Pages - Menu

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Interpretação Psicológica do Dogma da Trindade

Título Original: Zur psychologie westlicher und ostlicher religion
Autor: Carl Gustav Jung

Neste tratado envolvendo psicologia e religião, Carl G. Jung organiza um conjunto de idéias interessantes sobre como e porque a Trindade é um elemento essencial na religião cristã, segundo padrões psicológicos. Inicialmente o autor discorre sobre as diversas aparições da figura trinitária, porém única, em diversas religiões da antiguidade. Depois, ele tenta responder porque o mito do deus cristão é trino e não uno ou duo. Por fim, Jung explica sobre a polêmica questão acerca de uma possível quaternidade, que a Igreja supostamente teria rejeitado no decorrer de sua história.

Em épocas remotas da história, antes de Abraão - antes de 2000 A.C. -, é possível encontrar diversas formas de adoração trinitária nas culturas primitivas. Por exemplo, na Babilônia antiga adorava-se Anu, Bel e Ea como um deus em três pessoas. Ea, a personificação do saber, era pai de Bel (o "senhor"), que personifica a atividade prática. Da mesma forma, no Egito antigo adorava-se o deus-rei-Ka, onde deus é o "pai" e o "filho", e havia um terceiro elemento chamado Ka-mutef, a força procriadora do deus. Além destes, existem inúmeros outros exemplos de divindades com as mesmas características nas culturas antigas, revelando uma manifestação de arquétipos do inconsciente coletivo (sobre arquétipos e inconsciente coletivo, leia o artigo "A Jornada do Escritor").

Mas porque este arquétipo é representado por três pessoas e não uma ou duas? Para explicar isto, o autor lança mão de conceitos filosóficos mostrando que, segundo os gregos, o número "um" ainda não é considerado um número sem o "dois", pois sem o "outro" não há contagem. Assim, Deus não poderia ser  uma pessoa somente. Já o número dois é a representação do oposto, do outro, do contraste entre o bom e o mal. O segundo dia da criação foi o único em que o autor de Gênesis não disse "e viu Deus que era bom"  (nem Deus gostava da segunda-feira, porque será?). Portanto, também não seria conveniente para uma representação divina um Deus que fosse "duo". A tensão entre o "um" e o "dois" leva a uma espécie de evolução, o "três". A eterna indeterminação do binário se resolve com um terceiro elemento. Na matemática, somente com três pontos é possível se formar um polígono, ou seja, uma figura com uma área significativa, enquanto que com dois forma-se somente uma reta. "O cordão de três dobras não se quebra tão depressa." (Ec. 4:12). É no número três que aparece pela primeira vez um começo, um meio e um fim.

Porém, existe uma complicada questão acerca de uma suposta quaternidade. Enquanto o número três representa a perfeição, o verdadeiro início das coisas que o "um" ou o "dois" não seriam capazes de ser, o quatro representa completude final. Segundo Jung, "a tríade é um esquema ordenador artificial, e não natural". Por exemplo, há quatro pontos cardeais. Quatro estações do ano. "O ideal de perfeição é o redondo, o círculo, mas sua divisão natural e mínima é a quaternidade". Onde estaria então o quarto elemento?

Das estações do ano, três representam a vida (verão, outono, primavera) e uma a morte (inverno). Os sonhos relatados por pacientes em consultórios de psicanálise revelam muitas vezes um padrão onde há três entidades iguais e uma diferente. Por exemplo: três homens e uma mulher sentados a uma mesa, três homens e um cachorro, um caçador e três cahorros, etc. Dos quatro evangelhos, três figuram Jesus como animal e o outro como Homem (Lucas). Ainda, três deles são sinópticos enquanto que o de João é totalmente diferente. O quarto elemento é o diferente, é o oposto. Deus precisou, na eternidade, antes mesmo dos anjos e de Lúcifer, criar o Mal, para que através deste Ele pudesse demonstrar a Sua Glória, segundo a mitologia cristã. Assim, o quarto elemento representa o Oposto de Deus, a Maldade, o Pecado. Ele obviamente não faz parte da Trindade divina, mas completa o ciclo para que a Santíssima Trindade possa ter sentido de existir.

Todos estes assuntos são demasiadamente difíceis de analisar, e de forma nenhuma existe a pretensão aqui de se chegar a conclusões exatas. O que Carl G. Jung tenta fazer em seu livro é apenas explorar evidências através de exaustivas pesquisas teológicas, filosóficas, históricas, mitológicas e psicanalíticas. Sua conclusão acerca do assunto carrega extrema humildade e flexibilidade:

"Assim pois não posso presumir que uma investigação do aspecto psicológico tenha esclarecido e resolvido definitivamente o problema dos conteúdos arquetípicos. Na melhor das hipóteses, o que fiz talvez não passe de uma tentativa mais ou menos bem ou mal sucedida de abrir um caminho que permita compreender um dos lados acessíveis do problema."

--

E você, o que acha disso? Na sua opinião, porque o mito do deus cristão é Trino e não uno ou duo? Com relação ao quarto elemento, Satanás, o que tem a dizer? Deixe seu comentário abaixo!

2 comentários:

  1. Me interesso muito por este assunto da trindade e a questão da quaternidade colocada por Jung. Mas acho que me interesso mais do ponto de vista psicológico do que do ponto de vista teológico.
    Estou lendo o livro de Jó de Jung agora que fala sobre este tema da quaternidade.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Legal Lucas. A trindade é um assunto muito mais complexo do que imaginamos. Também acho isso fascinante e não gosto de tratar a trindade da maneira simplista como a mentalidade evangélica em geral se propõe. É simples, mas não simplório. É complexo, mas não esotérico.
      Esse livro de Jó do Jung está na minha fila de leituras também.
      abs

      Excluir

Poderá também gostar de:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...