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segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

A Jornada do Herói

Com o intuito de melhor organizar as idéias acerca da Jornada do Herói, editei o post "A Jornada do Escritor" dividindo-o em dois, sendo que o original conterá apenas a resenha do livro e neste novo coloquei um resumo acerca dos arquétipos (padrões de personalidades) e das etapas da Jornada do Herói abordadas no livro.

Joseph Campbell definiu o  conceito de "Jornada do Herói"
Joseph Campbell definiu o
conceito de "Jornada do Herói"
Para situar os que nunca ouviram falar destes termos, arquétipos são padrões de personalidade descobertos pelo psicólogo Carl G. Jung e a Jornada do Herói é uma espécie de modelo de jornada encontrada nas histórias mitológicas de todas as culturas antigas e que se transformou num guia formidável para escritores e roteiristas da atualidade estruturarem suas narrativas.


Para entender melhor sobre estes assuntos, aconselho a ler os posts sobre os livros que são a fonte deste resumo:
"O Herói de Mil Faces", de Joseph Campbell;
"A Jornada do Escritor", de Christopher Vogler;

Arquétipos

Herói: é aquele que se sacrifica por um bem coletivo. É com ele que o espectador se identifica. Podem haver vários tipos de heróis com interesses distintos, como por exemplo o Anti-Herói, que se sacrifica não por bondade, mas por motivações próprias.

Mentor: é uma figura mais experiente que motiva e fornece dons ou ferramentas para o Herói durante sua Jornada.

Guardião de Limiar: Personagem ou situações que impedem a entrada do Herói na Jornada. Guardam o limite entre o cotidiano do Herói e sua aventura.

Arauto: este personagem anuncia para o Herói o chamado à aventura. Pode ser o Mentor, o Vilão ou  simplesmente um objeto como, por exemplo, uma carta.

Camaleão: é o personagem com personalidade dúbia, ou seja, nunca se sabe ao certo se ele está do lado do bem ou do mal. Por exemplo, o aliado que se revela inimigo no final ou o inimigo que salva o Herói em algum momento, revelando-se um aliado.

Sombra: Normalmente é o Vilão da história e deseja a destruição do Herói. É a personificação dos monstros internos de medos e traumas do subconsciente.

Pícaro: este personagem surge como um alívio cômico para equilibrar a seriedade da história. Serve também para derrubar o status quo do Herói e quebrar seu orgulho.


Estágios da Jornada do Herói


Estágio Um: Mundo Comum
    Cotidiano do Herói, sua zona de conforto.

Estágio Dois: Chamado à Aventura 

    Herói recebe um chamado a uma aventura inesperada.

Estágio Três: Recusa do Chamado

    Herói normalmente recusa ao chamado pois prefere ficar em sua zona de conforto.

Estágio Quatro: Encontro com o Mentor 

    Herói encontra um Mentor que o motiva e fornece dons para a aventura.

Estágio Cinco: Travessia do Primeiro Limiar 

    Herói enfrenta os guardiões entre seu mundo comum e o mundo da aventura.

Estágio Seis: Testes, Aliados, Inimigos

    Herói conhece o mundo especial, suas regras, amigos, inimigos e enfrenta diversos testes.

Estágio Sete: Aproximação da Caverna Oculta 
    Neste momento o herói se aproxima da grande provação

Estágio Oito: Provação 

    Na grande provação o herói chega no limite entre a vida e a morte na luta contra o Vilão, mas é salvo milagrosamente.

Estágio Nove: Recompensa (Apanhando a Espada)

    Por vencer a provação, Herói conquista uma recompensa.

Estágio Dez: Caminho de Volta

    Voltando para casa o herói se depara com uma ameaça muito maior. Aqui ele morre.

Estágio Onze: Ressurreição
    Como recompensa pelo seu sacrifício, o herói ressucita dos mortos e vence a grande ameaça final, tornando-se um ser superior.

Estágio Doze: Retorno com o Elixir
    O herói então volta para casa (mundo comum) ou fica no mundo especial, porém agora como uma nova pessoa, com novos conceitos e totalmente diferente do que era no início.

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quinta-feira, 29 de novembro de 2012

A Jornada do Escritor


Título original: The Writer's Journey
Autor: Christopher Vogler


Talvez uma das obras mais importantes já feitas sobre estrutura literária, "A Jornada do Escritor" explica os passos essenciais para que escritores ou roteiristas - leigos ou veteranos - possam escrever histórias com maestria, cuja mensagem se identifique com a alma de seu público. Para isto, Vogler baseia-se no legado grandioso do mitólogo Joseph Campbell, principalmente no livro "O herói de mil faces", bem como nas obras de psicologia de Carl G. Jung sobre arquétipos e inconsciente coletivo.

O livro "O herói de mil faces" de Joseph Campbell é uma maravilhosa viagem ao mundo dos contos de heróis de todas as eras, culturas e religiões, mostrando as inacreditáveis semelhanças entre eles. Com isso, Campbell conseguiu traçar alguns padrões nas histórias dos heróis antigos e identificou estes mesmos padrões na história de vida de todo ser humano, de todas as culturas. A estes padrões ele chamou de "Jornada do Herói". Christopher Vogler explora esta "Jornada" e as traduz para uma linguagem atual, fácil e divertida, contrastando com a linguagem de Campbell, que é mais densa e talvez canse alguns.

Além desta base mitológica, Vogler evoca conceitos da psicologia analítica de Carl G. Jung acerca de arquétipos e incosciente coletivo. Arquétipos podem ser definidos por "padrões de personalidade que são uma herança compartilhada por toda a raça humana". Em outras palavras, são tipos de personalidades comuns nos contos mitológicos antigos, como o Herói, Vilão, Arauto, Mentor, etc. Cada um possui uma função decisiva na história, fundamental para gerar conflitos e reviravoltas. O incosciente coletivo se entende como o lugar na mente humana de onde brotam esses arquétipos, que, segundo o autor, "são impressionantemente constantes através dos tempos e das mais variadas culturas, nos sonhos e nas personalidades dos indivíduos, assim como na imaginação mítica do mundo inteiro".

Como o título sugere, o livro parece ser voltado totalmente para escritores, tanto profissionais como aspirantes. De fato, para quem sonha em escrever livros ou roteiros, a leitura desta obra é obrigatória. Vogler não ensina uma técnica, mas mostra como as etapas da Jornada do Herói podem ser perfeitamente utilizadas para se construir e amarrar bem uma história. Utilizando-se de exemplos variados do cinema e literatura, ele esclarece que estes estágios não são fórmulas ou clichês, mas sim ferramentas que devem ser manipuladas e estruturadas - ou até desconstruídas - com muita criatividade. O fator determinante para uma boa história está justamente na inovação com que se brinca com estes arquétipos e estágios.

Porém, o livro não serve somente para escritores. Estudar a Jornada do Herói na linguagem direta e atual de Vogler é uma viagem maravilhosa para qualquer um que ama viver a vida intensamente. É muito interessante identificar os tipos de personalidade que nos cercam e as etapas pelas quais passamos no nosso dia a dia e saber que estes elementos estão presentes em filmes, romances, contos e na vida real.

Para conhecer em detalhes quais são os arquétipos e as etapas da Jornada, leia o artigo  "A Jornada do Herói".
Aconselho ler também a apostila do Eduardo Sphor sobre estrutura literária, baseado neste livro:

http://filosofianerd.com.br/pdf/estrutura_literaria_apostila.pdf

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E você, o que acha sobre isso? Acredita no inconsciente coletivo? Acredita que todos os heróis passam por etapas semelhantes? Você acha que a Jornada do Herói pode se tornar um clichê no cinema ou literatura?
Deixe seus comentários abaixo!

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Explorando o mundo do Novo Testamento


"Queremos realmente depender de uma fé que não suporta qualquer contestação? Não é melhor descobrir os pontos fracos na edificação de uma casa antes de a comprarmos? Se possível, poderemos consertá-los, do contrário não compraremos a casa. Sócrates afirmou que a vida que não se deixa examinar não deve ser vivida. A fé que não é posta à prova, merece ser vivida?" Albert A. Bell Jr.


Título Original: Exploring the New Testament World
Autor: Albert A. Bell Jr.


Para muitas pessoas a Bíblia é um livro que contém a suprema revelação divina em cada letra e não deve ser contestada. Porém, não somos robôs ou papagaios para repetir fórmulas religiosas sem entender "porque" ou "como" os fatos históricos geradores da fé cristã de fato ocorreram.

Em Explorando o mundo do Novo Testamento, o historiador e doutor Albert Bell Jr. faz uma pesquisa exaustiva na história do mundo greco-romano do primeiro século, traduzindo para o entendimento moderno como viviam as pessoas daquele tempo nos mínimos detalhes. Sua análise vai desde uma visão geral da política, legislação e cultura do Império Romano, até os pormenores costumes morais e sociais daquele povo, passando pelas infindáveis diferenças e discussões filosófico-religiosas herdadas do Império Grego. E principalmente, como os judeus, o Jesus histórico (se é que existiu) e os primeiros cristãos viviam em meio a toda essa diversidade cultural.

O autor mostra-se muito gabaritado para trazer à luz muitas questões intrigantes para os que estudam e contestam a Bíblia, com excelentes fundamentos históricos. Contestar a Bíblia nem sempre é sinônimo de falta de fé, mas pode ser uma demonstração de seriedade na busca da verdade. Enquanto que  a aceitação cega dos fatos bíblicos pode constituir-se displicência e preguiça, e não alta piedade. Conhecer a fundo a história, geografia, costumes e cultura dos tempos bíblicos é fundamental para um entendimento correto do que está ali escrito.

Dentre os muitos assuntos e curiosidades mostradas no livro, fiz abaixo um resumo de alguns temas interessantes descritos na obra. Confira:

Influência grega na cultura judaico-cristã

Os judeus, depois de voltarem da diáspora babilônica (iniciada em 586 a.C.), trouxeram para Isreal muitos gregos, juntamente com sua cultura e filosofia. Estes se instalaram principalmente na Galileia, onde Jesus cresceu, segundo os Evangelhos. Por isso, muitos judeus de outras regiões desprezavam a Jesus, pois consideravam os galileus um povo misturado e impuro. Mateus descreve a região como "Galileia dos gentios" (Mt. 4:15).

Platão
Certamente o Jesus histórico (se existiu) cresceu em contato com estes estrangeiros e recebeu influência da filosofia grega, bem como Paulo, anos depois. Por exemplo, Sócrates (469-399 a.C.) e Platão (427-347 a.C.) acreditavam nos conceitos de imortalidade da alma e no monoteísmo. Epicuro (341-270 a.C.) pregava o desapego aos bens materiais, declarando que "amar o dinheiro ganho de forma injusta é errado, e amar o dinheiro ganho honestamente é vergonhoso" (conferir I Tm 6:10). Os estóicos  iniciaram o conceito de predestinação (conferir Rm 11) e diziam também que "tudo no universo coopera para um bem comum" (conferir Rm 8:28).

Prática Penal Romana

A leis romanas não exerciam a detenção como punição, mas somente durante o período em que o réu aguardava o julgamento. Delitos menores resultavam em multas ou açoites e para delitos maiores o condenado era levado ao exílio ou a trabalhar em minas e pedreiras. Vários tipos de crimes, desde calúnia ao assassinato, levavam o criminoso à pena de morte.

Cidadãos romanos tinham vários benefícios penais, dentre eles o de não receber punição física de nenhuma espécie antes de ser julgado. Paulo reclama com os carcereiros quando foi preso: "Açoitaram-nos publicamente e, sem sermos condenados, sendo homens romanos(...)" (At. 16:37). As autoridades ao ouvirem isso, ficaram com muito medo, pois tinham violado a lei romana. Mais tarde, em outra situação de prisão, enquanto Paulo aguardava julgamento (At. 28:16), ele não ficou numa cela solitária acorrentado, como muitos que gostam de "aumentar" os sofrimentos do apóstolo acreditam. Ele ficava em uma prisão domiciliar, vivendo normalmente sob vigilância, pregando o evangelho e recebendo visitas.


Cristianismo e os cultos mistérios

Entre os cultos religiosos greco-romanos do primeiro século estão os cultos secretos, repletos de rituais obscuros onde somente os iniciados podiam participar. O culto ao deus Mitra, por exemplo, consistia em reuniões fechadas a homens, normalmente em cavernas, onde o iniciante, convidado pelos demais, passava por um ritual de iniciação em que era banhado com sangue de touro e participava de uma refeição comunitária.

Imagem de Mitra
degolando um touro
Muitos dos participantes destes cultos foram atraídos pelo cristianismo, pois os ritos cristãos tinham semelhanças com os ritos a Mitra. O batismo cristão seria uma "iniciação" e as verdades reveladas do evangelho eram "mistérios", compreendidos somente pelos iniciados. O partir do pão também era uma prática comum nas reuniões em ambas as religiões. "O nascimento de Cristo é anunciado por uma estrela assim como o de Mitra. Ambos são nascidos de uma Virgem Imaculada que toma o nome de Mãe de Deus. As igrejas antigas possuem criptas subterrâneas que evocam os templos mitraícos. A fraternidade e o espírito democrático das primeiras comunidades cristãs se assemelham muito ao mitraísmo" (extraído de http://www.freemasons-freemasonry.com/19carvalho.html). Mitra nasceu no solstício de inverno, dia 25 de dezembro, data esta que, mais tarde, foi transformada no Natal cristão.

Templo mitraico

Não se sabe exatamente o quanto o mitraísmo influenciou os primeiros cristãos e o quanto os primeiros cristãos se aproveitaram destas semelhanças para aumentar a aceitabilidade do evangelho pelos pagãos. Paulo, por exemplo, utilizou uma linguagem e alegorias comuns aos praticantes do mitraísmo, como o termo grego misterion, usado 20 vezes por ele na Bíblia, para se referir aos "mistérios de Cristo" (p. ex. I Co 15:51). Porém, a origem do termo, na época, remetia diretamente a estes cultos secretos pagãos.


Origem do Batismo

Antes de Cristo, muitos gentios (não-judeus) simpatizavam com a fé judaica e se convertiam a esta religião. Para tal, as mulheres gentias deveriam passar por um banho inicial chamado miqva'ot que pode ter dado origem ao ritual cristão do batismo. Os homens, por sua vez, precisavam se circuncidar, o que gerava uma certa repulsa. O cristianismo, mais tarde, tornou-se uma opção mais favorável para que estes gentios pudessem adorar ao Deus judaico sem passar pela cirurgia (que não tinha anestesia!).


Desenho de peixe como símbolo cristão

Símbolo do peixe no marco
 das portas dos cirstãos
No tempo em que o Império Romano começou a perseguir os cristãos com mais violência (época de Calígula e Nero), o desenho de um peixe era frequentemente usado como um código secreto, no marco da porta, para indicar que naquela casa haviam cristãos. No grego, a palavra peixe era pronunciada como ictus , sendo soletrada com as letras jota, chi, teta, ipsilon e sigma, que eram usadas como acróstico para Jesus Cristos Teo Uios Soter (Jesus Cristo, Filho de Deus, Salvador).

Considerações finais

Analisando as questões e curiosidades citadas, conclui-se que um estudo aprofundado acerca da história e cultura do primeiro século é fundamental para entender o que aconteceu realmente naquela época. O fato de a filosofia grega e o mitraísmo terem influenciado os primeiros cristãos revela que muito provavelmente o Cristianismo nada mais é do que uma colcha de retalhos de fontes diversas.

Qual a sua opinião sobre esses assuntos? O que você pensa sobre os fatos históricos que originaram o Cristianismo? Deixe seu comentário abaixo!

domingo, 5 de agosto de 2012

Deuses americanos

Título original: American Gods
Autor: Neil Gaiman


"— Assim, como todos vocês tiveram oportunidade de descobrir sozinhos, existem novos deuses crescendo nos Estados Unidos, apoiando-se em laços cada vez maiores de crenças: deuses de cartão de crédito e de autoestrada, de internet e de telefone, de rádio, de hospital e de televisão, deuses de plástico, de bipe e de néon. Deuses orgulhosos, gordos e tolos, inchados por sua própria novidade e por sua própria importância. Eles sabem da nossa existência e tem medo de nós, e nos odeiam — disse Odin."
Extraído de Deuses americanos




Em Deuses americanos, Neil Gaiman traz para os dias atuais todas as mitologias e histórias religiosas antigas, de diversos povos, de diversas épocas diferentes, unidas em uma trama complexa, surreal, introspectiva e alucinógena. O universo mitológico clássico é confrontado com a moderna filosofia de vida norte-americana, que reverencia novas formas de satisfação do ego, como o dinheiro e a mídia.

Sua narrativa é sem pressa, até lenta demais no início, apresentando situações aparentemente desnecessárias, mas que no final do livro são explicadas e se encaixam perfeitamente com o todo da obra, sem deixar pontas soltas. O autor consegue magistralmente contar a história utilizando uma linguagem que é ao mesmo tempo moderna, lírica e poética, com gírias, frases de efeito sensacionais, situações fortes de sexo e violência e também explorando o surrealismo dos contos mitológicas. Não foi em vão que o livro recebeu o prêmio Hugo de melhor livro em 2002.

A história se passa nos Estados Unidos dos dias atuais e fala sobre um homem comum, que acaba de sair da prisão. Sem esperanças sobre o que fazer da vida, conhece incidentalmente uma série de pessoas com quem passa a viver uma vida repleta de acontecimentos estranhos e sobrenaturais.

A partir daí, a trama se desenvolve de forma épica, levando o leitor a um embate entre os deuses antigos, outrora grandes e poderosos, porém hoje fracos e esquecidos, contra os deuses novos, fortes e muito reverenciados, que são os "deuses de cartão de crédito e de autoestrada, de internet e de telefone, de rádio, de hospital e de televisão". Enfim, é uma viagem mitológica bizarra e uma sutil reflexão sobre as idolatrias que o mundo moderno - capitalista e consumista - tem praticado. A narrativa na atualidade é transpassada por flashbacks interessantes pela história da América e sua relação com toda esta complexidade espiritual na região.

Sobre sacrifícios

O livro trata da questão do sacrifício a deuses de diversas formas diferentes, desde sangue humano ou de animais, até de dinheiro e de tempo. Por exemplo, na trama, o deus nórdico Odin se fortalece com o sangue derramado nas guerras.
Além do sangue, o sacrifício de dinheiro alimenta o deus do consumismo nos dias atuais. Multidões vão diariamente aos templos do capitalismo (Shopping Centers, Cassinos, etc.), para oferecerem suas oferendas em troca de futilidades ou de ostentação. Estas ofertas, por sua vez, são encaminhadas pelos sacerdotes (funcionários e empresários) para os altares sagrados (Bancos e Bolsa de Valores).

Já o sacrifício de tempo alimenta o moderno deus chamado Mídia. Para explicar melhor isto, cito um trecho do livro, onde o protagonista, assistindo a televisão, é confrontado pela atriz de um seriado, que o chama de "dentro" da TV:

"— Quem é você? — perguntou Shadow.
— Tudo bem. Boa pergunta. Eu sou a caixa dos idiotas. Sou a TV. Eu sou o olho que vê tudo e sou o mundo do raio catódico. Eu sou o tubo dos tolos... o pequeno altar na frente do qual a família se reúne pra adorar.
— Você é a televisão? Ou é alguém na televisão?
— A TV é o altar. Eu sou aquilo pelo que as pessoas se sacrificam.
— Como se sacrificam? — perguntou Shadow.
— O tempo que têm — disse Lucy. — Às vezes, umas às outras. Ela levantou os dois indicadores e soprou a fumaça de revólveres imaginários das pontas dos dedos. Então piscou um olho, aquela piscadela famosa e adorada de I Love Lucy.
— Você é uma deusa?
Lucy deu um sorriso forçado e uma tragada de dama no cigarro.
— Posso dizer que sim."

E você, qual a sua opinião sobre este assunto? Já leu o livro? Gostou? Se não leu, o que acha sobre deuses, sacrifícios e deuses modernos, como o Consumismo e a Mídia? Comente abaixo e acrescente conhecimento útil a este artigo. Obrigado!

segunda-feira, 25 de junho de 2012

As crônicas de Artur




Título em inglês: Warlord Chronicles
Autor: Bernard Cornwell

Épico medieval grandioso, que mostra a lenda do "rei" Artur sobre uma perspectiva completamente diferente da que todos estão acostumados.
Dividida em três volumes (O Rei do inverno, O inimigo de Deus e Excalibur), a obra baseia-se em fatos reais da história para personificar um rei Artur bem realista e nada fantasioso. Realista em todos os sentidos: ambiente, história, política, costumes, religiões e, principalmente, na profundidade emocional dos personagens.
Sua narrativa é palpável, dinâmica e profunda. Suas descrições da Idade Média são sombrias, sujas, violentas e nojentas. O nível de detalhes mostrado, desde pulgas nas barbas dos guerreiros até o cheiro de fezes e urina nos aposentos de Merlin, fazem o leitor passear virtualmente por aqueles tempos no auge da Idade das Trevas.

Na história, Artur é filho bastardo do rei Uther, que governava a Bretanha por volta do ano 800 d.C.. Momentos antes de morrer, o rei dá a Artur a incumbência de proteger seu neto recém-nascido e legítimo herdeiro do trono, até que ele complete idade suficiente para governar o reino. Artur, então, deve proteger o futuro rei, bem como proteger a Bretanha da constante ameaça Anglo-saxã, que intenta invadir a região. Paralelamente a isso, Artur também luta para manter estável a união entre os diversos reinos da Bretanha, talvez a tarefa mais difícil. Mas o interessante é que Artur não é o personagem principal. O protagonista é Derfel, um jovem saxão criado por Merlin e que posteriormente torna-se um grande guerreiro de Artur.

Toda a narrativa passa-se nestes longos 20 anos de espera pelo crescimento do futuro rei e, enquanto isso, muitas intrigas, traições, alianças e batalhas acontecem, envolvendo reis e rainhas, príncipes e princesas, guerreiros e senhores da guerra, cristãos e pagãos. Toda a multidão de personagens e seus respectivos relacionamentos vão evoluindo e se aprofundando com o decorrer da trama. Artur, Guinevere, Lancelot, Galahad, Derfel, Merlin, Nimue, Morgana e muitos outros tornam-se tão reais como se o leitor estivesse vendo um filme. Surpresas e reviravoltas empolgam do início ao fim, sem nem um momento de lentidão chata, coisa difícil de acontecer numa obra de 3 volumes de cerca de 600 páginas cada uma.

As questões religiosas amarram muito bem as pontas da trama, colocando Merlin como um druida louco, sujo, nojento e inescrupuloso. Sua busca pela restauração do domínio dos deuses antigos sobre a Bretanha, juntamente com sua discípula e personagem chave na trama Nimue, leva o leitor a rituais pagãos macabros, de dar calafrios. Os ritos secretos a Mitra e Isís, impetrado por outros personagens, também mostram de forma impressionante o quão sinistro eram tais formas de adoração. O cristianismo, na época em expansão, é mostrado como uma religião de falsos e hipócritas bispos que utilizavam a crença para  enriquecer e conquistar poder.
Sem dúvida, é uma obra memorável. Ao final de cada volume, Cornwell descreve em anexo os fatos e lugares históricos nos quais os acontecimentos do livro estão relacionados. Isso só faz o leitor imergir mais fundo na trama, transformando o mito do Rei Artur em algo factível.

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