mente humana e se emocionar com histórias épicas que inspiram escritores e cineastas até hoje.

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O zoroastrismo é uma religião monoteísta fundada na antiga Pérsia pelo profeta Zaratustra. É considerada como a primeira manifestação de um monoteísmo ético. (...) algumas das suas concepções religiosas, como a crença no paraíso, na ressurreição, no juízo final e na vinda de um messias, viriam a influenciar o judaísmo, o cristianismo e o islamismo. Fonte Wikipedia - http://pt.wikipedia.org/wiki/Zoroastrismo

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

A Jornada do Herói

Com o intuito de melhor organizar as idéias acerca da Jornada do Herói, editei o post "A Jornada do Escritor" dividindo-o em dois, sendo que o original conterá apenas a resenha do livro e neste novo coloquei um resumo acerca dos arquétipos (padrões de personalidades) e das etapas da Jornada do Herói abordadas no livro.

Joseph Campbell definiu o  conceito de "Jornada do Herói"
Joseph Campbell definiu o
conceito de "Jornada do Herói"
Para situar os que nunca ouviram falar destes termos, arquétipos são padrões de personalidade descobertos pelo psicólogo Carl G. Jung e a Jornada do Herói é uma espécie de modelo de jornada encontrada nas histórias mitológicas de todas as culturas antigas e que se transformou num guia formidável para escritores e roteiristas da atualidade estruturarem suas narrativas.


Para entender melhor sobre estes assuntos, aconselho a ler os posts sobre os livros que são a fonte deste resumo:
"O Herói de Mil Faces", de Joseph Campbell;
"A Jornada do Escritor", de Christopher Vogler;

Arquétipos

Herói: é aquele que se sacrifica por um bem coletivo. É com ele que o espectador se identifica. Podem haver vários tipos de heróis com interesses distintos, como por exemplo o Anti-Herói, que se sacrifica não por bondade, mas por motivações próprias.

Mentor: é uma figura mais experiente que motiva e fornece dons ou ferramentas para o Herói durante sua Jornada.

Guardião de Limiar: Personagem ou situações que impedem a entrada do Herói na Jornada. Guardam o limite entre o cotidiano do Herói e sua aventura.

Arauto: este personagem anuncia para o Herói o chamado à aventura. Pode ser o Mentor, o Vilão ou  simplesmente um objeto como, por exemplo, uma carta.

Camaleão: é o personagem com personalidade dúbia, ou seja, nunca se sabe ao certo se ele está do lado do bem ou do mal. Por exemplo, o aliado que se revela inimigo no final ou o inimigo que salva o Herói em algum momento, revelando-se um aliado.

Sombra: Normalmente é o Vilão da história e deseja a destruição do Herói. É a personificação dos monstros internos de medos e traumas do subconsciente.

Pícaro: este personagem surge como um alívio cômico para equilibrar a seriedade da história. Serve também para derrubar o status quo do Herói e quebrar seu orgulho.


Estágios da Jornada do Herói


Estágio Um: Mundo Comum
    Cotidiano do Herói, sua zona de conforto.

Estágio Dois: Chamado à Aventura 

    Herói recebe um chamado a uma aventura inesperada.

Estágio Três: Recusa do Chamado

    Herói normalmente recusa ao chamado pois prefere ficar em sua zona de conforto.

Estágio Quatro: Encontro com o Mentor 

    Herói encontra um Mentor que o motiva e fornece dons para a aventura.

Estágio Cinco: Travessia do Primeiro Limiar 

    Herói enfrenta os guardiões entre seu mundo comum e o mundo da aventura.

Estágio Seis: Testes, Aliados, Inimigos

    Herói conhece o mundo especial, suas regras, amigos, inimigos e enfrenta diversos testes.

Estágio Sete: Aproximação da Caverna Oculta 
    Neste momento o herói se aproxima da grande provação

Estágio Oito: Provação 

    Na grande provação o herói chega no limite entre a vida e a morte na luta contra o Vilão, mas é salvo milagrosamente.

Estágio Nove: Recompensa (Apanhando a Espada)

    Por vencer a provação, Herói conquista uma recompensa.

Estágio Dez: Caminho de Volta

    Voltando para casa o herói se depara com uma ameaça muito maior. Aqui ele morre.

Estágio Onze: Ressurreição
    Como recompensa pelo seu sacrifício, o herói ressucita dos mortos e vence a grande ameaça final, tornando-se um ser superior.

Estágio Doze: Retorno com o Elixir
    O herói então volta para casa (mundo comum) ou fica no mundo especial, porém agora como uma nova pessoa, com novos conceitos e totalmente diferente do que era no início.

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quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

O médico e o monstro

Título Original: The Strange Case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde
Autor: Robert Louis Stevenson

Em um dos maiores clássicos da literatura inglesa, Robert Louis Stevenson explora o universo bipolar do homem interior de uma forma assustadora e fascinante. "O médico e o monstro" influenciou de tal forma o mundo que tornou-se referência essencial em filmes, peças, quadrinhos e outras diversas adaptações desde seu lançamento até hoje. O jargão inglês "Jekyll e Hyde", usado para rotular pessoas com dupla personalidade, nasceu desta obra, referindo-se ao personagem Jeckyll e o "monstro" Hyde.

A história se passa na Londres do século IXX, onde John Utterson, um advogado, investiga estranhos acontecimentos envolvendo um médico rico, Jeckyll, e um homem estranho e suspeito, Hyde, para quem o médico escrevera seu testamento. Quando descobre que Hyde é um assassino inescrupuloso, tenta fazer de tudo para alertar o médico do perigo que corre atribuindo a esta figura diabólica os seus bens em caso de morte. Porém, no decorrer de sua jornada, Utterson faz uma descoberta inacreditável.

O livro é pequeno, porém rico em suspense e cheio de significado. O autor utiliza uma linguagem simples e acessível sem deixar a narrativa vagar no superficial. Stevenson consegue gerar um clima de tensão assustador, visto que os personagens expressam sentimentos bem reais. A mensagem passada pela revelação final leva o leitor a uma reflexão profunda acerca do que o ser humano realmente possui dentro de si: a bondade e a maldade, o amor e o ódio, a gentileza e a arrogância. Todos esses sentimentos batalham entre si no interior de cada um e os vencedores constituirão o caráter e a personalidade do indivíduo.

A idéia do livro lembra muito um verso bíblico: "Porque não faço o bem que quero, mas o mal que não quero esse faço.". Quem já não sentiu a sensação de "possuir" um ser dentro de si, desejando executar atos malignos, enquanto o "outro ser" deseja fazer o que é certo?

Ainda neste contexto, recomendo o episódio "The Enemy Within" da série clássica Star Trek, em que o capitão Kirk é dividido em duas pessoas - devido a um problema na máquina de teletransporte -, cada um com um lado diferente de sua personalidade. O lado mau e selvagem comete os mais terríveis atos de crueldade, ameaçando a tripulação da Enterprise. Enquanto isso, o seu lado bom não consegue tomar decisões enérgicas para resolver os problemas. Enfim, é outra história fascinante e tem tudo a ver com o tema de "O médico e o monstro".

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O que você pensa sobre dupla personalidade? Você se considera bom, mau ou as duas coisas? Deixe seus comentários abaixo!

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Interpretação Psicológica do Dogma da Trindade

Título Original: Zur psychologie westlicher und ostlicher religion
Autor: Carl Gustav Jung

Neste tratado envolvendo psicologia e religião, Carl G. Jung organiza um conjunto de idéias interessantes sobre como e porque a Trindade é um elemento essencial na religião cristã, segundo padrões psicológicos. Inicialmente o autor discorre sobre as diversas aparições da figura trinitária, porém única, em diversas religiões da antiguidade. Depois, ele tenta responder porque o mito do deus cristão é trino e não uno ou duo. Por fim, Jung explica sobre a polêmica questão acerca de uma possível quaternidade, que a Igreja supostamente teria rejeitado no decorrer de sua história.

Em épocas remotas da história, antes de Abraão - antes de 2000 A.C. -, é possível encontrar diversas formas de adoração trinitária nas culturas primitivas. Por exemplo, na Babilônia antiga adorava-se Anu, Bel e Ea como um deus em três pessoas. Ea, a personificação do saber, era pai de Bel (o "senhor"), que personifica a atividade prática. Da mesma forma, no Egito antigo adorava-se o deus-rei-Ka, onde deus é o "pai" e o "filho", e havia um terceiro elemento chamado Ka-mutef, a força procriadora do deus. Além destes, existem inúmeros outros exemplos de divindades com as mesmas características nas culturas antigas, revelando uma manifestação de arquétipos do inconsciente coletivo (sobre arquétipos e inconsciente coletivo, leia o artigo "A Jornada do Escritor").

Mas porque este arquétipo é representado por três pessoas e não uma ou duas? Para explicar isto, o autor lança mão de conceitos filosóficos mostrando que, segundo os gregos, o número "um" ainda não é considerado um número sem o "dois", pois sem o "outro" não há contagem. Assim, Deus não poderia ser  uma pessoa somente. Já o número dois é a representação do oposto, do outro, do contraste entre o bom e o mal. O segundo dia da criação foi o único em que o autor de Gênesis não disse "e viu Deus que era bom"  (nem Deus gostava da segunda-feira, porque será?). Portanto, também não seria conveniente para uma representação divina um Deus que fosse "duo". A tensão entre o "um" e o "dois" leva a uma espécie de evolução, o "três". A eterna indeterminação do binário se resolve com um terceiro elemento. Na matemática, somente com três pontos é possível se formar um polígono, ou seja, uma figura com uma área significativa, enquanto que com dois forma-se somente uma reta. "O cordão de três dobras não se quebra tão depressa." (Ec. 4:12). É no número três que aparece pela primeira vez um começo, um meio e um fim.

Porém, existe uma complicada questão acerca de uma suposta quaternidade. Enquanto o número três representa a perfeição, o verdadeiro início das coisas que o "um" ou o "dois" não seriam capazes de ser, o quatro representa completude final. Segundo Jung, "a tríade é um esquema ordenador artificial, e não natural". Por exemplo, há quatro pontos cardeais. Quatro estações do ano. "O ideal de perfeição é o redondo, o círculo, mas sua divisão natural e mínima é a quaternidade". Onde estaria então o quarto elemento?

Das estações do ano, três representam a vida (verão, outono, primavera) e uma a morte (inverno). Os sonhos relatados por pacientes em consultórios de psicanálise revelam muitas vezes um padrão onde há três entidades iguais e uma diferente. Por exemplo: três homens e uma mulher sentados a uma mesa, três homens e um cachorro, um caçador e três cahorros, etc. Dos quatro evangelhos, três figuram Jesus como animal e o outro como Homem (Lucas). Ainda, três deles são sinópticos enquanto que o de João é totalmente diferente. O quarto elemento é o diferente, é o oposto. Deus precisou, na eternidade, antes mesmo dos anjos e de Lúcifer, criar o Mal, para que através deste Ele pudesse demonstrar a Sua Glória, segundo a mitologia cristã. Assim, o quarto elemento representa o Oposto de Deus, a Maldade, o Pecado. Ele obviamente não faz parte da Trindade divina, mas completa o ciclo para que a Santíssima Trindade possa ter sentido de existir.

Todos estes assuntos são demasiadamente difíceis de analisar, e de forma nenhuma existe a pretensão aqui de se chegar a conclusões exatas. O que Carl G. Jung tenta fazer em seu livro é apenas explorar evidências através de exaustivas pesquisas teológicas, filosóficas, históricas, mitológicas e psicanalíticas. Sua conclusão acerca do assunto carrega extrema humildade e flexibilidade:

"Assim pois não posso presumir que uma investigação do aspecto psicológico tenha esclarecido e resolvido definitivamente o problema dos conteúdos arquetípicos. Na melhor das hipóteses, o que fiz talvez não passe de uma tentativa mais ou menos bem ou mal sucedida de abrir um caminho que permita compreender um dos lados acessíveis do problema."

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E você, o que acha disso? Na sua opinião, porque o mito do deus cristão é Trino e não uno ou duo? Com relação ao quarto elemento, Satanás, o que tem a dizer? Deixe seu comentário abaixo!

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

A Jornada do Escritor


Título original: The Writer's Journey
Autor: Christopher Vogler


Talvez uma das obras mais importantes já feitas sobre estrutura literária, "A Jornada do Escritor" explica os passos essenciais para que escritores ou roteiristas - leigos ou veteranos - possam escrever histórias com maestria, cuja mensagem se identifique com a alma de seu público. Para isto, Vogler baseia-se no legado grandioso do mitólogo Joseph Campbell, principalmente no livro "O herói de mil faces", bem como nas obras de psicologia de Carl G. Jung sobre arquétipos e inconsciente coletivo.

O livro "O herói de mil faces" de Joseph Campbell é uma maravilhosa viagem ao mundo dos contos de heróis de todas as eras, culturas e religiões, mostrando as inacreditáveis semelhanças entre eles. Com isso, Campbell conseguiu traçar alguns padrões nas histórias dos heróis antigos e identificou estes mesmos padrões na história de vida de todo ser humano, de todas as culturas. A estes padrões ele chamou de "Jornada do Herói". Christopher Vogler explora esta "Jornada" e as traduz para uma linguagem atual, fácil e divertida, contrastando com a linguagem de Campbell, que é mais densa e talvez canse alguns.

Além desta base mitológica, Vogler evoca conceitos da psicologia analítica de Carl G. Jung acerca de arquétipos e incosciente coletivo. Arquétipos podem ser definidos por "padrões de personalidade que são uma herança compartilhada por toda a raça humana". Em outras palavras, são tipos de personalidades comuns nos contos mitológicos antigos, como o Herói, Vilão, Arauto, Mentor, etc. Cada um possui uma função decisiva na história, fundamental para gerar conflitos e reviravoltas. O incosciente coletivo se entende como o lugar na mente humana de onde brotam esses arquétipos, que, segundo o autor, "são impressionantemente constantes através dos tempos e das mais variadas culturas, nos sonhos e nas personalidades dos indivíduos, assim como na imaginação mítica do mundo inteiro".

Como o título sugere, o livro parece ser voltado totalmente para escritores, tanto profissionais como aspirantes. De fato, para quem sonha em escrever livros ou roteiros, a leitura desta obra é obrigatória. Vogler não ensina uma técnica, mas mostra como as etapas da Jornada do Herói podem ser perfeitamente utilizadas para se construir e amarrar bem uma história. Utilizando-se de exemplos variados do cinema e literatura, ele esclarece que estes estágios não são fórmulas ou clichês, mas sim ferramentas que devem ser manipuladas e estruturadas - ou até desconstruídas - com muita criatividade. O fator determinante para uma boa história está justamente na inovação com que se brinca com estes arquétipos e estágios.

Porém, o livro não serve somente para escritores. Estudar a Jornada do Herói na linguagem direta e atual de Vogler é uma viagem maravilhosa para qualquer um que ama viver a vida intensamente. É muito interessante identificar os tipos de personalidade que nos cercam e as etapas pelas quais passamos no nosso dia a dia e saber que estes elementos estão presentes em filmes, romances, contos e na vida real.

Para conhecer em detalhes quais são os arquétipos e as etapas da Jornada, leia o artigo  "A Jornada do Herói".
Aconselho ler também a apostila do Eduardo Sphor sobre estrutura literária, baseado neste livro:

http://filosofianerd.com.br/pdf/estrutura_literaria_apostila.pdf

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E você, o que acha sobre isso? Acredita no inconsciente coletivo? Acredita que todos os heróis passam por etapas semelhantes? Você acha que a Jornada do Herói pode se tornar um clichê no cinema ou literatura?
Deixe seus comentários abaixo!

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

A Batalha do Apocalipse


Em "A Batalha do apocalipse", o escritor brasileiro Eduardo Spohr apresenta seu universo fantástico angelical criando uma mitologia própria, baseado  princpalmente na mitologia judaico-cristã. O autor constrói com maestria uma aventura épica de dimensões gigantescas, superando expectativas, já que este é seu primeiro livro. A obra é uma fantasia que explora os misteriosos sentimentos e ações dos servidores alados do Deus Yahweh e suas consequências no mundo físico, desde a "queda dos anjos até o crepúsculo do mundo", como sugere o subtítulo.

Neste universo imaginário, o Soberano Deus Yahweh criara os mundos, espirituais e físicos, em seis dias, sendo cada dia representado por uma era de bilhões de anos. No sétimo dia Deus descansa e deixa a cargo dos anjos o governo do mundo, para só acordar novamente no final dos tempos, no Apocalipse. A trama narra a trajetória do anjo renegado Ablon, expulso do céu por discordar das decisões tirânicas do arcanjo Miguel, poderoso líder dos anjos. Em sua forma humana, Ablon atravessa os séculos da história do mundo, ora no plano físico, ora no espiritual, se aventurando para desvendar uma complexa intriga envolvendo os arcanjos Miguel e Gabriel, Lúcifer e seus demônios, anjos renegados, homens e o fim do mundo.

É bom frisar que o livro é uma fantasia, não uma tentativa de se pregar algum tipo de doutrina religiosa. É importante ter isto em mente antes de começar a leitura, pois a mitologia criada por Sphor contém elementos de diversas religiões, que servem como pano de fundo para uma aventura bem interessante. Os religiosos mais radicais talvez se sintam incomodados com alguns trechos da obra, como aconteceu na Itália, onde a Igreja Católica proibiu a publicação do livro, por conter "heresias".

Com uma trama bem fundamentada sobre os princípios universais da Jornada do Herói, com todas as suas etapas e seus arquétipos muito bem construídos, temos aqui uma obra peculiar da literatura nacional moderna. Apesar da estrutura mítica conhecida e identificável, a obra não possui clichês e contém muitos elementos surpresa. Eduardo Sphor impressiona com sua escrita dinâmica e cinematográfica, que em momento nenhum deixa o leitor cansado durante as 560 páginas de puro entretenimento. As descrições de anjos, demônios, do inferno e de batalhas espirituais são densas e levam o leitor a visualizar estes mundos de forma bem real. Os fatos históricos pelos quais os protagonistas passam, como as origens do misterioso rei Ninrod, da Torre de Babel e a queda de Constantinopla, são experiências fascinantes.

Infelizmente, ainda existe muito preconceito no Brasil para com autores nacionais de fantasia. Os brasileiros, em sua maioria, não acreditam no potencial de seus conterrâneos para determinados gêneros. Porém, Eduardo Spohr surge como um dos "pontas de lança" da literatura fantástica nacional da atualidade para mostrar que escritor brasileiro também sabe contar boas histórias fora do convencional. Começando as vendas de forma independente e posteriormente sendo publicado pela editora Record, "A Batalha do Apocalipse" chegara a entrar na lista dos 10 mais vendidos no país em 2010. Hoje o livro já foi lançado em diversos países, inclusive Holanda, Alemanha e Portugal.

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Explorando o mundo do Novo Testamento


"Queremos realmente depender de uma fé que não suporta qualquer contestação? Não é melhor descobrir os pontos fracos na edificação de uma casa antes de a comprarmos? Se possível, poderemos consertá-los, do contrário não compraremos a casa. Sócrates afirmou que a vida que não se deixa examinar não deve ser vivida. A fé que não é posta à prova, merece ser vivida?" Albert A. Bell Jr.


Título Original: Exploring the New Testament World
Autor: Albert A. Bell Jr.


Para muitas pessoas a Bíblia é um livro que contém a suprema revelação divina em cada letra e não deve ser contestada. Porém, não somos robôs ou papagaios para repetir fórmulas religiosas sem entender "porque" ou "como" os fatos históricos geradores da fé cristã de fato ocorreram.

Em Explorando o mundo do Novo Testamento, o historiador e doutor Albert Bell Jr. faz uma pesquisa exaustiva na história do mundo greco-romano do primeiro século, traduzindo para o entendimento moderno como viviam as pessoas daquele tempo nos mínimos detalhes. Sua análise vai desde uma visão geral da política, legislação e cultura do Império Romano, até os pormenores costumes morais e sociais daquele povo, passando pelas infindáveis diferenças e discussões filosófico-religiosas herdadas do Império Grego. E principalmente, como os judeus, o Jesus histórico (se é que existiu) e os primeiros cristãos viviam em meio a toda essa diversidade cultural.

O autor mostra-se muito gabaritado para trazer à luz muitas questões intrigantes para os que estudam e contestam a Bíblia, com excelentes fundamentos históricos. Contestar a Bíblia nem sempre é sinônimo de falta de fé, mas pode ser uma demonstração de seriedade na busca da verdade. Enquanto que  a aceitação cega dos fatos bíblicos pode constituir-se displicência e preguiça, e não alta piedade. Conhecer a fundo a história, geografia, costumes e cultura dos tempos bíblicos é fundamental para um entendimento correto do que está ali escrito.

Dentre os muitos assuntos e curiosidades mostradas no livro, fiz abaixo um resumo de alguns temas interessantes descritos na obra. Confira:

Influência grega na cultura judaico-cristã

Os judeus, depois de voltarem da diáspora babilônica (iniciada em 586 a.C.), trouxeram para Isreal muitos gregos, juntamente com sua cultura e filosofia. Estes se instalaram principalmente na Galileia, onde Jesus cresceu, segundo os Evangelhos. Por isso, muitos judeus de outras regiões desprezavam a Jesus, pois consideravam os galileus um povo misturado e impuro. Mateus descreve a região como "Galileia dos gentios" (Mt. 4:15).

Platão
Certamente o Jesus histórico (se existiu) cresceu em contato com estes estrangeiros e recebeu influência da filosofia grega, bem como Paulo, anos depois. Por exemplo, Sócrates (469-399 a.C.) e Platão (427-347 a.C.) acreditavam nos conceitos de imortalidade da alma e no monoteísmo. Epicuro (341-270 a.C.) pregava o desapego aos bens materiais, declarando que "amar o dinheiro ganho de forma injusta é errado, e amar o dinheiro ganho honestamente é vergonhoso" (conferir I Tm 6:10). Os estóicos  iniciaram o conceito de predestinação (conferir Rm 11) e diziam também que "tudo no universo coopera para um bem comum" (conferir Rm 8:28).

Prática Penal Romana

A leis romanas não exerciam a detenção como punição, mas somente durante o período em que o réu aguardava o julgamento. Delitos menores resultavam em multas ou açoites e para delitos maiores o condenado era levado ao exílio ou a trabalhar em minas e pedreiras. Vários tipos de crimes, desde calúnia ao assassinato, levavam o criminoso à pena de morte.

Cidadãos romanos tinham vários benefícios penais, dentre eles o de não receber punição física de nenhuma espécie antes de ser julgado. Paulo reclama com os carcereiros quando foi preso: "Açoitaram-nos publicamente e, sem sermos condenados, sendo homens romanos(...)" (At. 16:37). As autoridades ao ouvirem isso, ficaram com muito medo, pois tinham violado a lei romana. Mais tarde, em outra situação de prisão, enquanto Paulo aguardava julgamento (At. 28:16), ele não ficou numa cela solitária acorrentado, como muitos que gostam de "aumentar" os sofrimentos do apóstolo acreditam. Ele ficava em uma prisão domiciliar, vivendo normalmente sob vigilância, pregando o evangelho e recebendo visitas.


Cristianismo e os cultos mistérios

Entre os cultos religiosos greco-romanos do primeiro século estão os cultos secretos, repletos de rituais obscuros onde somente os iniciados podiam participar. O culto ao deus Mitra, por exemplo, consistia em reuniões fechadas a homens, normalmente em cavernas, onde o iniciante, convidado pelos demais, passava por um ritual de iniciação em que era banhado com sangue de touro e participava de uma refeição comunitária.

Imagem de Mitra
degolando um touro
Muitos dos participantes destes cultos foram atraídos pelo cristianismo, pois os ritos cristãos tinham semelhanças com os ritos a Mitra. O batismo cristão seria uma "iniciação" e as verdades reveladas do evangelho eram "mistérios", compreendidos somente pelos iniciados. O partir do pão também era uma prática comum nas reuniões em ambas as religiões. "O nascimento de Cristo é anunciado por uma estrela assim como o de Mitra. Ambos são nascidos de uma Virgem Imaculada que toma o nome de Mãe de Deus. As igrejas antigas possuem criptas subterrâneas que evocam os templos mitraícos. A fraternidade e o espírito democrático das primeiras comunidades cristãs se assemelham muito ao mitraísmo" (extraído de http://www.freemasons-freemasonry.com/19carvalho.html). Mitra nasceu no solstício de inverno, dia 25 de dezembro, data esta que, mais tarde, foi transformada no Natal cristão.

Templo mitraico

Não se sabe exatamente o quanto o mitraísmo influenciou os primeiros cristãos e o quanto os primeiros cristãos se aproveitaram destas semelhanças para aumentar a aceitabilidade do evangelho pelos pagãos. Paulo, por exemplo, utilizou uma linguagem e alegorias comuns aos praticantes do mitraísmo, como o termo grego misterion, usado 20 vezes por ele na Bíblia, para se referir aos "mistérios de Cristo" (p. ex. I Co 15:51). Porém, a origem do termo, na época, remetia diretamente a estes cultos secretos pagãos.


Origem do Batismo

Antes de Cristo, muitos gentios (não-judeus) simpatizavam com a fé judaica e se convertiam a esta religião. Para tal, as mulheres gentias deveriam passar por um banho inicial chamado miqva'ot que pode ter dado origem ao ritual cristão do batismo. Os homens, por sua vez, precisavam se circuncidar, o que gerava uma certa repulsa. O cristianismo, mais tarde, tornou-se uma opção mais favorável para que estes gentios pudessem adorar ao Deus judaico sem passar pela cirurgia (que não tinha anestesia!).


Desenho de peixe como símbolo cristão

Símbolo do peixe no marco
 das portas dos cirstãos
No tempo em que o Império Romano começou a perseguir os cristãos com mais violência (época de Calígula e Nero), o desenho de um peixe era frequentemente usado como um código secreto, no marco da porta, para indicar que naquela casa haviam cristãos. No grego, a palavra peixe era pronunciada como ictus , sendo soletrada com as letras jota, chi, teta, ipsilon e sigma, que eram usadas como acróstico para Jesus Cristos Teo Uios Soter (Jesus Cristo, Filho de Deus, Salvador).

Considerações finais

Analisando as questões e curiosidades citadas, conclui-se que um estudo aprofundado acerca da história e cultura do primeiro século é fundamental para entender o que aconteceu realmente naquela época. O fato de a filosofia grega e o mitraísmo terem influenciado os primeiros cristãos revela que muito provavelmente o Cristianismo nada mais é do que uma colcha de retalhos de fontes diversas.

Qual a sua opinião sobre esses assuntos? O que você pensa sobre os fatos históricos que originaram o Cristianismo? Deixe seu comentário abaixo!

domingo, 5 de agosto de 2012

Deuses americanos

Título original: American Gods
Autor: Neil Gaiman


"— Assim, como todos vocês tiveram oportunidade de descobrir sozinhos, existem novos deuses crescendo nos Estados Unidos, apoiando-se em laços cada vez maiores de crenças: deuses de cartão de crédito e de autoestrada, de internet e de telefone, de rádio, de hospital e de televisão, deuses de plástico, de bipe e de néon. Deuses orgulhosos, gordos e tolos, inchados por sua própria novidade e por sua própria importância. Eles sabem da nossa existência e tem medo de nós, e nos odeiam — disse Odin."
Extraído de Deuses americanos




Em Deuses americanos, Neil Gaiman traz para os dias atuais todas as mitologias e histórias religiosas antigas, de diversos povos, de diversas épocas diferentes, unidas em uma trama complexa, surreal, introspectiva e alucinógena. O universo mitológico clássico é confrontado com a moderna filosofia de vida norte-americana, que reverencia novas formas de satisfação do ego, como o dinheiro e a mídia.

Sua narrativa é sem pressa, até lenta demais no início, apresentando situações aparentemente desnecessárias, mas que no final do livro são explicadas e se encaixam perfeitamente com o todo da obra, sem deixar pontas soltas. O autor consegue magistralmente contar a história utilizando uma linguagem que é ao mesmo tempo moderna, lírica e poética, com gírias, frases de efeito sensacionais, situações fortes de sexo e violência e também explorando o surrealismo dos contos mitológicas. Não foi em vão que o livro recebeu o prêmio Hugo de melhor livro em 2002.

A história se passa nos Estados Unidos dos dias atuais e fala sobre um homem comum, que acaba de sair da prisão. Sem esperanças sobre o que fazer da vida, conhece incidentalmente uma série de pessoas com quem passa a viver uma vida repleta de acontecimentos estranhos e sobrenaturais.

A partir daí, a trama se desenvolve de forma épica, levando o leitor a um embate entre os deuses antigos, outrora grandes e poderosos, porém hoje fracos e esquecidos, contra os deuses novos, fortes e muito reverenciados, que são os "deuses de cartão de crédito e de autoestrada, de internet e de telefone, de rádio, de hospital e de televisão". Enfim, é uma viagem mitológica bizarra e uma sutil reflexão sobre as idolatrias que o mundo moderno - capitalista e consumista - tem praticado. A narrativa na atualidade é transpassada por flashbacks interessantes pela história da América e sua relação com toda esta complexidade espiritual na região.

Sobre sacrifícios

O livro trata da questão do sacrifício a deuses de diversas formas diferentes, desde sangue humano ou de animais, até de dinheiro e de tempo. Por exemplo, na trama, o deus nórdico Odin se fortalece com o sangue derramado nas guerras.
Além do sangue, o sacrifício de dinheiro alimenta o deus do consumismo nos dias atuais. Multidões vão diariamente aos templos do capitalismo (Shopping Centers, Cassinos, etc.), para oferecerem suas oferendas em troca de futilidades ou de ostentação. Estas ofertas, por sua vez, são encaminhadas pelos sacerdotes (funcionários e empresários) para os altares sagrados (Bancos e Bolsa de Valores).

Já o sacrifício de tempo alimenta o moderno deus chamado Mídia. Para explicar melhor isto, cito um trecho do livro, onde o protagonista, assistindo a televisão, é confrontado pela atriz de um seriado, que o chama de "dentro" da TV:

"— Quem é você? — perguntou Shadow.
— Tudo bem. Boa pergunta. Eu sou a caixa dos idiotas. Sou a TV. Eu sou o olho que vê tudo e sou o mundo do raio catódico. Eu sou o tubo dos tolos... o pequeno altar na frente do qual a família se reúne pra adorar.
— Você é a televisão? Ou é alguém na televisão?
— A TV é o altar. Eu sou aquilo pelo que as pessoas se sacrificam.
— Como se sacrificam? — perguntou Shadow.
— O tempo que têm — disse Lucy. — Às vezes, umas às outras. Ela levantou os dois indicadores e soprou a fumaça de revólveres imaginários das pontas dos dedos. Então piscou um olho, aquela piscadela famosa e adorada de I Love Lucy.
— Você é uma deusa?
Lucy deu um sorriso forçado e uma tragada de dama no cigarro.
— Posso dizer que sim."

E você, qual a sua opinião sobre este assunto? Já leu o livro? Gostou? Se não leu, o que acha sobre deuses, sacrifícios e deuses modernos, como o Consumismo e a Mídia? Comente abaixo e acrescente conhecimento útil a este artigo. Obrigado!

sábado, 7 de julho de 2012

A Ética protestante e o espírito do capitalismo



Título original: Die Protestantische Ethik Und Der Geits des Kapitalismus
Autor: Max Weber (1864-1920)


Considerado um dos livros mais importantes do século XX no quesito sociologia, A Ética protestante e o espírito do capitalismo revela de forma soberba como as influências religiosas são capazes de moldar sociedades e culturas de forma revolucionária. Mais especificamente, como alguns conceitos propagados pelo protestantismo no século XVI e XVII conseguiram transformar o comportamento do homem com relação ao trabalho, ao dinheiro, à família e as relações destes itens para com Deus.

Através de uma rica base histórica, Weber começa seu ensaio com um interessante questionamento. Se é fato que inúmeras façanhas científicas foram promovidas por diversos povos na antiguidade, principalmente  orientais, porque o desenvolvimento tecnológico moderno foi originado de países ocidentais? Foi na China antiga, por exemplo, que surgiram grandes invenções como o fósforo, papel, ferro fundido, bússola, pólvora, ponte suspensa, etc..., no entanto, foram os países ocidentais no século XVIII que revolucionaram a história da humanidade como nunca foi visto em dezenas de milhares de anos.


A resposta a esta questão, segundo o autor, está na mudança na forma como o homem se relacionava com o trabalho. O trabalho sempre foi visto, desde o início da humanidade, como um fardo a ser carregado com a finalidade de sobrevivência. Desde o homem caçador de dez mil anos atrás, até o artesão da Idade Média, o trabalho era apenas uma forma de subsistência. A igreja católica da Idade Média pregava que o homem devia ganhar com seu trabalho apenas o necessário para sua sobrevivência, e qualquer excesso de ganho devia ser dado para a Igreja. Muitas vezes, a mendicância e a pobreza eram reconhecidas como virtudes. Além disso, havia uma separação grande entre questões seculares (trabalho, família, dinheiro, negócios, diversão) e religiosas (Deus, igreja, boas obras).


No momento em que os pioneiros protestantes surgem na Alemanha, outra filosofia de vida é apresentada. Lutero, Calvino, Knox, e depois, John Wesley e Braklay anunciaram, dentre muitas doutrinas libertárias da tradição católica, a idéia de que o trabalho é uma vocação vinda de Deus. Ou seja, os militantes da reforma pregavam que não há separação entre o secular e religioso.

Os protestantes calvinistas, que acreditavam na doutrina da predestinação, justificavam este novo conceito dizendo que o trabalho faz parte do destino que Deus encarregou ao homem, devendo este se agarrar ao seu propósito com todas as forças. Já os arminianos, que acreditavam na doutrina do livre arbítrio, também conseguiam justificar a nova idéia afirmando que o trabalho era uma missão que Deus deu ao homem na Terra, com a finalidade de servir a humanidade, baseado no amor ao próximo. Assim, ambas as linhas protestantes, apesar de serem consideradas opostas entre si, estimulavam seus seguidores a trabalharem o máximo que puderem para agradar a Deus.


Weber resume como isto influenciou a origem do capitalismo:

"A ênfase da significação ascética de uma vocação fixa forneceu uma justificativa ética para a moderna divisão do trabalho em especialidades. De modo semelhante a interpretação providencial da obtenção de lucro justificou as atitudes dos homens de negócios."

É importante enfatizar que o livro aborda estes assuntos de forma muito mais aprofundada. O autor ressalta também que, obviamente, não foi apenas esta influência que gerou o capitalismo, mas sim um conjunto de fatores, dentre os quais a ética protestante se destaca. Com o passar do tempo, o capitalismo deixou completamente suas origens nobres de "dever para com a humanidade" e se transformou em um sistema imperialista, concentrador de renda e explorador de mão de obra barata. E estas características nada tem a ver com os princípios cristãos que valorizam o amor ao próximo. Acerca disto, em 1904 Weber faz uma previsão de como poderá ser o futuro da sociedade capitalista:

“especialistas sem espírito, sensualistas sem coração; nulidades que imaginam ter atingido um nível de civilização nunca antes alcançado."

Por fim, gostaria de indicar o link a seguir de um artigo mais detalhado sobre o livro, inclusive fazendo paralelos com a mentalidade das igrejas neopentecostais atuais, totalmente absorvidas pelo capitalismo consumista: http://oficinasociologica.blogspot.com.br/2012/01/etica-neopentecostal-e-espirito-do.html

E você, o que acha de tudo isso? Você realmente acredita que a ética protestante influenciou o início do capitalismo? E hoje, qual a relação do capitalismo com o cristianismo? Deixe nos comentários a sua opinião sobre o assunto.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

As crônicas de Artur




Título em inglês: Warlord Chronicles
Autor: Bernard Cornwell

Épico medieval grandioso, que mostra a lenda do "rei" Artur sobre uma perspectiva completamente diferente da que todos estão acostumados.
Dividida em três volumes (O Rei do inverno, O inimigo de Deus e Excalibur), a obra baseia-se em fatos reais da história para personificar um rei Artur bem realista e nada fantasioso. Realista em todos os sentidos: ambiente, história, política, costumes, religiões e, principalmente, na profundidade emocional dos personagens.
Sua narrativa é palpável, dinâmica e profunda. Suas descrições da Idade Média são sombrias, sujas, violentas e nojentas. O nível de detalhes mostrado, desde pulgas nas barbas dos guerreiros até o cheiro de fezes e urina nos aposentos de Merlin, fazem o leitor passear virtualmente por aqueles tempos no auge da Idade das Trevas.

Na história, Artur é filho bastardo do rei Uther, que governava a Bretanha por volta do ano 800 d.C.. Momentos antes de morrer, o rei dá a Artur a incumbência de proteger seu neto recém-nascido e legítimo herdeiro do trono, até que ele complete idade suficiente para governar o reino. Artur, então, deve proteger o futuro rei, bem como proteger a Bretanha da constante ameaça Anglo-saxã, que intenta invadir a região. Paralelamente a isso, Artur também luta para manter estável a união entre os diversos reinos da Bretanha, talvez a tarefa mais difícil. Mas o interessante é que Artur não é o personagem principal. O protagonista é Derfel, um jovem saxão criado por Merlin e que posteriormente torna-se um grande guerreiro de Artur.

Toda a narrativa passa-se nestes longos 20 anos de espera pelo crescimento do futuro rei e, enquanto isso, muitas intrigas, traições, alianças e batalhas acontecem, envolvendo reis e rainhas, príncipes e princesas, guerreiros e senhores da guerra, cristãos e pagãos. Toda a multidão de personagens e seus respectivos relacionamentos vão evoluindo e se aprofundando com o decorrer da trama. Artur, Guinevere, Lancelot, Galahad, Derfel, Merlin, Nimue, Morgana e muitos outros tornam-se tão reais como se o leitor estivesse vendo um filme. Surpresas e reviravoltas empolgam do início ao fim, sem nem um momento de lentidão chata, coisa difícil de acontecer numa obra de 3 volumes de cerca de 600 páginas cada uma.

As questões religiosas amarram muito bem as pontas da trama, colocando Merlin como um druida louco, sujo, nojento e inescrupuloso. Sua busca pela restauração do domínio dos deuses antigos sobre a Bretanha, juntamente com sua discípula e personagem chave na trama Nimue, leva o leitor a rituais pagãos macabros, de dar calafrios. Os ritos secretos a Mitra e Isís, impetrado por outros personagens, também mostram de forma impressionante o quão sinistro eram tais formas de adoração. O cristianismo, na época em expansão, é mostrado como uma religião de falsos e hipócritas bispos que utilizavam a crença para  enriquecer e conquistar poder.
Sem dúvida, é uma obra memorável. Ao final de cada volume, Cornwell descreve em anexo os fatos e lugares históricos nos quais os acontecimentos do livro estão relacionados. Isso só faz o leitor imergir mais fundo na trama, transformando o mito do Rei Artur em algo factível.

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