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segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Mitologia Ocidental - Parte II

A IDADE DOS HERÓIS

No artigo anterior sobre Mitologia Ocidental, baseado no livro “As Máscaras de Deus - Vol. 3 - Mitologia Ocidental”, de Joseph Campbell, vimos que a história de abertura da religião judaica (início do Gênesis bíblico) possui muitas semelhanças com antigos mitos sumérios e, de forma impressionante, também está presente em culturas agrícolas dos trópicos como na África, Índia, Sudeste Asiático, Melanésia, Polinésia, México, Peru e até no Brasil. As principais características destes mitos e ritos são: “1. a serpente; 2. a mulher; 3. o assassinato da serpente, da mulher ou de ambas; 4. o crescimento de plantas comestíveis a partir da cabeça ou do corpo enterrado da vítima; 5. o surgimento da morte e da procriação nessa mesma época; 6. o término, com isso, da era mitológica” [1].

Campbell sugere que o conto judaico, bem como os demais mitos semelhantes, seria uma forma de sobrepujar as religiões predominantes anteriormente, que veneravam a serpente, a mulher e a mãe Terra. Agora, estes elementos são amaldiçoados pela doutrina da Queda. Outro conto interessante que pode conter traços de dominação cultural é a história de Caim e Abel. Aqui há um pastor de ovelhas que obtém o favor de Deus, enquanto um agricultor não. O agricultor, então, mata o pastor e recebe como maldição uma vida errante sobre a Terra. Os semitas, de onde se originaram os hebreus, eram pastores, e os povos conquistados de Canaã eram agricultores. Logo, é razoável um conto que exemplifique a superioridade do novo povo dominante. É interessante notar que contos semelhantes - da disputa entre um agricultor e um pastor - podem ser encontrados em diversas mitologias antigas, porém, em culturas agrícolas, o agricultor é o herói e o pastor, o vilão. Mas, sendo literal ou não, a história de Caim e Abel é, na verdade, uma profecia mostrando que o sangue do justo sempre será derramado pelo invejoso e ímpio. O cumprimento máximo desta previsão ocorre em Jesus Cristo, morto pelo homens, oferecendo uma oferta melhor a Deus: a sua própria vida.

Acerca de Moisés, um fato curioso é que o nome deste profeta não é de origem hebraica como muitos imaginam. Ele foi adaptado para o hebraico. Moisés é um nome de origem egípcia e significa “criança”. Vários faráos tiveram nomes com a mesma origem, porém acompanhados de nomes de deuses egípcios, como Ramsés (Ra-moisés), Tutmósis (Tut-moisés) e Amósis (A-moisés). É provável que o povo hebreu, após viver várias gerações como escravos no Egito, tenha absorvido muito de sua cultura e crenças. Além disso, existe uma suposição de que Moisés tenha sido fortemente influenciado pelos conceitos de um faraó chamado Akenaton. Durante seu reinado, Akenaton implantou um culto monoteísta no Império, mas morreu cedo e seus ideais religiosos revolucionários foram abandonados pelo seu sucessor, que entregou novamente o Egito ao politeísmo. Moisés, então, teria juntado este legado com as tradições orais hebraicas para libertar o povo de Israel da escravidão e instituir as bases da fé judaica.

Enquanto isso, na Grécia, as transformações mitológicas gregas ocorridas neste período - cerca de 1.000 a. C. - , foram fundamentais na construção do pensamento racional, humanista e individualista que predominou durante muitos séculos, influenciando de forma assustadora todo o ocidente e parte do oriente e resultando no que somos hoje como sociedade. Por exemplo, no conto da Odisséia de Homero, observa-se a criação do herói cuja realização individual sobrepuja a vontade coletiva. Enquanto os demais integrantes do grupo de Odisseu sempre falhavam e iam morrendo durante a jornada, o herói toma as decisões corretas e consegue retornar são e salvo. Em diversas situações, a libertinagem, a curiosidade e empolgação coletivas geram problemas diversos que somente são solucionados pelas habilidades do herói. Mas é conveniente assinalar que, na situação em que Odisseu se autodenomina “Ninguém” e fere o Cíclope - causando indiferença nos amigos do monstro ao tomarem conhecimento que “ninguém” o havia ferido - constata-se que, apesar do egocentrismo aparente do herói, há provações em que somente a anulação do ego, do nome e de fama pessoal é capaz de proporcionar vitória em uma esfera de forças transpessoais incontroláveis do subconciente.

Os gregos então, após vitórias militares surpreendentes contra os numerosos persas, passaram por um momento de amadurecimento político jamais visto até o momento. “Eles sentiam-se orgulhosos de ser homens em vez de escravos. De ser os únicos no mundo que tinham aprendido a viver não como servos de um deus (no sentido político, não individual), obedientes a alguma lei divina invocada, nem como funcionários ajustados a alguma ordem cósmica em eterna rotação; mas como homens com discernimento racional, cujas leis eram votadas, não ‘ouvidas’; cujas artes celebravam a humanidade, não a divindade (pois mesmo os deuses haviam agora se tornado homens) e, consequentemente, em cujas ciências a verdade e não a fantasia começava a aparecer. A constatação de uma ordem cósmica não era interpretada como um modelo para a ordem humana, mas como seu marco ou limite. Tampouco a sociedade era para ser santificada acima dos homens que a constituíam.” [1] [com notas minhas em itálico].

Nesta época, a ascenção das idéias filosóficas na Grécia sobrepujaram os determinismos religiosos. Muitos filósofos buscavam explicar a origem da vida de diversas formas. Um termo grego muito utilizado por todos eles para explicar o conceito de Deus, ou o Infinito ou a Essência de tudo era ἀρχή (que significa “princípio”). Alguns diziam que o ἀρχή era a água, outros o entendiam como o éter. Pitágoras, por exemplo, tinha um conceito diferente. Para ele, o ἀρχή eram os números, pelos quais a arte, a psicologia, a filosofia, o ritual, a matemática, a música e os esportes seriam reconhecidos como aspectos de uma única ciência da harmonia. “Portanto, finalmente, o conhecimento, e não o êxtase, tornou-se o meio de realização. E os antigos modos do mito e da arte ritualística uniu-se harmoniosamente a aventura alvorecente da ciência grega, para uma nova vida” [1]. Neste momento, a razão e a ciência tornaram-se os novos deuses gregos.

Não é em vão que o apóstolo Paulo fala "Porque os judeus pedem sinais, e os gregos buscam sabedoria; (...)", em uma alusão à insaciável sede grega por conhecimento e explicação racionais. Paulo conclui seu pensamento dizendo  "(...) mas nós pregamos a Cristo crucificado, certamente escândalo para os judeus, e loucura para os gentios", exemplificando assim que o âmago do Evangelho, a morte de Cristo pelos pecados da humanidade, não se explica racionalmente.

No próximo artigo veremos como a ciência grega envoluiu de maneira assustadora no decorrer dos últimos 500 anos a.C. a ponto de ser descoberto, nesta época, que a Terra era redonda e girava em torno do Sol, além de sua circunferência ter sido calculada com altíssima precisão. Veremos também como o conceito de ἀρχή (princípio divino) se transformou no amor platônico que, juntamente com a doutrina de um profeta persa chamado Zoroastro, influenciou e determinou os ensinamentos judaico e cristão posteriores.

Referências:
[1] As Máscaras de Deus - Vol. 3 - Mitologia Ocidental

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E você, o que acha sobre o início de Gênesis? Acha que a história de Caim e Abel é literal ou simbólica? Ou talvez tenha de fato acontecido, mas de outra forma? Acredita que a filosofia e ciência grega influenciaram a nossa sociedade atual? Comente abaixo:

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Mitologia Ocidental - Parte I

Introdução

Tendo em vista a necessidade de se conhecer as origens religiosas e culturais que envolvem a nossa sociedade ocidental atual, venho através deste e em artigos futuros, trazer à luz um conhecimento profundo e interessantíssimo que nem sempre é muito abordado em aulas de história ou nas igrejas. Baseado no livro “As Máscaras de Deus - Vol. 3 - Mitologia Ocidental”, de Joseph Campbell, pretendo esclarecer importantes aspectos históricos que moldaram este lado do mundo em seu racionalismo e individualismo excessivos, bem como explicar de onde nasceram as bases doutrinárias do judaísmo, cristianismo e islamismo.



PARTE 1 - A Idade da deusa

Existe uma teoria, aceita por muitos paleontólogos e arqueólogos - mas também muito contestada - de que há alguns milhares de anos antes de Moisés e até mesmo de Abraão, houve na Terra um período cujas crenças não eram dominadas por fortes deuses masculinos e nem os homens regiam a ordem social. Na transição pré-histórica entre as eras paleolítica e neolítica (entre dez e quatro mil anos a.C.) havia a chamada Era Matriarcal na região que posteriormente tornara-se a antiga Suméria, a civilização mais antiga de que se tem um conhecimento mais concreto. Desta era remotíssima, evidências arqueológicas mostram que os deuses predominantes eram representados pela figura feminina, já que a mulher era a “geradora de vida” pelo parto. Nesta época, em muitos lugares, as mulheres também exerciam um papel importante na organização social.

Fig. 1: Selo Sumério: a árvore da vida e do conhecimento,
a serpente, a mulher e o deus eternamente morto e ressuscitado
Tendo esta herança matriarcal, muitas crenças da Idade do Bronze (cerca de 3.000 a.C.) tinham como símbolos comuns a mulher como geradora de vida, bem como a serpente e a lua como divindades que representavam os ciclos de nascimento, crescimento, morte e ressurreição. A serpente por causa de sua capacidade de renovar sua pele, “morrendo e ressucitando” e a lua por suas fases, pelas quais se apaga (lua nova) e “ressucita” (minguante e cheia). Em muitas imagens encontradas, pode-se observar também a crença em um jardim de perfeição, onde há uma árvore da vida eterna e guardiões em seus limites (como pode ser observado na figura 1). Resumindo, os elementos essenciais de muitas crenças antigas eram: um jardim perfeito, mulher, serpente, guardião do jardim, fruto da árvore da vida eterna. Qualquer semelhança com o Jardim do Éden bíblico, talvez não seja mera coincidência.

Com o passar do tempo, uma sucessão de mudanças culturais e sociais nessas civilizações passaram a transformar suas crenças. Pastores nômades árias do Norte e semitas do Sul, passaram a dominar e invadir de modo violento os veneráveis locais de culto do mundo antigo, fazendo com que o racionalismo e força bruta - características masculinas – tomassem lugar da intuitividade feminina, dominante enquanto a humanidade adorava a deusa mãe Terra e vivia principalmente da colheita frutífera. Assim, “contra esse símbolo do poder imortal encontramos o princípio guerreiro da grande façanha do indivíduo que arremessou seu raio, fazendo ceder a antiga ordem de crença, bem como de civilização” [1]. No Ocidente, o princípio do livre-arbítrio, com sua carga moral de responsabilidade individual, estabelece a primeira característica distintiva da mitologia ocidental. Observa-se agora, oposta à ordem matriarcal de sociedade e culto, a ordem Patriarcal, “marcada pelo ardor da eloquência justa e pela fúria do fogo e da espada” [1].

Na ordem Patriarcal, os deuses masculinos passam a sobrepujar os deuses femininos. Heróis do céu passam a pisar nas serpentes e monstros da Terra. “Quer pensemos nas vitórias de Zeus e Apolo, Teseu e Perseu, Jasão e os demais, sobre os dragões da Idade do Ouro, ou nos voltemos para a de Jeová sobre o Leviatã, a lição é a mesma. A de uma força autopropulsora maior que a do destino de qualquer serpente terrena. (…) Todas são, acima de tudo, um protesto contra a adoração da Terra e os daimones da fertilidade da Terra” [1].

O ponto de vista Patriarcal veio para separar os pares de opostos – macho e fêmea, vida e morte, verdadeiro e falso, bem e mal – como se fossem absolutos em si mesmos e não apenas aspectos diferentes do todo, como se acreditava antes. Porém, apesar do Patriarcado ter dominado totalmente as formas de culto do Ocidente, resquícios do Matriarcado foram se arrastando ao longo dos séculos, no chamado “mito da mãe do deus morto e ressuscitado”. Tendo diversas representações locais desde 5500 a.C., esta deusa tem “sobrevivido” nas crenças de diversos povos, seja como Mãe dos deuses pelos frígios, Minerva pelos atenienses, Vênus pelos ciprianos, Diana pelos cretenses, Prosépina pelos sicilianos e Ceres pelos nativos de Elêusis. Para alguns, Juno, para outros, Belona, Hécate ou Ramnúsia. Mas seu nome mais conhecido na antiguidade era Rainha Ísis e na atualidade, Virgem Maria.

A evolução da ordem Patriarcal culminou também na separação impressionante das mentalidades Ocidental e Oriental. “No espírito europeu a força estruturadora nutre-se da longa formação de suas raças nas atividades da caça e, consequentemente, das virtudes do julgamento individual e da excelência independente. Ao contrário, no mais jovem porém culturalmente muito mais complexo Oriente Próximo, as virtudes da vida grupal e a submissão à autoridade foram os ideais incutidos no indivíduo que, em tal mundo, não é na verdade nenhum indivíduo – no sentido europeu – mas o componente de um grupo. E por toda a história conturbada da interação desses dois mundos culturais em seus movimentos pendulares alternados, o conflito insolúvel dos princípios do indivíduo paleolítico e do santificado grupo neolítico criou e manteve até hoje a situação tanto de reciprocidade criativa quanto de menosprezo mútuo” [1].

Um fator interessante relacionado às mitologias primitivas, é o quanto o judaísmo e o cristianismo foram por elas influenciados. Segue abaixo alguns exemplos desta possível influência:
  • Este relato sobre a ilha-paraíso suméria, Dilmun, no meio do mar primevo, de 2050 a.C., assemelha-se à profecia bíblica sobre o reinado do Messias na Terra.
    • “O leão não mata, o lobo não devora o cordeiro... A mulher de idade não diz: sou uma mulher de idade, O homem de idade não diz: sou um homem de idade.” (Relato sumério)
    • "E morará o lobo com o cordeiro, e o leopardo com o cabrito se deitará, e o bezerro, e o filho de leão e o animal cevado andarão juntos, e um menino pequeno os guiará” (Isaías 11:6)
  • Descrição de um antigo mito sumério, com seus paralelos bíblicos:
    • “O céu (An) e a terra (Ki) eram no princípio uma única montanha indivisa (Anki), da qual a parte inferior, a terra, era feminina, e a superior, o céu, masculina. Mas os dois foram divididos (como Adão, dividido em Adão e Eva) por seu filho Enlil (na Bíblia, pelo criador Jeová), quando surgiu o mundo da temporalidade (como ocorreu quando Eva comeu a maçã).” [1]
  • Na mitologia da antiga babilônia, onde o senhor Marduk, filho do grande deus Ea, derrota a monstruosa Tiamat e seus demônios, tem-se paralelos incríveis com a doutrina da criação bíblica:
    • O nome da mãe-monstro babilônica ti'amat, está etimologicamente relacionado ao termo hebraico tehom, “o profundo”, do segundo versículo de Gênesis. Assim como o vento de Anu (no conto mitológico) soprou sobre o Abismo, e o de Marduk sobre a face de Tiamat, também no Gênesis 1:2, “um vento [ou espírito] de Elohim pairou [ou soprou] sobre as águas”. Por outro lado, quando Marduk estendeu a metade superior do corpo materno como um teto, com as águas do céu sobre este teto, também em Gênesis 1:17, “Elohim fez o firmamento, que separou as águas que estão sob o firmamento das águas que estão acima”; e ainda, como Ea venceu Apsu e Marduk venceu Tiamat, também Jeová venceu os monstros marinhos Raab (Jó 26:12,13) e Leviatã (Jó 41; Salmo 74:14).
Conclusão

Neste primeiro artigo vimos as transformações nas civilizações primitivas que supostamente influenciaram a origem de crenças ocidentais posteriores. É muito interessante saber que o antigo e difundido mito do "deus nascido de uma virgem, eternamente morto e ressuscitado" está presente em diversas crenças da antiguidade e não somente no Cristianismo.

Referências:
[1] As Máscaras de Deus - Vol. 3 - Mitologia Ocidental

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E você, acredita que houve uma era Matriarcal? Acredita que algumas histórias da Bíblia podem ser evoluções de antigas crenças sumérias, ou não? Deixe abaixo seus comentários:

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

O Analista

Título Original: The Analyst
Autor: John Katzenbach

"Sempre há pessoas que se sacrificam para que outras pessoas possam viver. Soldados em combate. Bombeiros em um prédio em chamas. Policiais nas ruas. A sua vida é tão adorável e produtiva e tão importante que possamos automaticamente admitir que ela seja mais valiosa do que a vida que ela poderia salvar?"
(Extraído de O Analista)

Existem livros ruins, e chegar até a metade deles já é um grande feito. Existem livros bons. Estes, indicamos reativamente, ou seja, quando somos questionados sobre eles ou em alguma conversa ocasional sobre o assunto que lembre a obra. Porém, existe uma outra categoria de livros, que se encontra bem acima daqueles considerados bons. Existem os livros que nos marcam profundamente. Estes, indicamos proativamente, como se fosse obrigação a sua leitura. São histórias que levam o leitor a viver a vida dos personagens de forma tão intensa que, quando terminado, ele respira como se tivesse perdido o fôlego durante toda a sua leitura. O Analista, de John Katzenbach, se enquadra nesta categoria... a categoria de livro perfeito.

Nesta obra-prima do suspense psicológico, Katzenbach constrói um complexo e empolgante thriller moderno com uma narrativa dinâmica e repleta de tensão, muitos climax, personagens profundamente cativantes e assustadores e reviravoltas inacreditáveis. Tudo isto é orquestrado em perfeita harmonia na composição de uma trama muito bem estruturada, sem pontas soltas e com um ritmo que não perde a cadência em nenhum momento.

O livro conta a história de Frederick Starks, um psicanalista experiente, que, ao completar 53 anos, recebe uma misteriosa carta com os dizeres: "Feliz aniversário de cinquenta e três anos, doutor. Bem-vindo ao primeiro dia de sua morte". Ainda na carta, dr. Starks é ameaçado por alguém que diz "pertencer ao seu passado" e o desafia a se matar ou a descobrir a identidade de seu algoz. Caso contrário, uma lista de 53 nomes de parentes do médico seria alvo de destruição, tanto psicológica quanto física.

O autor se revela um mestre do suspense ao levar o leitor a montar um tenebroso quebra-cabeças psicológico, onde o protagonista deve usar de seus conhecimentos de psicanálise para tentar descobrir quem o está ameaçando. Assim, ele entra em uma perigosa investigação para desencavar de seu passado o motivo que levou este psicótico a odiá-lo e desejar a sua morte. Em meio ao caos de muita tensão e acontecimentos aterradores, o personagem principal é conduzido a um verdadeiro inferno psicossomático, interagindo com personagens marcantes em sua profundidade emocional.

É fascinante o fato de uma trama tão complexa, envolvendo inúmeros personagens e lugares, do passado e do presente, ser tão bem amarrada e extremamente verossímil. O elemento surpresa está presente a todo instante, fazendo o leitor se surpreender a cada página, gerando uma ansiedade adrenalínica acerca da misteriosa identidade do vilão, principalmente depois da primeira metade, onde a história sofre uma reviravolta alucinante.

Além de ser emocionante do ponto de vista ficcional, o livro passa ainda uma interessante mensagem sobre as consequências catastróficas que nosso estilo de vida egocêntrico podem gerar no futuro.

Leitura obrigatória!

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

As Crônicas de Nárnia

Título Original: The Chronicles of Narnia
Autor: C. S. Lewis

"Oh, Filhos de Adão, com que esperteza vocês se defendem daquilo que lhes pode fazer o bem!" Aslan

Um grande clássico da literatura fantástica infantil, As Crônicas de Nárnia são uma série de livros sobre um universo paralelo, para onde crianças de nosso mundo viajam, vivendo excitantes e divertidas aventuras com anões, fadas, faunos, animais falantes, feiticeiras, gigantes e dragões. Porém, a obra não se resume somente a isto. Em meio a todo este vasto universo mitológico, C. S. Lewis consegue com genialidade permear as histórias com muita sabedoria, filosofia e princípios morais, sem parecer chato ou religioso.



São sete pequenos livros:
1 - O Sobrinho do Mago
2 - O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa
3 - O Cavalo e seu Menino

4 - Príncipe Caspian
5 - A Viagem do Peregrino da Alvorada
6 - A Cadeira de Prata
7 - A Última Batalha

No primeiro livro (O Sobrinho do Mago), Lewis conta a origem de um mundo mágico, com um país chamado Nárnia, criado pela canção de um Leão falante e sábio chamado Aslan. Sua canção gera vida e faz surgir milhares de seres estranhos, como faunos, centauros, animais que falam, sereias, etc. Através de um anel mágico, um menino na Inglaterra consegue entrar neste mundo, causando problemas e vivendo perigosas aventuras junto com uma amiga e seu tio, um mago. É muito interessante conhecer as origens de determinados elementos e de personagens presentes nas histórias seguintes, como o poste misterioso no meio da floresta, a feiticeira branca e o armário mágico.

A partir do segundo livro em diante, o autor elabora diversas aventuras independentes, porém todas interligadas por personagens e situações comuns e de vital importância no conjunto total da obra. Todas estas tramas divertem bastante, com muita correria, perigos, guerras, magia, traição, romance e lições de coragem, amizade e fidelidade. Os diálogos entre os animais falantes são muito engraçados, mostrando um interessante "preconceito" dos animais para com os homens, devido às diferenças de costumes entre as raças. Este "preconceito", na verdade, é uma sutil crítica de Lewis para com aqueles que não compreendem a cultura ou o comportamento de pessoas que vivem em um contexto diferente do nosso.

Um alerta importante para os que pretendem se aventurar em Nárnia com estes livros é o fato de serem histórias bem infantis. Talvez isso incomode os leitores adultos e acostumados com uma literatura mais madura. Diferentemente dos livros de Tolkien, que se adaptam facilmente a todas as idades, As Crônicas de Nárnia são uma experiência maravilhosa para os pequenos, mas é provável que poucos adultos se empolguem com essa leitura. Como C. S. Lewis era um religioso protestante, a obra é permeada de mensagens cristãs subliminares, como esta, por exemplo:

"– Vejam só, companheiros: antes que o mundo limpo e novo que lhes dei tivesse sete horas de vida, a força do Mal já o invadiu; despertada e trazida até aqui por este Filho de Adão.(...)
– Mas não se deixem abater. O mal virá desse mal, mas temos ainda uma longa jornada, e cuidarei para que o pior caia em cima de mim. Por enquanto, providenciemos para que, por muitas centenas de anos, seja esta uma terra de júbilo em um mundo jubiloso. E, como a raça de Adão trouxe a ferida, que a raça de Adão trabalhe para saná-la."


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E você, já leu os livros? Conte sua experiência!

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

1984

Título Original: 1984
Autor: George Orwell  (1903 - 1950)
 
"Quem controla o passado controla o futuro; quem controla o presente controla o passado."

Talvez um dos livros mais importantes do século XX e muito mais do que uma ficção política futurista, 1984 é uma séria advertência contra toda e qualquer forma de sistema de manipulação de massas, seja de caráter político, religioso ou científico. Escrito em 1944, o que deveria ser apenas uma crítica ao sistema comunista russo da época, tornou-se uma obra-prima atemporal, que instiga o leitor a refletir acerca da sociedade em que vivemos. Manipulação do pensamento, guerras eternas, inimigos fictícios e o controle da informação são alguns dos assuntos tratados nesta impressionante história profética, que ilustra ludicamente fatos que assustadoramente tem acontecido nos últimos 60 anos da história da humanidade.

A história se passa em um futuro distópico, no ano de 1984, no país chamado Oceania, em que um governo totalitário controla todas as ações e pensamentos de seus cidadãos através de teletelas (televisores com câmeras e microfones) instaladas por todos os cantos. O misterioso líder deste governo, o Grande Irmão, é o "olho que tudo vê", e castiga de forma brutal todo aquele que manifestar qualquer pequeno sinal de desvio de conduta contra o seu Partido. Esses cidadãos, por sua vez, amam o Grande Irmão e o Partido, fanaticamente. Winston, um funcionário do governo que trabalha no Ministério da Verdade, cuja função é manipular as notícias e recriar a história conforme os interesses do Partido, resolve se rebelar contra o sistema com a ajuda de uma amiga, e descobre que terá que lutar contra algo muito mais poderoso do que poderia imaginar.

A data que o autor sugeriu para este futuro, em 1984, torna-se irrelevante para nós hoje e a trama em si é muito simples, apesar de possuir boas doses de suspense. Mas o melhor do livro é o cenário em que a história se passa e sua mensagem, extramamente atual, pode ser aplicada a toda e qualquer espécie de ideologia social, política, religiosa, filosófica ou científica. No livro, o Partido dominante governa baseado não pela força, mas na operação estratégica de "conversão" a uma forma de pensar dúbia, chamada duplipensamento. Segundo esta técnica de logro mental, as pessoas passam a acreditar em conceitos contraditórios ao mesmo tempo. Elas perdem a noção do certo e do errado, e passam a assumir como certo aquilo que o Partido diz ser certo. Este, por sua vez, constantemente adultera a história do país - excluindo e incluindo fatos em livros e jornais, criando e eliminando personagens, reais ou fictícios -, enquanto os cidadãos vivem uma espécie de amnésia oficial, acreditando e duvidando ao mesmo tempo.

Outro fator importante abordado no livro é a forma com que o Partido canaliza o ódio e revolta das pessoas para guerras sem fim e inimigos fictícios, distraindo as pessoas para que não se revoltem contra o Partido. O Partido estimula os cidadãos contra um determinado cidadão, Emmanuel Goldstein, que representa o grande inimigo da lei e da ordem. Não se sabe se ele realmente existe ou não. O que importa é gerar um frenesi de ódio contra ele e fazer com que as pessoas tenham um inimigo em quem colocar a culpa de todos os males.

A todo instante vemos governos e igrejas fazendo a mesma coisa em nosso mundo. Vietnamitas, Sadan Hussein e Osama Bin Laden são alguns exemplos de inimigos "criados" pelo governo norte-americano, com a finalidade de distrair a população, que por sua vez não busca o conhecimento verdadeiro dos fatos históricos, mas acreditam cegamente no que o Grande Irmão "Tio Sam" fala. Estude a fundo sobre Guerra do Vietnan, Guerra do Golfo e sobre Bin Laden e verá que os conceitos de "amigo" ou "inimigo" são relativos dependendo dos interesses de quem manda. Já no âmbito religioso, existem outras formas de se criar "inimigos". Por exemplo, muitos culpam o Diabo ou o Carma pelas desgraças de sua vida, quando na verdade o que falta é coragem para assumir seus erros ou enfrentar os desafios e provações concernentes a todo ser humano.

Em suma, 1984 é leitura obrigatória a todo aquele que não deseja ser mera massa de manobra, para aqueles que buscam ser pessoas autênticas, que anseiam por expressar sua opinião ainda que ela seja diferente da opinião de todos, para aqueles que não se contentam com verdades absolutas sem uma averiguação mais profunda e para aqueles que odeiam a Mídia repleta de parcialidade e controlada por interesses políticos. Este livro é para quem deseja agir de forma não convencional e ir na contra-mão do sistema, visando a verdadeira liberdade de espírito.

Se você ainda não leu o livro, aconselho a colocá-lo no topo de sua lista de leitura. É de fato uma obra muito importante, que merece uma atenção especial.
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O que você pensa sobre a manipulação de massas pela Mídia, políticos e igrejas? Acredita que isso acontece em nosso país (Brasil)? Comente sobre estes assuntos abaixo!

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

O Mestre do Amor

Título Original: O Mestre do Amor
Autor: Augusto Cury

"A maior vingança contra um inimigo é perdoá-lo" Augusto Cury

Neste livreto sobre os ensinos de amor de Jesus, Augusto Cury leva o leitor a uma deliciosa viagem pelos misteriosos caminhos dos sentimentos deste personagem mitológico em suas últimas horas de vida na cruz. A análise racional e psiquiátrica do autor revela como Jesus superou todos os ataques à sua saúde mental e espiritual, perdoou seus ofensores, levou seus ouvintes à plena liberdade e foi capaz de moldar o caráter de homens rudes, segundo os contos dos Evangelhos - fictícios, porém cheios de bons exemplos.

Falar sobre Jesus Cristo sem o viés religioso da fé é algo que poucos cientistas se atrevem a fazer. Augusto Cury - médico, psiquiatra e psicoterapeuta - se lança neste terreno inexplorado e consegue, com admirável habilidade, analisar a mente do Mito Jesus sem as bases absolutistas que as religiões impõem para passar suas idéias. Um dos poucos racionalistas famosos da atualidade que ainda acredita em Deus - total contradição, aff - Cury destaca nesta obra os detalhes das ações, emoções e pensamentos de Jesus. Ele mostra que, mesmo tendo todos os motivos para ser uma pessoa mal-resolvida emocionalmente, ele venceu, através do amor, todos os potenciais traumas que fariam dele mais um pobre cidadão oprimido, como muitos em seu tempo.

Segundo Cury - que é um especialista em fenômenos neurológicos - qualquer pessoa submetida a tortura e sofrimento perde sua razão e passa a agir agressivamente como um animal. Relatos históricos acerca de criminosos crucificados mostram que estes ficavam se contorcendo freneticamente na cruz como loucos, ansiando sair daquele sofrimento. O que Jesus fala no ápice de sua dor - "Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem" - revela que o perdão não deve ter limites. Além disso, chegou a rejeitar um anestésico que os romanos davam para aliviar a dor dos condenados. Segundo o autor, Jesus "não queria perder a consciência em nenhum momento do seu martírio. Queria viver as aflições humanas até o final.".

Alguns acreditam que a melhor forma de educar e organizar um grupo social é através do controle ditatorial. A história nos mostra que este método não funciona, mas muitos insistem em impor suas regras rígidas em seus lares ou sobre seus subordinados no trabalho, achando que estão cumprindo com seu dever. Os fariseus também acreditavam que estavam servindo a Deus crucificando Jesus. Este porém, em contraste com o legalismo religioso baseado em Moisés, ensinava as pessoas a serem livres, atuando no funcionamento da mente. Ele sabia que "o amor é a maior fonte de motivação e de transformação interior". Jesus constantemente instigava seus ouvintes à dúvida, respondendo com perguntas, levando-os a questionar e refletir. Frases como "Quem não tem pecado, atire a primeira pedra" (Jo 8:7) ou "De quem é esta efígie e esta inscrição?" (Mt 22:20) mostram que Jesus não ensinava baseado em leis absolutistas, mas sim, na liberdade do pensamento, baseado no amor.

E por fim, Jesus investiu seu tempo em "trabalhar pessoas difíceis, para mostrar que vale a pena investir no ser humano". Muitas vezes não compreendemos porque temos que lidar com pessoas tão difíceis em nosso lar, trabalho ou escola. Jesus pegou escórias da sociedade e os transformou em mestres na arte de amar. Segundo o autor, "[Jesus] conduziu-os a despir suas máscaras sociais e a descobrir que a felicidade não está nos aplausos da multidão nem no exercício do poder, mas nas avenidas da emoção e nas vielas do espírito".

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E você, o que pensa sobre as lições de amor deste personagem mitológico do cristianismo? Deixe nos comentários sua opinião...

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

O morro dos ventos uivantes

Título Original: Wuthering Heights
Autor: Emily Brontë (1918 - 1948)

Nesta obra prima da literatura inglesa do século XIX temos um complexo, indigesto e conturbado romance. Forte e violento, macabro e doentio. É difícil até mesmo escrever uma resenha sobre ele, pois seu gênero varia de romance a terror psicológico, de drama melancólico a suspense sobrenatural. Um livro peculiar, que, ou o leitor ama, ou odeia. Único livro escrito por Emily Brontë - que morrera de tuberculose aos trinta anos -, foi mal compreendido na época de seu lançamento, mas reverenciado, anos depois, como uma das melhores novelas já feitas na história da literatura.

Toda a história se passa no interior da Inglaterra, por volta do ano 1800, em duas granjas vizinhas isoladas da cidade. Seus moradores - as famílias Earnshaw e Linton - viviam com certa tranquilidade até que um dia, o Sr. Earnshaw viaja para cidade e traz consigo uma criança estranha que mendigava pelas ruas. O menino, chamado Heathcliff, tinha origem e sobrenome desconhecidos. Sua adaptação a esta nova família acaba sendo muito conturbada e, conforme ele crescia, a vida tranquila nestas fazendas nunca mais seria a mesma.

Para as meninas que gostam de romances melosos, esse livro não é para vocês. A autora elabora com maestria uma linha do tempo, contando a história de duas gerações de duas famílias que são confrontadas com seu próprio orgulho, egoísmo e preconceito e saem de um pseudo-paraíso para o inferno ao longo de suas vidas. Esta é uma história de ódio, vingança e sofrimento. Chega a ser depressivo em alguns momentos e, após concluir a leitura, o leitor precisa de um tempo - dias ou semanas - para meditar na mensagem que ela passa sobre egocentrismo e suas consequências.

Emily Brontë foi soberba na escrita, que, apesar de densa, não chega a cansar e prende o leitor pela descrição arrebatadora de ambientes e intensidade dos personagens. Um deles destaca-se pela sua chocante malignidade. Este sujeito gera nojo e repulsa no leitor durante quase todo o livro. Ele é a personificação da pura maldade e perversidade. Suas atitudes vingativas e o terror psicológico imposto em suas vítimas são tão diabólicos que fazem com que Darth Vader ou Hannibal Lecter pareçam anjinhos perto dele. Para escritores que estejam em busca de referências criativas para construir um autêntico vilão em suas histórias, de dar calafrios na espinha, recomendo fortemente este livro.

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