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domingo, 5 de agosto de 2012

Deuses americanos

Título original: American Gods
Autor: Neil Gaiman


"— Assim, como todos vocês tiveram oportunidade de descobrir sozinhos, existem novos deuses crescendo nos Estados Unidos, apoiando-se em laços cada vez maiores de crenças: deuses de cartão de crédito e de autoestrada, de internet e de telefone, de rádio, de hospital e de televisão, deuses de plástico, de bipe e de néon. Deuses orgulhosos, gordos e tolos, inchados por sua própria novidade e por sua própria importância. Eles sabem da nossa existência e tem medo de nós, e nos odeiam — disse Odin."
Extraído de Deuses americanos




Em Deuses americanos, Neil Gaiman traz para os dias atuais todas as mitologias e histórias religiosas antigas, de diversos povos, de diversas épocas diferentes, unidas em uma trama complexa, surreal, introspectiva e alucinógena. O universo mitológico clássico é confrontado com a moderna filosofia de vida norte-americana, que reverencia novas formas de satisfação do ego, como o dinheiro e a mídia.

Sua narrativa é sem pressa, até lenta demais no início, apresentando situações aparentemente desnecessárias, mas que no final do livro são explicadas e se encaixam perfeitamente com o todo da obra, sem deixar pontas soltas. O autor consegue magistralmente contar a história utilizando uma linguagem que é ao mesmo tempo moderna, lírica e poética, com gírias, frases de efeito sensacionais, situações fortes de sexo e violência e também explorando o surrealismo dos contos mitológicas. Não foi em vão que o livro recebeu o prêmio Hugo de melhor livro em 2002.

A história se passa nos Estados Unidos dos dias atuais e fala sobre um homem comum, que acaba de sair da prisão. Sem esperanças sobre o que fazer da vida, conhece incidentalmente uma série de pessoas com quem passa a viver uma vida repleta de acontecimentos estranhos e sobrenaturais.

A partir daí, a trama se desenvolve de forma épica, levando o leitor a um embate entre os deuses antigos, outrora grandes e poderosos, porém hoje fracos e esquecidos, contra os deuses novos, fortes e muito reverenciados, que são os "deuses de cartão de crédito e de autoestrada, de internet e de telefone, de rádio, de hospital e de televisão". Enfim, é uma viagem mitológica bizarra e uma sutil reflexão sobre as idolatrias que o mundo moderno - capitalista e consumista - tem praticado. A narrativa na atualidade é transpassada por flashbacks interessantes pela história da América e sua relação com toda esta complexidade espiritual na região.

Sobre sacrifícios

O livro trata da questão do sacrifício a deuses de diversas formas diferentes, desde sangue humano ou de animais, até de dinheiro e de tempo. Por exemplo, na trama, o deus nórdico Odin se fortalece com o sangue derramado nas guerras.
Além do sangue, o sacrifício de dinheiro alimenta o deus do consumismo nos dias atuais. Multidões vão diariamente aos templos do capitalismo (Shopping Centers, Cassinos, etc.), para oferecerem suas oferendas em troca de futilidades ou de ostentação. Estas ofertas, por sua vez, são encaminhadas pelos sacerdotes (funcionários e empresários) para os altares sagrados (Bancos e Bolsa de Valores).

Já o sacrifício de tempo alimenta o moderno deus chamado Mídia. Para explicar melhor isto, cito um trecho do livro, onde o protagonista, assistindo a televisão, é confrontado pela atriz de um seriado, que o chama de "dentro" da TV:

"— Quem é você? — perguntou Shadow.
— Tudo bem. Boa pergunta. Eu sou a caixa dos idiotas. Sou a TV. Eu sou o olho que vê tudo e sou o mundo do raio catódico. Eu sou o tubo dos tolos... o pequeno altar na frente do qual a família se reúne pra adorar.
— Você é a televisão? Ou é alguém na televisão?
— A TV é o altar. Eu sou aquilo pelo que as pessoas se sacrificam.
— Como se sacrificam? — perguntou Shadow.
— O tempo que têm — disse Lucy. — Às vezes, umas às outras. Ela levantou os dois indicadores e soprou a fumaça de revólveres imaginários das pontas dos dedos. Então piscou um olho, aquela piscadela famosa e adorada de I Love Lucy.
— Você é uma deusa?
Lucy deu um sorriso forçado e uma tragada de dama no cigarro.
— Posso dizer que sim."

E você, qual a sua opinião sobre este assunto? Já leu o livro? Gostou? Se não leu, o que acha sobre deuses, sacrifícios e deuses modernos, como o Consumismo e a Mídia? Comente abaixo e acrescente conhecimento útil a este artigo. Obrigado!

Um comentário:

  1. Esse livro é demais. Eu tinha acabado de conhecer Gaiman lendo Lugar Nenhum e pulei direto na livraria para comprar outra obra dele, quando dei de cara com Deuses Americanos. Nada a me arrepender: o livro é sobrenaturalmente excelente, assim com o autor.

    Excelente leitura, e sua resenha está perfeita!

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